O presbiterianismo brasileiro descende do norte-americano, e especialmente daquele praticado na fronteira norte-americana durante o séc. XIX, com toda a influência avivalista que caracteriza esse momento no protestantismo norte-americano.
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segunda-feira, 27 de agosto de 2018
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
O uso do "Sursum corda" em Calvino
por Jack KinneerOriginalmente publicado em Roots of Reformed worship, n. 6, 1998.
Embora Calvino tenha dado a seu manual de culto de 1542 o título de A Forma das Orações e o modo de ministrar os Sacramentos segundo o uso da Igreja antiga, há pouca conexão textual entre a liturgia de Calvino e as fórmulas litúrgicas da antiguidade. Muitos dos elementos considerados clássicos não estão presentes em sua Forma das Orações. Ele não usa o Kyrie eleison, o Agnus Dei, o Te Deum, o Gloria in excelsis ou o Sanctus. Contudo, em um ponto de sua liturgia, Calvino decidiu conservar um trecho de um texto litúrgico antigo. Este texto é normalmente chamado de Sursum corda.
sábado, 2 de junho de 2012
Simpósio Arte & Júbilo, primeiro dia.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Sobre togas e túnicas
Nos comentários do post Presbiterato e vestes talares, Thiago Titillo deixou perguntas que eu acho que valem um post próprio. Vamos a elas!
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Liturgia Evangélica 4: A Congregação
Por Michael "iMonk" Spencer.Originalmente publicado em InternetMonk, em 19 de agosto de 2009. Traduzido com permissão.
Eu andei pensando bastante sobre este post, e eu simplesmente não consigo pensar em nada pra dizer que não seja o óbvio.
O culto público evangélico é o culto do povo de Deus. Deus atua, fala, convida e oferece. O povo de Deus responde em adoração, serviço, ministério e missão. Esse é o espírito e o conteúdo do culto como um evento do povo de Deus reunido e como uma influência constante. Fazer do culto evangélico qualquer outra coisa é deturpar o culto.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Liturgia Evangélica 3: Os líderes
Por Michael Spencer (iMonk)
Originalmente publicado em InternetMonk, 16 de agosto de 2009. Traduzido com permissão.
Introdução, Parte 1, Parte 2.
Se você está esperando um tratado completo de Teologia Pastoral, terá de me desculpar. Eu vou falar aqui sobre a relação dos líderes com o serviço de culto propriamente dito, e algumas questões correlatas. O sermão será um tópico separado. Um dos argumentos que eu quero colocar é que o papel do ministro não se resume ao de pregador.
Originalmente publicado em InternetMonk, 16 de agosto de 2009. Traduzido com permissão.
Introdução, Parte 1, Parte 2.
Se você está esperando um tratado completo de Teologia Pastoral, terá de me desculpar. Eu vou falar aqui sobre a relação dos líderes com o serviço de culto propriamente dito, e algumas questões correlatas. O sermão será um tópico separado. Um dos argumentos que eu quero colocar é que o papel do ministro não se resume ao de pregador.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Liturgia Evangélica 2: A Caixa de Ferramentas
Por Michael Spencer (iMonk)
Originalmente publicado em InternetMonk, em 15 de agosto de 2009. Traduzido com permissão.
NOTA: Já leu a Introdução? O primeiro post? Você deve.
As "ferramentas" para o culto referem-se aos livros e literatura de apoio necessários para fornecer um conteúdo, sabor e limites distintamente evangélicos ao culto público.
Um dos problemas com o culto evangélico é que a "caixa de ferramentas" inteira é, com freqüência, apenas o pastor e/ou o "líder de louvor"! Isso jamais deveria ser assim. Um membro ou visitante de igreja protestante deveria sempre poder recorrer à caixa de ferramentas de conteúdo autoritativo e não-autoritativo, e compreender o que está acontecendo no culto e mesmo o por quê do que está acontecendo.
Originalmente publicado em InternetMonk, em 15 de agosto de 2009. Traduzido com permissão.
NOTA: Já leu a Introdução? O primeiro post? Você deve.
As "ferramentas" para o culto referem-se aos livros e literatura de apoio necessários para fornecer um conteúdo, sabor e limites distintamente evangélicos ao culto público.
Um dos problemas com o culto evangélico é que a "caixa de ferramentas" inteira é, com freqüência, apenas o pastor e/ou o "líder de louvor"! Isso jamais deveria ser assim. Um membro ou visitante de igreja protestante deveria sempre poder recorrer à caixa de ferramentas de conteúdo autoritativo e não-autoritativo, e compreender o que está acontecendo no culto e mesmo o por quê do que está acontecendo.
domingo, 16 de maio de 2010
A Liturgia Evangélica 1: O ambiente de culto
Por Michael Spencer (iMonk)Originalmente publicado em InternetMonk, 14 de agosto de 2009. Traduzido com permissão.
Link para um ótimo artigo (em inglês) sobre o design do espaço litúrgico no Calvin Institute of Christian Worship.
Nota: alguém me perguntou onde foi que eu, um Batista do Sul, peguei a febre da liturgia. Eis aqui uma foto da Igreja Batista de Highland, em Louisville, onde eu ministrei por três anos. Do presbitério. E do lado de fora.
O culto da Nova Aliança pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer momento. Não existe um tipo de lugar especificada nas Escrituras, nem qualquer disposição dos elementos externos do culto que nós somos mandados imitar.
(iMonk) Nova série: A liturgia evangélica - Introdução

Por Michael Spencer (iMonk)
Originalmente publicado em InternetMonk, em 13 de agosto de 2009.
***
A partir de hoje, a SLR começa a publicar uma série de autoria de Michael Spencer, o falecido iMonk, sobre as igrejas evangélicas (quase universalmente a-litúrgicas do ponto de vista da tradição ocidental) e a relação que elas podem estabelecer com a forma do culto da Igreja universal.
iMonk foi batista de berço, tomou contato com a liturgia histórica ainda no seminário e tornou-se um entusiasta da sua promoção nas igrejas evangélicas, que não costumam ter laços com a tradição cristã histórica.
Suas lições podem muito bem se aplicar a igrejas protestantes que perderam o contato com as suas raízes. A SLR agradece, como sempre, a autorização de tradução e publicação desses artigos, dada pelos editores do InternetMonk.
O Editor
***
Estou começando uma série de breves (espero) posts sobre "a liturgia evangélica". Nestes posts, eu vou pesquisar os elementos básicos de uma ordem de culto protestante tradicional, em uma igreja tradicional. E vou oferecer um breve comentário de cada um desses elementos, na intenção de explicar e desdobrar o que eu vejo como o valor de uma liturgia tradicional evangélica.
terça-feira, 27 de abril de 2010
Doutor StrangeLiturgy

Eu tenho amigos em lugares high-church.
Por Michael Spencer*
Originalmente publicado em InternetMonk, em 11 de abril de 2010. Traduzido com permissão.
A graça de eu estar em pé diante de uma igreja presbiteriana, vestindo toga, recitando o Credo Apostólico e dirigindo confissões congregacionais ainda não se perdeu pra mim. Se ao menos o pessoal da Igreja Batista de Hall Street pudesse me ver agora... eles não estariam rindo. (É Thomas Cranmer ali no canto com o sorrisinho irônico?)
quinta-feira, 4 de março de 2010
O incomum Livro de Oração Comum: ainda um best-seller, depois de 450 anos
Artigo originalmente publicado em inglês na revista Reformed Worship, n.º 53, Setembro de 1999.
Por Paul E. Detterman*
Por quanto tempo o povo de Deus tem debatido sobre a linguagem e a ordem do Culto? Por quase tanto quanto ele tem se reunido para orar e louvar a Deus.
A história da Igreja cristã tem sido marcada por épocas de estabilidade, quebradas por períodos de reforma. Quase sem exceção, o repensar da fé da Igreja (Teologia) tem inspirado a revisão do culto da Igreja (Liturgia), nem sempre nesta ordem. A oração, em uma tradição, precisa ser extemporânea (espontânea), ou não será considerada autêntica. Um século depois, aqueles que herdaram a tradição da oração extemporânea estão publicando livros de oração em um esforço para render ações de graças e intercessão a Deus em um estilo e forma considerados mais dignos da atenção divina. Os salmos metrificados de uma geração são os hinos empolados da próxima. Livros de oração, hinários, ordens de culto e lecionários vêm e vão. Governos e denominações ascendem e caem. E através disso tudo, alguns elementos da fé histórica e do culto da Igreja persistem.
O Pentecostes de 1999 marcou o 450.º aniversário do Livro de Oração Comum (LOC). Anglicanos fazem lembrar, com desculpável orgulho, que este é o mais antigo livro de culto em uso contínuo na Igreja de língua inglesa. Estantes de biblioteca, índices de periódicos e páginas da internet estão repletos da história detalhada e da análise exaustiva d'O Livro de Oração.
Mas esse aniversário não é simples curiosidade histórica, nem sua comemoração deve ser limitada aos cristãos que respondem a Cantuária. Historiadores da Igreja e teólogos do culto rapidamente nos lembrarão que muita da linguagem do LOC é familiar para incontáveis cristãos que nunca nem mesmo seguraram um exemplar em suas mãos. Esse livro de culto tão incomum, originalmente concebido uma geração antes de Shakespeare, continua a moldar a vida e a fé de cristãos de todo o mundo.
Origens do Livro de Oração Comum
Embora cristãos reformados, luteranos e anglicanos todos derivem uma porção significante de sua teologia e culto das reformas que aconteceram no século XVI, a Igreja da Inglaterra foi única tanto na origem como no resultado de sua reforma. O infame rei britânico Henrique VIII desafiou a autoridade do Papa e conduziu a Igreja da Inglaterra para fora de Roma por motivos tanto pessoais quanto políticos. Liturgia e oração estavam bem embaixo na lista das reclamações do rei. Como resultado, a reforma litúrgica seguiu a separação política a uma distância segura.
Não foi senão com a morte de Henrique em 1547 e a coroação de Eduardo VI (que ocorreu entre uma sonequinha e uma troca de fraldas do novo rei) que a reforma da Igreja inglesa floresceu. Em janeiro de 1549, dois breves anos após a morte de Henrique, uma comissão presidida por Thomas Cranmer, o longevo Arcebispo de Cantuária, compilou e apresentou um livro de oração para a aprovação da Convocação da Igreja e do Parlamento. Essa primeira edição do LOC seria extensamente revisada três anos após (1552) e subseqüentemente, banida durante o reinado de Maria I, "a Sanguinária" (1553-1558). Porém, a influência de sua estrutura e o poder de seu texto mudaram a Igreja.
Católico e Reformado
Embora pareça ser grosseria discutir genealogias em uma festa de aniversário, cristãos reformados e luteranos devem se lembrar de que, de muitas maneiras, o LOC é, em parte, nosso livro também. O Arcebispo Cranmer estava bem a par do progresso da reforma da Igreja no continente. Ao longo das décadas de 1520 e 1530, ele viajou pela Europa a serviço de Henrique VIII, e tomou contato com os ensinamentos dos reformadores, dentre os quais Lutero e Calvino, e aprendeu a política da reforma. Cumpre dizer que Cranmer foi essencial para a ida de intelectuais luteranos, calvinistas e zwinglianos para postos-chave das universidades da Inglaterra. As ordens de culto, as posturas e a linguagem das orações, e o entendimento dos sacramentos contidos no Livro de 1549 refletem uma síntese complexa das teologias e práticas católicas e reformadas.
Enquanto muito possa ser dito sobre a estrutura, o estilo e a influência do LOC, talvez mais importante para cristãos da tradição reformada seja a linguagem de suas orações e a centralidade que ele dá à Ceia do Senhor. De certa forma, o Livro conservou certos aspectos da herança de Calvino para seus descendentes diretos, até que estivéssemos prontos para recebê-los.
A linguagem das orações
No século XVI, a linguagem do culto era uma preocupação central. O culto na língua do povo não era um debate novo nos anos de 1500, nem era o ponto inicial de atrito para muitos dos reformadores. Mas a tradução do culto do latim para o alemão, francês, inglês e muitas outras línguas locais rapidamente seguiram-se às disputas iniciais. Cada reformador teve o seu poeta. Cranmer não foi exceção (embrora o seu possa ter sido uma comissão inteira!). De qualquer forma, desde a primeira edição em 1549, uma marca do LOC foi a beleza de seu texto.
As Coletas (orações curtas que reunem as preces silenciosas do povo nos diversos momentos do culto) são uma marca registrada do LOC. Muitas destas encontraram lugar em publicações reformadas, como o Livro de Culto Comum (PCUSA, 1993). Nos exemplos abaixo, note-se o uso das palavras e imagens que tornam essas orações simples, elegantes e sinceras (confira também o quadro ao final).
Nós, na tradição reformada, ainda pelejaríamos por mais quatrocentos anos com a linguagem da oração, criando padrões de intercessão que, se não por outra coisa, se tornariam memoráveis pela sua prolixidade, antes de retornarmos para o estilo do LOC como inspiração para uma nova geração de publicações de auxílio para o culto.
A centralidade da Sagrada Comunhão
De caráter central para o LOC, embora nem sempre para a prática de muitos anglicanos, foi o entendimento do Culto Dominical Central fundado tanto na Palavra quanto no Sacramento. O Livro de 1549 oferecia uma síntese do padrão romano, com os ofícios diários de oração matinal e vespertina, coroados pela Eucaristia no Dia do Senhor. Ao longo dos séculos seguintes, muitas igrejas não-romanas adaptaram suas práticas para se amoldarem à compreensão da época.
Cristãos da tradição reformada ainda celebram a Ceia do Senhor em ciclos trimestrais, mensais ou semanais, dependendo dos costumes e tradições regionais e locais das congregações. O LOC tem servido como um lembrete constante da intenção dos reformadores, e como um cutucão perpétuo para aqueles que elaboram os manuais de culto a cada nova geração.
E daí?
Um aniversário dessa magnitude é importante para os cristãos atuais, pois serve para nos lembrar de que as lutas que encaramos como oficiantes de culto em 1999 não são nada novas. As reformas da igreja que abalaram a Europa do século XVI não foram, de modo algum, únicas ou surpreendentes. Uma retomada do ensino e da pesquisa passaram a questinoar muita da tradição que evoluiu com a Igreja. Enquanto isso, o poder das Escrituras estava sendo redescoberto por aqueles na Igreja que não estavam contentes em ver os trapos da condição humana desacreditarem a Palavra de Deus. A Reforma era inevitável.
A Reforma da igreja, que continua a abalar a América do Norte nestes últimos dias do século XX não é única ou surpreendente, pelos mesmos motivos. A mudança continua inevitável.
Em tempos de reforma, aqueles que guiam a Igreja têm muito a aprender e a relembrar. O LOC de 1549 reuniu orações e salmos, litanias e ordens de culto de uma vasta gama de fontes separadas, organizando-as para que fossem úteis nos cultos público e doméstico, e traduzindo textos históricos do latim para a língua do povo. Se a publicação do LOC não tivesse realizado nada mais, isso mesmo já seria digno de nota. Porém, no transcurso do reinado de um infante-rei e em uma era de profunda reestruturação religiosa, o LOC ancorou a reforma da Igreja da Inglaterra dentro da tradição da Igreja histórica. Graças a Deus por esses 450 anos de oração comum, e pelas graças que ainda não conhecemos.
As Coletas de Thomas Cranmer
Para aqueles que se interessam por mais da contribuição do LOC de 1549 de Thomas Cranmer, confiram The collects of Thomas Cranmer, um novo livro de Frederick Barbee e Paul F. M. Zahl. As coletas se encontram na linguagem original, e cada uma é seguida de um comentário sobre seu contexto histórico e uma meditação voltada aos cristãos contemporâneos.
Excerto
_________________________
* Paul Detterman é conferencista, músico eclesiástico e Ministro da Palavra e Sacramentos da Presbyterian Church (USA). Ele trabalha como diretor executivo da Presbyterians for Renewal, um ministério nacional sediado em Louisville, Kentucky.
Por Paul E. Detterman*
Por quanto tempo o povo de Deus tem debatido sobre a linguagem e a ordem do Culto? Por quase tanto quanto ele tem se reunido para orar e louvar a Deus.
A história da Igreja cristã tem sido marcada por épocas de estabilidade, quebradas por períodos de reforma. Quase sem exceção, o repensar da fé da Igreja (Teologia) tem inspirado a revisão do culto da Igreja (Liturgia), nem sempre nesta ordem. A oração, em uma tradição, precisa ser extemporânea (espontânea), ou não será considerada autêntica. Um século depois, aqueles que herdaram a tradição da oração extemporânea estão publicando livros de oração em um esforço para render ações de graças e intercessão a Deus em um estilo e forma considerados mais dignos da atenção divina. Os salmos metrificados de uma geração são os hinos empolados da próxima. Livros de oração, hinários, ordens de culto e lecionários vêm e vão. Governos e denominações ascendem e caem. E através disso tudo, alguns elementos da fé histórica e do culto da Igreja persistem.
O Pentecostes de 1999 marcou o 450.º aniversário do Livro de Oração Comum (LOC). Anglicanos fazem lembrar, com desculpável orgulho, que este é o mais antigo livro de culto em uso contínuo na Igreja de língua inglesa. Estantes de biblioteca, índices de periódicos e páginas da internet estão repletos da história detalhada e da análise exaustiva d'O Livro de Oração.
Mas esse aniversário não é simples curiosidade histórica, nem sua comemoração deve ser limitada aos cristãos que respondem a Cantuária. Historiadores da Igreja e teólogos do culto rapidamente nos lembrarão que muita da linguagem do LOC é familiar para incontáveis cristãos que nunca nem mesmo seguraram um exemplar em suas mãos. Esse livro de culto tão incomum, originalmente concebido uma geração antes de Shakespeare, continua a moldar a vida e a fé de cristãos de todo o mundo.
Origens do Livro de Oração Comum
Embora cristãos reformados, luteranos e anglicanos todos derivem uma porção significante de sua teologia e culto das reformas que aconteceram no século XVI, a Igreja da Inglaterra foi única tanto na origem como no resultado de sua reforma. O infame rei britânico Henrique VIII desafiou a autoridade do Papa e conduziu a Igreja da Inglaterra para fora de Roma por motivos tanto pessoais quanto políticos. Liturgia e oração estavam bem embaixo na lista das reclamações do rei. Como resultado, a reforma litúrgica seguiu a separação política a uma distância segura.
Não foi senão com a morte de Henrique em 1547 e a coroação de Eduardo VI (que ocorreu entre uma sonequinha e uma troca de fraldas do novo rei) que a reforma da Igreja inglesa floresceu. Em janeiro de 1549, dois breves anos após a morte de Henrique, uma comissão presidida por Thomas Cranmer, o longevo Arcebispo de Cantuária, compilou e apresentou um livro de oração para a aprovação da Convocação da Igreja e do Parlamento. Essa primeira edição do LOC seria extensamente revisada três anos após (1552) e subseqüentemente, banida durante o reinado de Maria I, "a Sanguinária" (1553-1558). Porém, a influência de sua estrutura e o poder de seu texto mudaram a Igreja.
Católico e Reformado
Embora pareça ser grosseria discutir genealogias em uma festa de aniversário, cristãos reformados e luteranos devem se lembrar de que, de muitas maneiras, o LOC é, em parte, nosso livro também. O Arcebispo Cranmer estava bem a par do progresso da reforma da Igreja no continente. Ao longo das décadas de 1520 e 1530, ele viajou pela Europa a serviço de Henrique VIII, e tomou contato com os ensinamentos dos reformadores, dentre os quais Lutero e Calvino, e aprendeu a política da reforma. Cumpre dizer que Cranmer foi essencial para a ida de intelectuais luteranos, calvinistas e zwinglianos para postos-chave das universidades da Inglaterra. As ordens de culto, as posturas e a linguagem das orações, e o entendimento dos sacramentos contidos no Livro de 1549 refletem uma síntese complexa das teologias e práticas católicas e reformadas.
Enquanto muito possa ser dito sobre a estrutura, o estilo e a influência do LOC, talvez mais importante para cristãos da tradição reformada seja a linguagem de suas orações e a centralidade que ele dá à Ceia do Senhor. De certa forma, o Livro conservou certos aspectos da herança de Calvino para seus descendentes diretos, até que estivéssemos prontos para recebê-los.
A linguagem das orações
No século XVI, a linguagem do culto era uma preocupação central. O culto na língua do povo não era um debate novo nos anos de 1500, nem era o ponto inicial de atrito para muitos dos reformadores. Mas a tradução do culto do latim para o alemão, francês, inglês e muitas outras línguas locais rapidamente seguiram-se às disputas iniciais. Cada reformador teve o seu poeta. Cranmer não foi exceção (embrora o seu possa ter sido uma comissão inteira!). De qualquer forma, desde a primeira edição em 1549, uma marca do LOC foi a beleza de seu texto.
As Coletas (orações curtas que reunem as preces silenciosas do povo nos diversos momentos do culto) são uma marca registrada do LOC. Muitas destas encontraram lugar em publicações reformadas, como o Livro de Culto Comum (PCUSA, 1993). Nos exemplos abaixo, note-se o uso das palavras e imagens que tornam essas orações simples, elegantes e sinceras (confira também o quadro ao final).
Oração ao fim do dia
Mantém vigia, amado Senhor, sobre aqueles que trabalham, vigiam ou velam nesta noite, e encarrega seus anjos daqueles que dormem. Atende os enfermos, Senhor Jesus, e concede descanso aos que se encontram fatigados, abençoa os que se encontram à morte, alivia os que sofrem, consola os aflitos, defende os que se alegram, tudo isso por amor do teu nome. Amém.
Coleta para a Quinta-feira Santa
Senhor Jesus Cristo, que estendeste teus braços de amor sobre a dura madeira da cruz, de modo que todos pudessem se aproximar de teu abraço salvador; veste-nos de teu Espírito, de modo que, estendendo nossas mãos em amor, possamos trazer aqueles que não te conhecem que te conheçam e te amem, para a honra de teu nome. Amém.
Uma oração pelos enfermos
Ó Deus, força dos fracos e conforto dos que sofrem, atende com misericórdia as nossas orações, e concede ao teu servo N. o auxílio do teu poder, de modo que sua enfermidade se torne em saúde, e nosso pesar em alegrias, por Cristo Jesus. Amém.
Nós, na tradição reformada, ainda pelejaríamos por mais quatrocentos anos com a linguagem da oração, criando padrões de intercessão que, se não por outra coisa, se tornariam memoráveis pela sua prolixidade, antes de retornarmos para o estilo do LOC como inspiração para uma nova geração de publicações de auxílio para o culto.
A centralidade da Sagrada Comunhão
De caráter central para o LOC, embora nem sempre para a prática de muitos anglicanos, foi o entendimento do Culto Dominical Central fundado tanto na Palavra quanto no Sacramento. O Livro de 1549 oferecia uma síntese do padrão romano, com os ofícios diários de oração matinal e vespertina, coroados pela Eucaristia no Dia do Senhor. Ao longo dos séculos seguintes, muitas igrejas não-romanas adaptaram suas práticas para se amoldarem à compreensão da época.
Cristãos da tradição reformada ainda celebram a Ceia do Senhor em ciclos trimestrais, mensais ou semanais, dependendo dos costumes e tradições regionais e locais das congregações. O LOC tem servido como um lembrete constante da intenção dos reformadores, e como um cutucão perpétuo para aqueles que elaboram os manuais de culto a cada nova geração.
E daí?
Um aniversário dessa magnitude é importante para os cristãos atuais, pois serve para nos lembrar de que as lutas que encaramos como oficiantes de culto em 1999 não são nada novas. As reformas da igreja que abalaram a Europa do século XVI não foram, de modo algum, únicas ou surpreendentes. Uma retomada do ensino e da pesquisa passaram a questinoar muita da tradição que evoluiu com a Igreja. Enquanto isso, o poder das Escrituras estava sendo redescoberto por aqueles na Igreja que não estavam contentes em ver os trapos da condição humana desacreditarem a Palavra de Deus. A Reforma era inevitável.
A Reforma da igreja, que continua a abalar a América do Norte nestes últimos dias do século XX não é única ou surpreendente, pelos mesmos motivos. A mudança continua inevitável.
Em tempos de reforma, aqueles que guiam a Igreja têm muito a aprender e a relembrar. O LOC de 1549 reuniu orações e salmos, litanias e ordens de culto de uma vasta gama de fontes separadas, organizando-as para que fossem úteis nos cultos público e doméstico, e traduzindo textos históricos do latim para a língua do povo. Se a publicação do LOC não tivesse realizado nada mais, isso mesmo já seria digno de nota. Porém, no transcurso do reinado de um infante-rei e em uma era de profunda reestruturação religiosa, o LOC ancorou a reforma da Igreja da Inglaterra dentro da tradição da Igreja histórica. Graças a Deus por esses 450 anos de oração comum, e pelas graças que ainda não conhecemos.
As Coletas de Thomas Cranmer
Para aqueles que se interessam por mais da contribuição do LOC de 1549 de Thomas Cranmer, confiram The collects of Thomas Cranmer, um novo livro de Frederick Barbee e Paul F. M. Zahl. As coletas se encontram na linguagem original, e cada uma é seguida de um comentário sobre seu contexto histórico e uma meditação voltada aos cristãos contemporâneos.
Excerto
ORAÇÕES PARA O ADVENTO, NATAL E EPIFANIA, DO LIVRO DE ORAÇÃO COMUM
As seguintes coletas são da edição de 1979 do Livro de Oração Comum da Igreja Episcopal dos Estados Unidos. (Sobre essa forma de oração que conclui, ou "coleta" as orações individuais do povo, confira Reformed Worship n. 52, p 44).
A edição de 1979 do LOC inclui ordens de culto e orações tanto na linguagem histórica quanto na contemporânea; um dos seguintes exemplos está na forma histórica, os demais, na contemporânea.
Primeiro Domingo do Advento
Deus Todo-Poderoso, concede-nos a graça de lançar fora as obras das trevas, e de revestir-nos da armadura de luz agora, neste tempo da vida mortal em que teu Filho Jesus Cristo veio para visitar-nos em grande humildade; concede-nos que, no último dia, quando ele vier novamente em sua majestosa glória para julgar os vivos e os mortos, nós possamos ascender à vida imortal; por meio dele, que vive e reina contigo e o Espírito Santo, um só Deus, agora e para sempre. Amém.
Segundo Domingo do Advento
Deus de misericórdia, que enviaste teus arautos, os profetas, para pregar o arrependimento e preparar o caminho para nossa salvação; concede-nos a graça de ouvir seus alertas e abandonar nossos pecados, de modo que possamos reeber com alegria a vinda de Jesus Cristo, nosso Redentor, que vive e reina contigo e o Espírito Santo, um só Deus, agora e para sempre. Amém.
Terceiro Domingo do Advento
Manifesta teu poder, ó Senhor, e com grande força vem entre nós; e, porquanto somos amargamente abalados por nossos pecados, concede que tua abundante graça e misericórdia prontamente nos socorra e nos salve; por Cristo Jesus, Nosso Senhor, a quem, contigo e o Espírito Santo, sejam toda honra e toda glória, hoje e para sempre. Amém.
Quarto Domingo do Advento
Purifica nossas consciências, ó Deus Todo-Poderoso, pela tua visitação diária, de modo que teu Filho Jesus Cristo, em sua vinda, encontre em nós uma mansão para ele preparada, o qual vive e reina contigo, na unidade do Espírito Santo, um só Deus, agora e para sempre. Amém.
Nós Vos imploramos, ó Deus Todo-Poderoso, que purifiqueis nossas consciências por Vossa visitação diária, de modo que, quando Vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, vier em Sua glória, Ele encontre preparada para Si uma mansão; por meio deste mesmo Jesus Cristo, Nosso Senhor, que vive e reina convosco na unidade do Espírito Santo, um só Deus, agora e para sempre. Amém.
A Natividade de Nosso Senhor: Noite de Natal
Ó Deus, que fizeste esta santa noite resplandecer com o brilho da verdadeira Luz; concede que nós, que conhecemos o mistério desta Luz na terra, possamos também gozá-lo perfeitamente no céu, onde, contigo e o Espírito Santo, ele vive e reina, um só Deus, em glória sempiterna. Amém.
Primeiro Domingo após o Natal
Deus Todo-Poderoso, que espargiste sobre nós a nova luz de teu Verbo encarnado; concede que esta luz, alimentada em nossos corações, possa brilhar em nossas vidas; por Jesus Cristo, Nosso Senhor, o qual vive e reina contigo, na unidade do Espírito Santo, um só Deus, agora e para sempre. Amém.
O Santo Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo: 1.º de janeiro
Pai Eterno, que deste ao teu Filho encarnado o nome santo de Jesus para sinal da nossa salvação; planta em cada coração o amor a ele, que é o Salvador do mundo, Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual vive e reina contigo e o Espírito Santo, um só Deus, em glória sempiterna. Amém.
Segundo Domingo após o Natal
Ó Deus, que de forma maravilhosa criaste, e ainda mais maravilhosamente restauraste a dignidade da natureza humana; concede que partilhemos da natureza divina daquele que se humilhou para partilhar de nossa humanidade, teu Filho Jesus Cristo, que vive e reina contigo na unidade do Espírito Santo, um só Deus, para sempre e sempre. Amém.
A Epifania: 6 de janeiro
Ó Deus, que pela condução de uma estrela manifestaste teu único Filho aos povos da terra; guia-nos a nós, que conhecemos a ti pela fé, à tua presença, onde possamos ver tua glória face a face. Por Cristo Jesus, Nosso Senhor, o qual vive e reina contigo e o Espírito Santo, um só Deus, agora e para sempre. Amém.
_________________________
* Paul Detterman é conferencista, músico eclesiástico e Ministro da Palavra e Sacramentos da Presbyterian Church (USA). Ele trabalha como diretor executivo da Presbyterians for Renewal, um ministério nacional sediado em Louisville, Kentucky.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Atualização: Manual do Culto
A título de informação, o Rito I do Culto Público do Manual da SLR(link ali do lado) passou por uma revisão e foi atualizado. A diagramação também mudou. O texto foi corrigido em muitos pontos e a Oração Eucarística que vem com ele (a primeira do Manual, que terá algumas) foi bastante modificada.
Atualização (04/03/2010): Os Ritos I e II da Ordem para Celebração do Sagrado Matrimônio (ou simplesmente o Casamento Cristão) também foram revisados e republicados.
Confiram e opinem!!
Atualização (04/03/2010): Os Ritos I e II da Ordem para Celebração do Sagrado Matrimônio (ou simplesmente o Casamento Cristão) também foram revisados e republicados.
Confiram e opinem!!
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Afinal, o que é Quaresma?
Editorial originalmente publicado no boletim de 14 de fevereiro de 2010 da Congregação Presbiteriana de Abreu e Lima/PE.
A partir da próxima quarta-feira, todos os cristãos do Ocidente entrarão no período do Calendário Litúrgico chamado Quaresma. O nome vem do latim, quadragesima, porque o período é contado a partir do quadragésimo dia antes da Páscoa.
Mas quem “inventou” isso? O que significa esse período que antecede a Páscoa? Para que ele serve?
O teólogo reformado suíço Jean-Jacques von Allmen explica que, no ano 325, no Concílio de Nicéia, logo que os cristãos fixaram a comemoração de uma Páscoa cristã separada da dos judeus, para celebrar a ressurreição de Cristo, criaram também um período de preparação para essa festa.
A idéia dos antigos era que, como na vitória de um rei, celebrava-se com festas e banquetes (e o que é a Páscoa senão a vitória do Rei dos Reis sobre a morte?), a preparação para essa festa se fazia com jejuns e meditação, para tornar ainda maior a alegria da festa vindoura.
Também para os antigos, nesse período os catecúmenos, ou seja, os novos cristãos que pretendiam professar sua fé, receber o Batismo e tornar-se membros plenos da Igreja, passavam para uma etapa mais intensiva de instrução e meditação, para que pudessem ser batizados no Domingo de Páscoa.
Outros elementos foram associados, ao longo dos séculos, com a Quaresma. Por exemplo, passou-se a estudar, nas leituras bíblicas do Antigo Testamento, o período de 40 anos que o povo de Israel passou no deserto antes de poder entrar na Terra Prometida (e cria-se uma analogia entre a peregrinação dos israelitas com a nossa própria, que somos “estrangeiros em terra estranha” e ansiamos entrar na Pátria Celestial). E, na Idade Média, o catolicismo romano transformou a Quaresma em período de penitência, de pregação do arrependimento dos pecados e de conversão. Criou a opção de se trocar os jejuns (que eram feitos duas vezes na semana, às quartas e sextas-feiras) pela abstinência de algum pequeno prazer da vida (principalmente o consumo de carne ou de álcool, como muitos católicos fazem até hoje), ou pela prática de obras de caridade. Foi aí que surgiu, copiando a prática dos israelitas, o uso de cinzas sobre os penitentes, que era aplicada no primeiro dia da Quaresma (e que ganhou, no século 12, o nome de “Quarta-feira de Cinzas”).
E só muito depois, quando as pessoas comuns não eram mais ensinadas sobre todo esse significado da Quaresma, que virou mero legalismo e superstição, inventaram o Carnaval, que significa “Festival da Carne”, e era a “última chance” do povo de comer carne e tomar bebidas alcoólicas sem se encrencarem com a Igreja. E lógico que, como era a “última chance”, o povo aproveitava para se empanturrar e encher a cara.
Mas e para nós, que somos protestantes e reformados, o que significa a Quaresma?
Ela significa um tempo de reflexão na obra de Deus em nossa vida; do Deus que andou junto do povo de Israel no deserto como coluna de nuvem e de fogo, e anda hoje conosco (em nós!) por meio de seu Santo Espírito. Significa um tempo de meditarmos na caminhada do Senhor Jesus para Jerusalém, que ele já sabia que terminaria em sua morte, e mesmo assim prosseguiu; de meditarmos na cruz de Cristo e seu significado para nós, e de meditarmos na nossa própria cruz, pois assim como Cristo a venceu, ele promete nos auxiliar a vencê-la.
Seja Deus sempre conosco!
A partir da próxima quarta-feira, todos os cristãos do Ocidente entrarão no período do Calendário Litúrgico chamado Quaresma. O nome vem do latim, quadragesima, porque o período é contado a partir do quadragésimo dia antes da Páscoa.
Mas quem “inventou” isso? O que significa esse período que antecede a Páscoa? Para que ele serve?
O teólogo reformado suíço Jean-Jacques von Allmen explica que, no ano 325, no Concílio de Nicéia, logo que os cristãos fixaram a comemoração de uma Páscoa cristã separada da dos judeus, para celebrar a ressurreição de Cristo, criaram também um período de preparação para essa festa.
A idéia dos antigos era que, como na vitória de um rei, celebrava-se com festas e banquetes (e o que é a Páscoa senão a vitória do Rei dos Reis sobre a morte?), a preparação para essa festa se fazia com jejuns e meditação, para tornar ainda maior a alegria da festa vindoura.
Também para os antigos, nesse período os catecúmenos, ou seja, os novos cristãos que pretendiam professar sua fé, receber o Batismo e tornar-se membros plenos da Igreja, passavam para uma etapa mais intensiva de instrução e meditação, para que pudessem ser batizados no Domingo de Páscoa.
Outros elementos foram associados, ao longo dos séculos, com a Quaresma. Por exemplo, passou-se a estudar, nas leituras bíblicas do Antigo Testamento, o período de 40 anos que o povo de Israel passou no deserto antes de poder entrar na Terra Prometida (e cria-se uma analogia entre a peregrinação dos israelitas com a nossa própria, que somos “estrangeiros em terra estranha” e ansiamos entrar na Pátria Celestial). E, na Idade Média, o catolicismo romano transformou a Quaresma em período de penitência, de pregação do arrependimento dos pecados e de conversão. Criou a opção de se trocar os jejuns (que eram feitos duas vezes na semana, às quartas e sextas-feiras) pela abstinência de algum pequeno prazer da vida (principalmente o consumo de carne ou de álcool, como muitos católicos fazem até hoje), ou pela prática de obras de caridade. Foi aí que surgiu, copiando a prática dos israelitas, o uso de cinzas sobre os penitentes, que era aplicada no primeiro dia da Quaresma (e que ganhou, no século 12, o nome de “Quarta-feira de Cinzas”).
E só muito depois, quando as pessoas comuns não eram mais ensinadas sobre todo esse significado da Quaresma, que virou mero legalismo e superstição, inventaram o Carnaval, que significa “Festival da Carne”, e era a “última chance” do povo de comer carne e tomar bebidas alcoólicas sem se encrencarem com a Igreja. E lógico que, como era a “última chance”, o povo aproveitava para se empanturrar e encher a cara.
Mas e para nós, que somos protestantes e reformados, o que significa a Quaresma?
Ela significa um tempo de reflexão na obra de Deus em nossa vida; do Deus que andou junto do povo de Israel no deserto como coluna de nuvem e de fogo, e anda hoje conosco (em nós!) por meio de seu Santo Espírito. Significa um tempo de meditarmos na caminhada do Senhor Jesus para Jerusalém, que ele já sabia que terminaria em sua morte, e mesmo assim prosseguiu; de meditarmos na cruz de Cristo e seu significado para nós, e de meditarmos na nossa própria cruz, pois assim como Cristo a venceu, ele promete nos auxiliar a vencê-la.
Seja Deus sempre conosco!
Eduardo H. Chagas
sábado, 2 de janeiro de 2010
Liberdade com ordem
Caiu-me às mãos esta semana um fac-simile em PDF da primeira edição do Book of Common Worship, o manual de culto da Igreja Presbiteriana dos EUA (PCUSA), datada de 1906. Meses atrás, eu publiquei uma crítica do New York Times sobre o (então) novo manual, analisando as razões e possíveis desdobramentos de uma tal edição em um meio que até então (lá), como hoje (aqui) prima pela resistência a formas fixas para a celebração do Culto Público, seja por medo dos ministros de perder "para um livro" o controle da liturgia, que é uma de suas poucas prerrogativas constitucionais, seja por preconceito contra o catolicismo romano e outras tradições cristãs mais afeitas a liturgias mais bem-elaboradas.
Agora, com o volume em mãos, acho pertinente traduzir e publicar aqui o seu prefácio, o que passo a fazer agora.
Dentre as igrejas do Senhor Jesus Cristo que adotam o governo presbieriano, a liberdade de culto tem sido estimada como um preciosíssimo privilégio e herança; e, conquanto elas tenham sido intrépidas e fiéis em sua guarda contra a intrusão de cerimônias supersticiosas e pesadas, elas também têm sido diligentes em buscar, nos trabalhos e ofícios religiosos, o meio-termo entre uma frouxidão excessiva e a uniformidade tirânica. Tudo quanto é instrução divina elas o observam em cada ordenança, enquanto o demais, elas se dedicaram a disciplinar "de acordo com as regras da prudência cristã, de conformidade com as regras gerais da Palavra de Deus" [citação do Diretório de Culto de Westminster, N. do T.].
Embora os Livros de Ordem Comum, que foram preparados pelas igrejas reformadas em sua aurora em todos os países, tenham contido igualmente as formas e orações, tais livros não foram tanto impostos por meio de inflexível legislação, mas antes, oferecidos e aceitos como pertinentes auxílios ao Culto; eles não apenas permitiam, como encorajavam a prática da oração livre. Em tal espírito o Diretório de Culto, adotado posteriormente pela Igreja da Escócia, para o bem da unidade com seus irmãos da Igreja da Inglaterra, longe de estabelecer uma forma invariável para o Culto Público, expressamente proveu a liberdade de variação; e não proibiu, de forma alguma, o uso de ordens e orações preparados, de conformidade com as instruções gerais de seu corpo.
A mesma sábia e feliz liberdade tem sido mantida na Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América até o dia de hoje. Por conseguinte, bem pareceu à Assembléia Geral de 1903, atendendo ao anseio de muitos pastores e igrejas, nomear uma Comissão de Ministros e Presbíteros Regentes que deveriam preparar "em conformidade com o Diretório de Culto, um Livro de Formas e Ofícios simplificado, adequado e útil ao uso voluntário das Igrejas Presbiterianas, para a celebração dos Sacramentos, Bênçãos Nupciais e Funerais, e a condução do Culto Público." Esta obra foi encaminhada, em fiel obediência e na humilde dependência do Espírito Santo, ao longo de três anos de labor paciente, e foi submetida, ainda em andamento, a duas Assembléias consecutivas. Os princípios que nortearam esta obra foram aprovados, e sua conclusão foi ordenada. E tal se deu, tanto quanto Deus nos permitiu, neste Livro que ora apresentamos, e agora é publicado para a finalidade determinada pela Assembléia Geral de 1905.
Este Livro de Culto Comum é, portanto, não para ser encarado como uma liturgia imposta por força de hierarquia. Nem tampouco se trata de substituto para o Diretório de Culto, senão como um complemento deste, cujos padrões são obedecidos em todos os pontos essenciais, e onde auxílio se oferece àqueles que o desejam, para a condução dos trabalhos e ofícios religiosos com reverência e propriedade. Nós temos avidamente estudado, no fito de incorporar as verdades de nossa santa religião à linguagem da ordeira devoção, de modo que pela ministração dos Sacramentos, a observância do Dia do Senhor e todos os ritos e ofícios comuns e ocasionais da Igreja, os homens possam ser instruídos e confirmados na fé de Jesus Cristo. Nós buscamos as Sagradas Escrituras, o uso das igrejas reformadas e os tesouros devocionais do Cristianismo primitivo, pelas mais nobres, claras e tocantes expressões do Espírito de louvor e oração; e temos adicionado a tais antigas e veneráveis formas e modelos, outros que podem ser úteis, sob a orientação do mesmo Espírito, de modo a dar voz a necessidades atuais, a anseios urgentes e esperanças vitais da Igreja que vive nestes últimos dias e na liberdade desta República.
No que concerne à forma com que os diferentes ofícios estão ordenados e organizados, e a melhor forma pela qual eles podem ser usados para a edificação, algumas sugestões são oferecidas nas páginas que seguem a este Prefácio; e, ao longo do Livro, o leitor atento encontrará instruções que precedem as várias partes dos cultos, não apenas para destacar seu significado espiritual, mas também para permitir que todo o povo se una nos atos do culto, de modo que todas as coisas sejam feitas decentemente e em ordem. As rubricas mais longas e mais importantes são transcritas do Diretório de Culto desta Igreja, que reprova, igualmente, o "confinamento dos ministros a formas fixas ou determinadas de oração no culto público" e o deixar que o culto divino seja lançado em ignomínia pelas suas "vis, irregulares ou extravagantes efusões". Deve-se lembrar, portanto, que as formas aqui oferecidas devem ser adotadas somente "se o Ministro assim o desejar", como um auxílio ao Culto Público, e não sem constante cuidado e diligência, pela "familiaridade com as Sagradas Escrituras, pela meditação, pela leitura dos melhores autores sobre o assunto e por uma vida de íntima comunhão com Deus, na busca pelo desenvolvimento do espírito e do dom da oração." [citação do DCW, N. do T.]
No Repositório de Orações, muitas coisas foram reunidas que podem ser não apenas úteis, de tempos em tempos, na condução dos Cultos Públicos, mas também úteis para a leitura e estudo, para o uso na devoção particular e no resgate do Culto Familiar, grandemente necessário em todas as nossas igrejas. É nossa esperança, portanto, que todo este Livro, tendo sido preparado com o desejo sincero de promover o conhecimento da salvação e da verdadeira devoção, possa ser recebido, estudado e empregado pelos fiéis membros desta Igreja e por fiéis cristãos de algures, no espírito de candura, simplicidade e amor fraternal; devotamente meditando sobre o real significado da fé cristã, e ansiando por adornar o Evangelho de Deus, Nosso Salvador, em todas as coisas. E para este fim, nós rogamos para que o Espírito Santo abençoe e acompanhe este Livro com sua onipresente graça, de modo que onde quer que ele seja empregado, os corações dos homens verdadeiramente sejam conduzidos ao trono da divina misericórdia, e que todos os povos encontrem conforto, alegria e força ao se unirem no Culto Comum de Deus, revelado em Jesus Cristo, nosso amorável Redentor.
Henry van Dyke, Presidente
Louis F. Benson
John De Witt
Charles Cuthbert Hall
John Clark Hill
W. Beatty Jennings
James D. Moffat
W. Robson Notman
William R. Richards
James H. Snowden
William R. Taylor
Nolan R. Best
John H. Converse
Homer Lee
John E. Parsons
Robert N. Willson
Agora, com o volume em mãos, acho pertinente traduzir e publicar aqui o seu prefácio, o que passo a fazer agora.
PREFÁCIO
Dentre as igrejas do Senhor Jesus Cristo que adotam o governo presbieriano, a liberdade de culto tem sido estimada como um preciosíssimo privilégio e herança; e, conquanto elas tenham sido intrépidas e fiéis em sua guarda contra a intrusão de cerimônias supersticiosas e pesadas, elas também têm sido diligentes em buscar, nos trabalhos e ofícios religiosos, o meio-termo entre uma frouxidão excessiva e a uniformidade tirânica. Tudo quanto é instrução divina elas o observam em cada ordenança, enquanto o demais, elas se dedicaram a disciplinar "de acordo com as regras da prudência cristã, de conformidade com as regras gerais da Palavra de Deus" [citação do Diretório de Culto de Westminster, N. do T.].
Embora os Livros de Ordem Comum, que foram preparados pelas igrejas reformadas em sua aurora em todos os países, tenham contido igualmente as formas e orações, tais livros não foram tanto impostos por meio de inflexível legislação, mas antes, oferecidos e aceitos como pertinentes auxílios ao Culto; eles não apenas permitiam, como encorajavam a prática da oração livre. Em tal espírito o Diretório de Culto, adotado posteriormente pela Igreja da Escócia, para o bem da unidade com seus irmãos da Igreja da Inglaterra, longe de estabelecer uma forma invariável para o Culto Público, expressamente proveu a liberdade de variação; e não proibiu, de forma alguma, o uso de ordens e orações preparados, de conformidade com as instruções gerais de seu corpo.
A mesma sábia e feliz liberdade tem sido mantida na Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América até o dia de hoje. Por conseguinte, bem pareceu à Assembléia Geral de 1903, atendendo ao anseio de muitos pastores e igrejas, nomear uma Comissão de Ministros e Presbíteros Regentes que deveriam preparar "em conformidade com o Diretório de Culto, um Livro de Formas e Ofícios simplificado, adequado e útil ao uso voluntário das Igrejas Presbiterianas, para a celebração dos Sacramentos, Bênçãos Nupciais e Funerais, e a condução do Culto Público." Esta obra foi encaminhada, em fiel obediência e na humilde dependência do Espírito Santo, ao longo de três anos de labor paciente, e foi submetida, ainda em andamento, a duas Assembléias consecutivas. Os princípios que nortearam esta obra foram aprovados, e sua conclusão foi ordenada. E tal se deu, tanto quanto Deus nos permitiu, neste Livro que ora apresentamos, e agora é publicado para a finalidade determinada pela Assembléia Geral de 1905.
Este Livro de Culto Comum é, portanto, não para ser encarado como uma liturgia imposta por força de hierarquia. Nem tampouco se trata de substituto para o Diretório de Culto, senão como um complemento deste, cujos padrões são obedecidos em todos os pontos essenciais, e onde auxílio se oferece àqueles que o desejam, para a condução dos trabalhos e ofícios religiosos com reverência e propriedade. Nós temos avidamente estudado, no fito de incorporar as verdades de nossa santa religião à linguagem da ordeira devoção, de modo que pela ministração dos Sacramentos, a observância do Dia do Senhor e todos os ritos e ofícios comuns e ocasionais da Igreja, os homens possam ser instruídos e confirmados na fé de Jesus Cristo. Nós buscamos as Sagradas Escrituras, o uso das igrejas reformadas e os tesouros devocionais do Cristianismo primitivo, pelas mais nobres, claras e tocantes expressões do Espírito de louvor e oração; e temos adicionado a tais antigas e veneráveis formas e modelos, outros que podem ser úteis, sob a orientação do mesmo Espírito, de modo a dar voz a necessidades atuais, a anseios urgentes e esperanças vitais da Igreja que vive nestes últimos dias e na liberdade desta República.
No que concerne à forma com que os diferentes ofícios estão ordenados e organizados, e a melhor forma pela qual eles podem ser usados para a edificação, algumas sugestões são oferecidas nas páginas que seguem a este Prefácio; e, ao longo do Livro, o leitor atento encontrará instruções que precedem as várias partes dos cultos, não apenas para destacar seu significado espiritual, mas também para permitir que todo o povo se una nos atos do culto, de modo que todas as coisas sejam feitas decentemente e em ordem. As rubricas mais longas e mais importantes são transcritas do Diretório de Culto desta Igreja, que reprova, igualmente, o "confinamento dos ministros a formas fixas ou determinadas de oração no culto público" e o deixar que o culto divino seja lançado em ignomínia pelas suas "vis, irregulares ou extravagantes efusões". Deve-se lembrar, portanto, que as formas aqui oferecidas devem ser adotadas somente "se o Ministro assim o desejar", como um auxílio ao Culto Público, e não sem constante cuidado e diligência, pela "familiaridade com as Sagradas Escrituras, pela meditação, pela leitura dos melhores autores sobre o assunto e por uma vida de íntima comunhão com Deus, na busca pelo desenvolvimento do espírito e do dom da oração." [citação do DCW, N. do T.]
No Repositório de Orações, muitas coisas foram reunidas que podem ser não apenas úteis, de tempos em tempos, na condução dos Cultos Públicos, mas também úteis para a leitura e estudo, para o uso na devoção particular e no resgate do Culto Familiar, grandemente necessário em todas as nossas igrejas. É nossa esperança, portanto, que todo este Livro, tendo sido preparado com o desejo sincero de promover o conhecimento da salvação e da verdadeira devoção, possa ser recebido, estudado e empregado pelos fiéis membros desta Igreja e por fiéis cristãos de algures, no espírito de candura, simplicidade e amor fraternal; devotamente meditando sobre o real significado da fé cristã, e ansiando por adornar o Evangelho de Deus, Nosso Salvador, em todas as coisas. E para este fim, nós rogamos para que o Espírito Santo abençoe e acompanhe este Livro com sua onipresente graça, de modo que onde quer que ele seja empregado, os corações dos homens verdadeiramente sejam conduzidos ao trono da divina misericórdia, e que todos os povos encontrem conforto, alegria e força ao se unirem no Culto Comum de Deus, revelado em Jesus Cristo, nosso amorável Redentor.
A COMISSÃO DA ASSEMBLÉIA
Henry van Dyke, Presidente
Louis F. Benson
John De Witt
Charles Cuthbert Hall
John Clark Hill
W. Beatty Jennings
James D. Moffat
W. Robson Notman
William R. Richards
James H. Snowden
William R. Taylor
Ministros
Nolan R. Best
John H. Converse
Homer Lee
John E. Parsons
Robert N. Willson
Presbíteros Regentes
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Ordem no Culto
Por Cláudio Marra
Artigo originalmente publicado em Servos Ordenados n. 5, abr/jun 2005, p. 32.
Ordem. Aí está uma boa palavra do vocabulário presbiteriano. Ou, pelo menos, já foi. É que as nossas preocupações em relação ao culto passaram a ser de outra ordem (sem trocadilho). Há pastores e Conselhos que tentam sempre novas propostas, preocupados em não perder assistência. Para outros, o importante é voltarmos ao modelo litúrgico antigo. Mas qual? Seria bíblico? Finalmente, há os que acionam o piloto automático e não se preocupam: o que rolar, rolou. O que fazer?
Calvino praticava um modelo simples de programa de culto, sob o tema geral da soberania de Deus. A declaração de abertura O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a tera não era simples formalidade e o convite à adoração empregando as palavras do próprio salmista eram certamente melhores que o pobre boa-noite irmãos que ouvimos hoje, emblemático da descontração e informalidade de nossos dias, mesmo diante do Todo-poderoso [1].
A Igreja Católica havia decretado e atribuíra valor cúltico e salvífico a ritos e cerimônias que Calvino denunciou como ordenanças humanas. Ele admitiu a necessidade de ritos para a própria manutenção da ordem, mas insistiu que eles fossem calcados na Escritura. Além disso, que não recebessem o valor que o catolicismo lhes atribuíra, devendo ser seu mérito reavaliado para serem substituídos, se necessário, "...porque na disciplina exterior e nas cerimônias, ele [o Mestre] não quis prescrever minuciosamente o que devamos seguir (pois isso dependeria das condições dos tempos, nem conviria a todos os séculos uma forma única)." Para serem mantidos ou substituídos, esses ritos deveriam ser avaliados em relação à ordem e ao decoro: "...não estimemos o culto de Deus melhor pela multidão de cerimônias", mas com prudências: "...não se deve recorrer à inovação de modo inconsiderado, nem seguidamente ou por motivos triviais" (IRC IV.x.6-32).
Ordem no culto não tem necessariamente a ver com a escolha entre um novo criativo e um antigo engessado. Precisamos de uma definição de culto e do seu objetivo (Sl 95.1, 7; 96.7-9). Será didático ter um tema específico para cada programa de culto, mas o nosso tema geral precisa voltar a ser a soberania de Deus, ou seja, nenhuma parte enfocará nada ou ninguém que não seja o Senhor. Atendendo à convocação divina, nos concentramos na adoração. Juntos, nos voltamos para a majestade de Deus com reverência e temor. Ninguém vai querer fazer gracinha nessa hora, nem apresentar visitantes ou bater palmas para o conjunto coral.
Será positivo incluir no programa o que a igreja primitiva também incluiu (ver Princípios de Liturgia, arts. 7 e 8). Havia a doutrina dos apóstolos (não seria hoje a opinião do pastor sobre seu tema preferido, mas a fiel exposição de uma passagem bíblica); o partir do pão e as orações (At 2.42); havia a entrega de oferta para os necessitados (2.45; 4.34, 35); havia decisões (4.4) e os convertidos eram batizados (2.41). A igreja louvava ao Senhor com salmos, hinos e cânticos espirituais (2.47; Ef. 5.19, 20). Isso não significa que, de repente, o culto era suspenso para uma bateria de cânticos, um rito que está na moda entre nós, graças à orientação equivocada ou ausente do pastor e do Conselho. Poucas coisas ferem mais a ordem do culto do que essa cerimônia assim chamada momento do louvor ou período de cânticos. Anunciadas pelo dirigente, pessoas levantam-se de diferentes candos do salão de cultos e desfilam para a frente ao som dos saltos de seus sapatos. Microfones são testados, o maninho da transparência pergunta a alguém qual vai ser o primeiro e o tecladista procura a posição certa para as chaves e teclas. Tudo muito litúrgico. Aí cantamos letras discutíveis sobre temas diversos, tudo entremeado por discursos opinativos recheados de constrangedores e interrogativos amém, irmãos?. Por amor à ordem e à didática seria melhor distribuir hinos e cânticos [2] ao longo o programa, de acordo com o assunto. Isso evitaria conflito de temas e outras desordens.
Ordem no culto deverá ser preocupação do pastor e do Conselho, que orarão e estudarão juntos a respeito. Eu sei que é função privativa do ministro "orientar e supervisionar a liturgia na igreja de que é pastor" (CIPB, art. 31, alínea d). Mas também que é função do Conselho "exercer o governo espiritual ... da igreja" e "resolver caso de dúvida sobre doutrina e prática, para orientação da consciência cristã" (art. 83, alíneas a e n). Então, a partir do projeto integral de educação [3] traçado pelo Conselho, o pastor preparará os temas para os cultos e depois, ao longo do ano, orientará a preparação de cada programa de acordo com o seu tema, incluindo as partes sugeridas acima e outras biblicamente justificadas. Um importante passo para se ter ordem no culto.
_______________________
[1] Aliás, o "boa noite" reflete uma compreensão equivocada do culto, como se o dirigente recebesse os fiéis. Na verdade, o dirigente e os fiéis são recebidos por Deus.
[2] Com revisão gramatical, musical e teológica feitas por uma equipe capacitada.
[3] Ver Servos Ordenados n. 4, p. 32.
***
O Rev. Cláudio Marra é ministro presbiteriano, jornalista e Editor-Chefe da Casa Editora Presbiteriana.
Artigo originalmente publicado em Servos Ordenados n. 5, abr/jun 2005, p. 32.
Ordem. Aí está uma boa palavra do vocabulário presbiteriano. Ou, pelo menos, já foi. É que as nossas preocupações em relação ao culto passaram a ser de outra ordem (sem trocadilho). Há pastores e Conselhos que tentam sempre novas propostas, preocupados em não perder assistência. Para outros, o importante é voltarmos ao modelo litúrgico antigo. Mas qual? Seria bíblico? Finalmente, há os que acionam o piloto automático e não se preocupam: o que rolar, rolou. O que fazer?
Calvino praticava um modelo simples de programa de culto, sob o tema geral da soberania de Deus. A declaração de abertura O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a tera não era simples formalidade e o convite à adoração empregando as palavras do próprio salmista eram certamente melhores que o pobre boa-noite irmãos que ouvimos hoje, emblemático da descontração e informalidade de nossos dias, mesmo diante do Todo-poderoso [1].
A Igreja Católica havia decretado e atribuíra valor cúltico e salvífico a ritos e cerimônias que Calvino denunciou como ordenanças humanas. Ele admitiu a necessidade de ritos para a própria manutenção da ordem, mas insistiu que eles fossem calcados na Escritura. Além disso, que não recebessem o valor que o catolicismo lhes atribuíra, devendo ser seu mérito reavaliado para serem substituídos, se necessário, "...porque na disciplina exterior e nas cerimônias, ele [o Mestre] não quis prescrever minuciosamente o que devamos seguir (pois isso dependeria das condições dos tempos, nem conviria a todos os séculos uma forma única)." Para serem mantidos ou substituídos, esses ritos deveriam ser avaliados em relação à ordem e ao decoro: "...não estimemos o culto de Deus melhor pela multidão de cerimônias", mas com prudências: "...não se deve recorrer à inovação de modo inconsiderado, nem seguidamente ou por motivos triviais" (IRC IV.x.6-32).
Ordem no culto não tem necessariamente a ver com a escolha entre um novo criativo e um antigo engessado. Precisamos de uma definição de culto e do seu objetivo (Sl 95.1, 7; 96.7-9). Será didático ter um tema específico para cada programa de culto, mas o nosso tema geral precisa voltar a ser a soberania de Deus, ou seja, nenhuma parte enfocará nada ou ninguém que não seja o Senhor. Atendendo à convocação divina, nos concentramos na adoração. Juntos, nos voltamos para a majestade de Deus com reverência e temor. Ninguém vai querer fazer gracinha nessa hora, nem apresentar visitantes ou bater palmas para o conjunto coral.
Será positivo incluir no programa o que a igreja primitiva também incluiu (ver Princípios de Liturgia, arts. 7 e 8). Havia a doutrina dos apóstolos (não seria hoje a opinião do pastor sobre seu tema preferido, mas a fiel exposição de uma passagem bíblica); o partir do pão e as orações (At 2.42); havia a entrega de oferta para os necessitados (2.45; 4.34, 35); havia decisões (4.4) e os convertidos eram batizados (2.41). A igreja louvava ao Senhor com salmos, hinos e cânticos espirituais (2.47; Ef. 5.19, 20). Isso não significa que, de repente, o culto era suspenso para uma bateria de cânticos, um rito que está na moda entre nós, graças à orientação equivocada ou ausente do pastor e do Conselho. Poucas coisas ferem mais a ordem do culto do que essa cerimônia assim chamada momento do louvor ou período de cânticos. Anunciadas pelo dirigente, pessoas levantam-se de diferentes candos do salão de cultos e desfilam para a frente ao som dos saltos de seus sapatos. Microfones são testados, o maninho da transparência pergunta a alguém qual vai ser o primeiro e o tecladista procura a posição certa para as chaves e teclas. Tudo muito litúrgico. Aí cantamos letras discutíveis sobre temas diversos, tudo entremeado por discursos opinativos recheados de constrangedores e interrogativos amém, irmãos?. Por amor à ordem e à didática seria melhor distribuir hinos e cânticos [2] ao longo o programa, de acordo com o assunto. Isso evitaria conflito de temas e outras desordens.
Ordem no culto deverá ser preocupação do pastor e do Conselho, que orarão e estudarão juntos a respeito. Eu sei que é função privativa do ministro "orientar e supervisionar a liturgia na igreja de que é pastor" (CIPB, art. 31, alínea d). Mas também que é função do Conselho "exercer o governo espiritual ... da igreja" e "resolver caso de dúvida sobre doutrina e prática, para orientação da consciência cristã" (art. 83, alíneas a e n). Então, a partir do projeto integral de educação [3] traçado pelo Conselho, o pastor preparará os temas para os cultos e depois, ao longo do ano, orientará a preparação de cada programa de acordo com o seu tema, incluindo as partes sugeridas acima e outras biblicamente justificadas. Um importante passo para se ter ordem no culto.
_______________________
[1] Aliás, o "boa noite" reflete uma compreensão equivocada do culto, como se o dirigente recebesse os fiéis. Na verdade, o dirigente e os fiéis são recebidos por Deus.
[2] Com revisão gramatical, musical e teológica feitas por uma equipe capacitada.
[3] Ver Servos Ordenados n. 4, p. 32.
***
O Rev. Cláudio Marra é ministro presbiteriano, jornalista e Editor-Chefe da Casa Editora Presbiteriana.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
O Culto Cristão: sua forma histórica
Editorial publicado no boletim da Ordem Litúrgica do culto do dia 31/10/2009, da Igreja Presbiteriana de Franca/SP.
Dentre todos os campos do conhecimento teológico, poucos evoluíram tanto nos últimos 100 anos como a Teologia do Culto, acompanhada pela Liturgiologia, ou seja, o estudo da forma e do conteúdo do culto que é prestado pelos cristãos, no passado e no presente.
É o desejo da Igreja Presbiteriana de Franca, nesta ocasião em que celebramos a Reforma Protestante, oferecer à nossa comunidade de fé a oportunidade de conhecer a forma com que nossos antepassados cultuavam, buscando na História as formas e atos do culto, como eram praticados nas igrejas protestantes daquela época. Por isso, temos na ordem litúrgica de hoje textos e orações que vêm da Igreja Reformada de Genebra (compostos, na sua maioria, pelo próprio João Calvino), da Igreja Luterana, da Igreja Anglicana e também de nossa igreja-mãe, a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América.
Esta é uma grande oportunidade didática e cultural, mas não se trata apenas de “arqueologismo litúrgico”, ou de uma vontade de fazer diferente apenas pela graça de fazer diferente uma vez no ano. Nosso desejo, com este culto celebrado na forma histórica, não é apenas o de dar à Igreja uma “ida ao museu”.
A forma histórica do culto não se limita à escolha da música, ao “cantar somente hinos do hinário”, ou a ter a ordem litúrgica previamente definida e escrita. Um culto celebrado na forma histórica pode muito bem incorporar cânticos e textos contemporâneos, como faremos hoje.
O que realmente define o culto histórico é a sua participatividade: o culto da Igreja dos primeiros séculos era um grande diálogo entre o ministro e o povo de Deus, oferecido para a glória do Senhor. Se uma oração era feita, o povo respondia com um “amém” cantado. Se um texto da Bíblia era lido, o povo respondia cantando um Salmo. Quando a Palavra de Deus era proclamada por um pregador, o povo respondia declarando a sua fé, usando as palavras do Credo. E, ao final, povo e ministro se juntavam em uma oração responsiva, dando graças a Deus pela salvação em Cristo Jesus, e assim partiam o Pão e tomavam do Cálice da Ceia do Senhor.
No século XVI, essa participatividade tinha sido eliminada na Igreja de Roma: o diálogo acontecia em latim, língua que poucos falavam, e apenas entre o sacerdote e o Coro, em voz baixa. Ao povo cabia apenas assistir o que acontecia e orar silenciosamente; nem mesmo a oportunidade de cantar lhe era dada; se quisessem, deveriam entrar para o Coro.
Com a Reforma, a participação do povo foi reafirmada, desde a primeira Missa Alemã de Lutero (1522): o povo ouvia a Palavra de Deus na sua própria língua, e passou a poder, também, orar a ele e cantar seus louvores, exercitando e aumentando, assim, a sua fé. O acerto dessa medida foi tão grande que, quase 500 anos depois, na década de 1960, a Igreja de Roma decidiu também adotá-la.
No entanto, com o passar do tempo, muitas igrejas da Reforma acabaram se acomodando, preferindo deixar de lado a participação do povo nas leituras, orações e na condução da ordem litúrgica. Tornou-se comum dizer que “a liturgia do povo no culto é apenas cantar”. As orações e leituras tornaram-se monopólio do pastor.
Isso se vê ainda hoje, não apenas nas igrejas protestantes históricas, mas também em muitas das novas igrejas evangélicas e neopentecostais que têm surgido: todo o culto é conduzido pelo pastor e pelo Conjunto musical. Apenas eles fazem as leituras bíblicas, as orações e, em alguns lugares, só eles cantam, ficando o povo como mera platéia da liturgia que é oferecida no presbitério, já transformado em palco com canhões de luz e gelo-seco – talvez seja a versão pós-moderna dos excessos medievais de velários votivos e de incenso, mesmo que eles não tenham noção disso.
Nas últimas décadas, porém, muitas igrejas, presbiterianas e reformadas, no Brasil e no exterior, têm redescoberto a importância de um culto celebrado não de improviso pelo pastor, nem monopolizado por ele e pelo Conjunto musical, mas preparado e executado com grande amor e cuidado por toda a comunidade de fé.
Ao fazer isso, resgatamos os ricos ensinamentos dos escritos dos Apóstolos e dos Pais da Igreja dos primeiros séculos, atualizamos com os novos desenvolvimentos da Teologia e também da música sacra contemporânea, somando a nossa fé à de nossos pais e enriquecendo a herança – teológica, litúrgica e musical – que deixaremos para as gerações seguintes.
Muitas igrejas presbiterianas têm adotado esse estilo de culto, ao mesmo tempo histórico e contemporâneo, com formas escritas em alguns pontos e com orações espontâneas em outros, com os hinos da história cristã e com a nova música de nosso tempo, como sendo o seu culto-padrão. Outras fazem ambos – um culto histórico de manhã e outro menos formal à noite, mais ao estilo “evangélico”, para fazer como disse o Apóstolo Paulo: “fiz-me de tudo para todos para, por todos os meios, chegar a salvar alguns” (I Co. 9.22).
A celebração de hoje é uma oportunidade de descobrirmos tudo isso e de repensarmos os rumos da nossa própria fé, teologia e culto. Deus nos abençoe!
ATUALIZAÇÃO (25/07/2013): Para aqueles que têm dificuldade de baixar arquivos no 4shared, segue um link para download do boletim com a ordem litúrgica do Culto da Reforma de 2009 da Igreja Presbiteriana de Franca. Clique aqui para baixar.
Dentre todos os campos do conhecimento teológico, poucos evoluíram tanto nos últimos 100 anos como a Teologia do Culto, acompanhada pela Liturgiologia, ou seja, o estudo da forma e do conteúdo do culto que é prestado pelos cristãos, no passado e no presente.
É o desejo da Igreja Presbiteriana de Franca, nesta ocasião em que celebramos a Reforma Protestante, oferecer à nossa comunidade de fé a oportunidade de conhecer a forma com que nossos antepassados cultuavam, buscando na História as formas e atos do culto, como eram praticados nas igrejas protestantes daquela época. Por isso, temos na ordem litúrgica de hoje textos e orações que vêm da Igreja Reformada de Genebra (compostos, na sua maioria, pelo próprio João Calvino), da Igreja Luterana, da Igreja Anglicana e também de nossa igreja-mãe, a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América.
Esta é uma grande oportunidade didática e cultural, mas não se trata apenas de “arqueologismo litúrgico”, ou de uma vontade de fazer diferente apenas pela graça de fazer diferente uma vez no ano. Nosso desejo, com este culto celebrado na forma histórica, não é apenas o de dar à Igreja uma “ida ao museu”.
A forma histórica do culto não se limita à escolha da música, ao “cantar somente hinos do hinário”, ou a ter a ordem litúrgica previamente definida e escrita. Um culto celebrado na forma histórica pode muito bem incorporar cânticos e textos contemporâneos, como faremos hoje.
O que realmente define o culto histórico é a sua participatividade: o culto da Igreja dos primeiros séculos era um grande diálogo entre o ministro e o povo de Deus, oferecido para a glória do Senhor. Se uma oração era feita, o povo respondia com um “amém” cantado. Se um texto da Bíblia era lido, o povo respondia cantando um Salmo. Quando a Palavra de Deus era proclamada por um pregador, o povo respondia declarando a sua fé, usando as palavras do Credo. E, ao final, povo e ministro se juntavam em uma oração responsiva, dando graças a Deus pela salvação em Cristo Jesus, e assim partiam o Pão e tomavam do Cálice da Ceia do Senhor.
No século XVI, essa participatividade tinha sido eliminada na Igreja de Roma: o diálogo acontecia em latim, língua que poucos falavam, e apenas entre o sacerdote e o Coro, em voz baixa. Ao povo cabia apenas assistir o que acontecia e orar silenciosamente; nem mesmo a oportunidade de cantar lhe era dada; se quisessem, deveriam entrar para o Coro.
Com a Reforma, a participação do povo foi reafirmada, desde a primeira Missa Alemã de Lutero (1522): o povo ouvia a Palavra de Deus na sua própria língua, e passou a poder, também, orar a ele e cantar seus louvores, exercitando e aumentando, assim, a sua fé. O acerto dessa medida foi tão grande que, quase 500 anos depois, na década de 1960, a Igreja de Roma decidiu também adotá-la.
No entanto, com o passar do tempo, muitas igrejas da Reforma acabaram se acomodando, preferindo deixar de lado a participação do povo nas leituras, orações e na condução da ordem litúrgica. Tornou-se comum dizer que “a liturgia do povo no culto é apenas cantar”. As orações e leituras tornaram-se monopólio do pastor.
Isso se vê ainda hoje, não apenas nas igrejas protestantes históricas, mas também em muitas das novas igrejas evangélicas e neopentecostais que têm surgido: todo o culto é conduzido pelo pastor e pelo Conjunto musical. Apenas eles fazem as leituras bíblicas, as orações e, em alguns lugares, só eles cantam, ficando o povo como mera platéia da liturgia que é oferecida no presbitério, já transformado em palco com canhões de luz e gelo-seco – talvez seja a versão pós-moderna dos excessos medievais de velários votivos e de incenso, mesmo que eles não tenham noção disso.
Nas últimas décadas, porém, muitas igrejas, presbiterianas e reformadas, no Brasil e no exterior, têm redescoberto a importância de um culto celebrado não de improviso pelo pastor, nem monopolizado por ele e pelo Conjunto musical, mas preparado e executado com grande amor e cuidado por toda a comunidade de fé.
Ao fazer isso, resgatamos os ricos ensinamentos dos escritos dos Apóstolos e dos Pais da Igreja dos primeiros séculos, atualizamos com os novos desenvolvimentos da Teologia e também da música sacra contemporânea, somando a nossa fé à de nossos pais e enriquecendo a herança – teológica, litúrgica e musical – que deixaremos para as gerações seguintes.
Muitas igrejas presbiterianas têm adotado esse estilo de culto, ao mesmo tempo histórico e contemporâneo, com formas escritas em alguns pontos e com orações espontâneas em outros, com os hinos da história cristã e com a nova música de nosso tempo, como sendo o seu culto-padrão. Outras fazem ambos – um culto histórico de manhã e outro menos formal à noite, mais ao estilo “evangélico”, para fazer como disse o Apóstolo Paulo: “fiz-me de tudo para todos para, por todos os meios, chegar a salvar alguns” (I Co. 9.22).
A celebração de hoje é uma oportunidade de descobrirmos tudo isso e de repensarmos os rumos da nossa própria fé, teologia e culto. Deus nos abençoe!
Eduardo H. Chagas
Regente do Coro da Igreja
Regente do Coro da Igreja
ATUALIZAÇÃO (25/07/2013): Para aqueles que têm dificuldade de baixar arquivos no 4shared, segue um link para download do boletim com a ordem litúrgica do Culto da Reforma de 2009 da Igreja Presbiteriana de Franca. Clique aqui para baixar.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Uma reforma bem conservadora, parte IV
Revm.º Peter D. Robinson
(tradução do artigo A conservative Reformation, part IV, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. +Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).
Nos últimos anos, tem havido persistentes tentativas de se jogar para escanteio os Trinta e Nove Artigos de Religião (daqui pra frente, simplesmente "os Artigos"), sobretudo pelos defensores da teologia liberal. Como resultado, a maior parte do clero anglicano não tem contemplado os Artigos tão de perto como talvez devessem. A postura de muitos parece ser a de que eles são irrelevantes, ou então, aquela vista em Oscar Wilde, que, solicitado a subscrever os Artigos quando entrou para a universidade, respondeu "Eu subscrevo até quarenta, se quiser!". Os mais moderados pelo menos têm a sabedoria de ver que os Artigos precisam ser lidos em seu contexto. E esse contexto é, claro, a atmosfera teológica dos cinqüenta anos que precederam 1563.
(tradução do artigo A conservative Reformation, part IV, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. +Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).
Nos últimos anos, tem havido persistentes tentativas de se jogar para escanteio os Trinta e Nove Artigos de Religião (daqui pra frente, simplesmente "os Artigos"), sobretudo pelos defensores da teologia liberal. Como resultado, a maior parte do clero anglicano não tem contemplado os Artigos tão de perto como talvez devessem. A postura de muitos parece ser a de que eles são irrelevantes, ou então, aquela vista em Oscar Wilde, que, solicitado a subscrever os Artigos quando entrou para a universidade, respondeu "Eu subscrevo até quarenta, se quiser!". Os mais moderados pelo menos têm a sabedoria de ver que os Artigos precisam ser lidos em seu contexto. E esse contexto é, claro, a atmosfera teológica dos cinqüenta anos que precederam 1563.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Uma Reforma bem conservadora, parte III
Revm.º Peter D. Robinson
(tradução do artigo A conservative Reformation, part III, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. +Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).
As duas peças-chave do Acordo Isabelino (Elisabetano) eram a revisão de 1559 do Livro de Oração Comum de 1552, e os Artigos de Religião. Ambos definiram a tônica teológica para a Reforma Inglesa ao fornecer a liturgia segundo a qual a Igreja deveria orar diariamente, e o padrão doutrinário ao qual o clero deveria subscrever e aderir.
(tradução do artigo A conservative Reformation, part III, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. +Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).
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| A Sagração do Arcebispo Matthew Parker no Palácio de Lambeth, 17 de dezembro de 1559. |
As duas peças-chave do Acordo Isabelino (Elisabetano) eram a revisão de 1559 do Livro de Oração Comum de 1552, e os Artigos de Religião. Ambos definiram a tônica teológica para a Reforma Inglesa ao fornecer a liturgia segundo a qual a Igreja deveria orar diariamente, e o padrão doutrinário ao qual o clero deveria subscrever e aderir.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Uma Reforma bem conservadora, parte II
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| O Livro de Oração Comum de 1559 |
(tradução do artigo A conservative Reformation, part II, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. +Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).
As convicções religiosas de Isabel parecem não ter sido uma grande força motriz em sua vida pelos padrões da época, mas ficava claro, não obstante, que ela preferia o protestantismo. Ela tinha sido, afinal, educada por humanistas cristãos de persuasão reformada, como John Cheke, e ela dissimulou, quanto à questão religiosa, tão bem quanto somente ela sabia dissimular, ao longo de todo o reinado de sua meia-irmã. Mesmo que ela tivesse tido uma educação menos protestante, visto que a Igreja Romana havia declarado o casamento de sua mãe inválido, e ela mesma uma bastarda, ela não estava predisposta a permanecer sob obediência papal. Ficou claro, portanto, que tão logo quanto possível ela repristinaria o Ato de Supremacia como o primeiro passo em direção à definição da questão religiosa. A Inglaterra logo rompeu com Roma, tendo o Parlamento declarado Isabel "Governadora Suprema... na terra" (e não "Cabeça Suprema", como se acredita popularmente) da Igreja da Inglaterra. Aí passa-se um curioso período de inércia de alguns meses, enquanto Isabel faz pesquisas e permite que o novo rompimento com Roma se consolide. Parece ter havido uma espera necessária, primeiro pelo recesso de Natal do Parlamento e, segundo, para permitir que Isabel e o Gabinete preenchessem as dioceses vacantes, já que todos os bispos de Maria, menos dois, renunciaram ou foram despojados.
O sinal mais claro de onde a política religiosa de Isabel levaria foi a Conferência de Westminster, ocorrida no início de 1559, projetada como um sinal de reaproximação do campo protestante. Ao mesmo tempo, o segundo Livro de Oração Comum de Eduardo VI começou a reaparecer em algumas paróquias-chave, e alguns mais entusiastas começaram a livrar as igrejas dos "ídolos", antes do Governo proibir essa destruição arbitrária.
Alguns meses depois, quando o Ato de Uniformidade apareceu, ele era basicamente uma restauração do status quo conforme era em 1552-3, exceto pelo fato de que Isabel e seu Gabinete fizeram várias emendas conservadoras ao LOC de 1552. Primeiro, "os coros deveriam permanecer como anteriormente"; segundo, os paramentos tradicionais foram restaurados; terceiro, a Rubrica Negra foi removida e as palavras "O Corpo/Sangue do Senhor Jesus Cristo, que foi partido/vertido por ti, preserve teu corpo e alma para a vida eterna" foram adicionadas ao Prefácio da forma mais reformada de 1552; e, por último, a condenação do Papa foi removida da Litania. Todas essas mudanças afastaram a igreja de uma posição mais estritamente reformada, tornando possível alcançar e conciliar os luteranos ingleses.
Para Arcebispo, Isabel escolheu Matthew Parker. Nascido em Norwich a 1504, Parker foi o capelão de Ana Bolena e, então, de Henrique VIII. Ele foi Deão de Stoke-by-Clare de 1536 a 1546, mas depois que o Colégio foi dissolvido no ano seguinte, ele se casou e mudou-se de volta para Cambridge. Foi conhecido por ser um defensor moderado da Reforma, mas depois de ser removido de seu cargo eclesiástico em 1553, foi-lhe permitido viver tranqüilamente em sua fazenda em Suffolk durante o reinado de Maria. Parker era moderado, mas protestante convicto, com uma carreira acadêmica destacada em Cambridge, e foi amigo tanto de Peter Martyr quanto de Martin Bucer. Isabel e Cecil tiveram de trabalhar longamente para convencer Parker a concordar com sua nomeação a Arcebispo da Cantuária, mas ele finalmente a aceitou, e foi consagrado em 19 de dezembro de 1559.
Parker não teve muito tempo para audiências como Arcebispo já que, dentro em poucos meses, ele e seus irmãos bispos publicaram algumas injunções provisórias, modificando certos dispositivos do LOC/1559 concernentes aos paramentos. Isabel também ordenou a restauração de cinqüenta das festas menores do calendário - sem fazer provisões litúrgicas para elas -, proibiu pregações polêmicas e limitou o número de pregadores licenciados. Parker também se esforçou em fazer o pesado maquinário da Igreja da Inglaterra funcionar como uma Igreja reformada.
As fases 1 e 2 do Acordo de Isabel - a Lei de Supremacia e a Lei de Uniformidade - parecem ter encontrado pouca oposição, e não muito entusiasmo. Nos dez anos anteriores, houve quatro grandes mudanças de religião, de modo que a maioria das pessoas estava preparada para ir às suas igrejas e participar do que quer que fosse feito ali. A cuidadosa implementação do Acordo por Isabel e Parker manteve tanto luteranos quanto reformados a bordo, na busca de uma via media entre Wittenberg e Genebra. No entanto, ainda havia a necessidade de produzir algum tipo de declaração doutrinária, o que foi conseguido em uma sessão conjunta das Convocações de Cantuária e York no inverno de 1562-63.
Parece quase certo que o Arcebispo Parker foi a luz-guia na reestruturação dos Quarenta e Dois Artigos de Cranmer para os Trinta e Nove Artigos. Nisto, ele foi auxiliado por Edmund Grindal, Bispo de Londres. As coisas já haviam progredido um pouco nos nove anos anteriores, já que a ameaça anabatista havia recedido e o Concílio de Trento se aproximava de seu fim. A nova redação dada por Parker aos Artigos removeu muitas das referências aos anabatistas, enquanto respostas a alguns dos decretos já publicados de Trento foram incorporadas ao texto. O projeto final foi apresentado a uma Convocação que se encontrava com uma disposição reformada e reformadora. Uma proposta pela remoção dos órgãos das igrejas foi rejeitada por estreita margem, então é de surpreender que os Trinta e Nove Artigos tenham passado pelo necessário debate relativamente incólumes. A Rainha, no entanto, vetou o Art. 29, por ser ofensivo aos luteranos e outros que sustentavam a doutrina da Presença Real antes de 1563. Isto deve ter irritado alguns dos espíritos mais ardentes da ala reformada, mas foi um aborrecimento curto, já que o artigo foi repristinado em 1571, quando a influência do luteranismo na Inglaterra diminuiu, e com ela a necessidade de agradar aos "papistas" da Igreja.
Os Trinta e Nove Artigos, da forma como saíram da Convocação de 1563, são um documento interessante. Parker estava procurando consenso, e na maior parte dos Artigos, parece mais próximo ao espírito da Confissão de Augsburgo do que das várias confissões suíças dos trinta anos anteriores. Os luteranos perderam com o (brevemente suprimido) Art. 29, que adota uma posição claramente reformada. Por outro lado, o conceito luterano de adiáfora - que cerimônias que não sejam claramente contrárias às Escrituras podem ser regulamentadas pela Igreja - está firmemente entrincheirado nos Artigos, o que marca uma séria derrota do partido calvinista.
Os Artigos marcam, de fato, o fim da fase legislativa do Acordo Isabelino (Elisabetano). Teoricamente, a Igreja da Inglaterra tinha uma liturgia reformada, mas empregando ainda os paramentos tradicionais. Os interiores das igrejas deveriam ter sido mudados apenas com a remoção dos altares, crucifixos, gradis de suporte para os crucifixos e as imagens supersticiosas, que deveriam ser substituídas com frases decorativas das Escrituras pintadas nas paredes das igrejas. Sua teologia era protestante, trilhando um caminho intermediário entre o luteranismo e a posição reformada. Seu governo permaneceu nas mãos dos Bispos, em sucessão apostólica, e os territórios e circunscrições das antigas dioceses e paróquias foram mantidos como dantes. Na prática, no entanto, houve concessões de parte a parte.
Para começo de conversa, a eliminação extra-oficial de objetos supersticiosos freqüentemente foi além do estritamente necessário. Órgãos foram removidos de algumas igrejas e deixaram de ser usados em outras. A música sacra estava em uma maré baixa. As igrejas eram cada vez mais empregadas como dois ambientes distintos: a nave para as orações Matutina e Vespertina, e o coro para a Ceia do Senhor. Os paramentos, que não o conjunto de batina, sobrepeliz, capa de asperges, tippet e capuz, parecem ter desaparecido de muitas áreas e não retornariam senão em tempos mais modernos. Alguns ministros - particularmente aqueles da linha que viria a se chamar puritana - omitiam partes da liturgia do LOC para deixar mais tempo ao sermão. Parker agiu contra tais abusos de várias maneiras.
Primeiro, ele deixou claro que a música sacra simples em inglês deveria ser encorajada. Esta provisão foi, depois de alguma hesitação, abraçada com entusiasmo e, gradualmente, as grandes liturgias corais que associamos com o anglicanismo se desenvolveram, vindas da pena de grandes compositores como Thomas Tallis e William Byrd para o uso das catedrais e da Capela Real de Isabel. Parker também promoveu a compilação da "Versão Antiga" dos Salmos de Davi metrificados, um incidente que levou a Igreja da Inglaterra a se tornar uma igreja de salmodia exclusiva em muitos lugares até meados do ano de 1800.
Em segundo lugar, ele e o Arcebispo Grindal de York ordenaram que a Oração Matutina, a Litania e o Culto de Comunhão deveriam ser lidos como um só, em sequência, nas paróquias. Isso facilitou aos magistrados que encontrassem omissões. Isso também levou ao tipicamente anglicano "Culto a seco" de Matinas, Litania e ante-Comunhão, terminando com um sermão. Devido à inércia dos fiéis e a regra reformada de que "não haverá missa sem comungantes", as celebrações da Santa Comunhão caíram em freqüência para uma vez ao mês, uma vez por bimestre ou quadrimestre, dependendo do tamanho da paróquia. Algumas paróquias em cidades grandes e as catedrais mantiveram as celebrações semanais.
Em terceiro lugar, em uma tentativa de assegurar a uniformidade de cerimonial, o Arcebispo exigiu o uso de batina, sobrepeliz, tippet e capuz em todos os cultos das paróquias. Também exigiu o uso da capa de asperges em catedrais e igrejas colegiadas. Paramentos eucarísticos foram deixados desaparecer discretamente, mas permaneceram legais.
Gradualmente, essa via media anglicana consolidou-se para se tornar a religião da Inglaterra, embora no século seguinte (até depois de 1662), tenha havido uma agitação persistente por uma reforma mais extensa para firmar a Inglaterra no campo reformado ou calvinista.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Uma Reforma bem conservadora, parte I
Revm.º Peter D. Robinson
(tradução do artigo A Conservative Reformation, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).

Tem havido um esforço bem coordenado, nos últimos 175 anos, por parte de uma facção da Igreja Anglicana, em negar a herança protestante do episcopalismo ortodoxo. Isto geralmente tem tomado a forma ou de uma tresleitura intencional dos Trinta e Nove Artigos de Religião (por exemplo, o Trato XC, de J. H. Newman), ou, mais recentemente, da negação pura e simples de que eles tenham qualquer relevância para a igreja moderna. Conquanto eu discorde fortemente dos argumentos contidos no Trato XC, é verdade que precisamos colocar os Artigos em seu contexto histórico, para podermos compreender plenamente o que o Arcebispo Matthew Parker e as Convocações de Cantuária e York estavam tentando fazer em 1563.
Teologicamente, os Reformadores protestantes se dividiram em três grupos. Para fins de argumentação, chamemo-nos de Biblicistas Conservadores, Biblicistas Moderados e Biblicistas Radicais. Os conservadores foram encabeçados por Lutero, e incluem outros grandes nomes como Melanchton, Bugenhagen, Olaus Petri e a maioria dos primeiros reformadores ingleses -- Barnes, Tyndale etc. Os moderados respondem pelos Reformadores da Suíça e do Reno, como Calvino, Bucer, Ecolampádio, Peter Martyr e Bullinger. O campo radical consiste de pessoas como Carlstadt e Miguel Serveto, que em última análise começaram a repensar até os Credos. O campo radical eventualmente se fechou em um canto e sobrevive hoje apenas em grupos biblicistas radicais como os Amish e os menonitas. Eles têm um primo distante no mainstream na forma das várias igrejas batistas, mas, em geral, sua tradição acabou se tornando bem marginal. Por outro lado, os biblicistas conservadores e moderados acabariam por formar o mainstream da Reforma européia.
O motivo disto é que as várias Igrejas estatais se encaixavam, grosso modo, em dois grupos. Os Biblicistas Conservadores conduziram seu próprio tipo de Reforma no norte da Alemanha e Escandinávia, dando a esses países uma herança evangélica luterana. Os suíços logo abandonaram algumas das posições mais extremadas de Zwínglio e conduziram uma Reforma mais moderada no quesito "somente a Bíblia" em seus cantões, que se disseminou para Estrasburgo, vários Estados da Renânia, norte da Holanda e Escócia. A Igreja inglesa se encaixou em algum lugar entre esses dois campos, conferindo alguma veracidade ao velho ditado de MacCauleuy sobre a Igreja da Inglaterra. Parafraseando-no para aproximá-lo à realidade, seria justo dizer que o Anglicanismo acabou ficando com "uma hierarquia católica, Artigos bucerianos e uma liturgia luterana". Por que isso?
Entre as décadas de 1530 e 1540, parecia que a Inglaterra eventualmente acabaria adotando uma forma conservadora de luteranismo, próxima à da Suécia. O Arcebispo Cranmer era luterano, bem como a maioria dos partidários influentes da Reforma até então. No entanto, por volta de 1545, idéias reformadas, vindas especialmente de Estrasburgo e da Renânia (e não diretamente de Genebra e Zurique) começaram a ganhar terreno. Nicholas Ridley (1500-1555), o "pequeno notável" do movimento da Reforma, parece ter adotado a Teologia Eucarística reformada, após ler uma obra do século IX de um monge chamado Ratramnus. Ele eventualmente convenceu Latimer e Cranmer de que a posição luterana acerca da Eucaristia estava incorreta, e o cenário estava pronto para a Reforma Eduardiana prosseguir segundo linhas moderadamente reformadas, e não mais luteranas.
A despeito de seu conservadorismo, e do favor de que goza com os atuais anglo-católicos, o Livro de Oração Comum (LOC) de 1549 foi cuidadosamente emoldurado em uma esturura teológica reformada. No entanto, Cranmer, que acreditava em conduzir as reformas gradualmente, estruturou a liturgia de uma forma que não chocaria demais os católicos henriquianos, e que ao mesmo tempo o mainstream luterano do partido reformista aceitaria de bom grado. É ponto pacífico que ele fez o trabalho um pouco bem demais, resultando em um longo debate com o bispo católico henriquiano Stephen Gardiner (1500-1555), que acreditava que a Eucaristia de 1549 dava margem a uma interpretação católica, e por outro lado foi duramente criticado por Martin Bucer, Regius Professor de Teologia em Cambridge, que lançou sua primeira Censura do LOC em 1550. Cranmer, que cada vez mais se identificava com a linha reformada, retornou à prancheta, modificando extensamente a ordem para o Culto com Santa Comunhão, e retirou muito do cerimonial que havia sobrado em 1549.
O LOC de 1552 marcou o ápice do pensamento reformado, no que tange à liturgia da Igreja da Inglaterra. Eduardo VI morreu depois de um ano, e a ascensão de Maria Tudor (1516-1558) tornou o ser protestante na Inglaterra um negócio perigoso, visto que ela formalmente restaurou o país à obediência a Roma. No entanto, a infeliz política mariana de queimar protestantes proeminentes, como Cranmer, Latimer, Ridley, Hooper, Taylor e vários outros membros importantes da hierarquia eduardiana, não caiu bem para o público em geral. Tivesse vivido mais tempo, a Rainha Maria I provavelmente teria sido bem-sucedida em devolver a Inglaterra aos apriscos romanos, ou, mais provavelmente, em lançar o país em uma guerra civil religiosa; mas, tendo morrido em 1558, ela deixou o país encalhado entre a velha e a nova religião.
Sua sucessora e meia-irmã, Isabel (ou Elizabeth, 1533-1603) foi educada por John Cheke, e ela teve Matthew Parker como Capelão em certa época. Ela, portanto, tendia ao protestantismo, embora fosse relativamente isenta das influências continentais, não tomando partido nem pelo luteranismo, nem pelo calvinismo. Matthew Parker (c. 1504-1575), seu escolhido para Arcebispo da Cantuária, era também o propositor de uma versão insular do protestantismo, relativamente livre das influências das disputas estrangeiras, conquanto plenamente ciente de tais questões. Sir William Cecil, seu principal conselheiro, também não era nenhum fã de modismos estrangeiros, embora se inclinasse, talvez, um pouco mais ao calvinismo do que a Rainha. Com estes três a cargo da política, o cenário estava montado para um consenso religioso moderado, "pan-protestante", que refletia a necessidade do Governo de reunir todas as três correntes do protestantismo inglês dentro da Igreja nacional. Isabel, Cecil e Parker, portanto, buscaram reunir luteranos, bucerianos e calvinistas dentro da Igreja nacional. Paradoxalmente, o que começou como uma questão de necessidade política acabou produzindo o que John Wesley descreveu como "a melhor igreja reformada da Cristandade".
No próximo artigo, nós examinaremos como isto se deu e por que é tão importante para os anglicanos continuantes preservar sua herança católica-reformada.
(tradução do artigo A Conservative Reformation, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).

Tem havido um esforço bem coordenado, nos últimos 175 anos, por parte de uma facção da Igreja Anglicana, em negar a herança protestante do episcopalismo ortodoxo. Isto geralmente tem tomado a forma ou de uma tresleitura intencional dos Trinta e Nove Artigos de Religião (por exemplo, o Trato XC, de J. H. Newman), ou, mais recentemente, da negação pura e simples de que eles tenham qualquer relevância para a igreja moderna. Conquanto eu discorde fortemente dos argumentos contidos no Trato XC, é verdade que precisamos colocar os Artigos em seu contexto histórico, para podermos compreender plenamente o que o Arcebispo Matthew Parker e as Convocações de Cantuária e York estavam tentando fazer em 1563.
Teologicamente, os Reformadores protestantes se dividiram em três grupos. Para fins de argumentação, chamemo-nos de Biblicistas Conservadores, Biblicistas Moderados e Biblicistas Radicais. Os conservadores foram encabeçados por Lutero, e incluem outros grandes nomes como Melanchton, Bugenhagen, Olaus Petri e a maioria dos primeiros reformadores ingleses -- Barnes, Tyndale etc. Os moderados respondem pelos Reformadores da Suíça e do Reno, como Calvino, Bucer, Ecolampádio, Peter Martyr e Bullinger. O campo radical consiste de pessoas como Carlstadt e Miguel Serveto, que em última análise começaram a repensar até os Credos. O campo radical eventualmente se fechou em um canto e sobrevive hoje apenas em grupos biblicistas radicais como os Amish e os menonitas. Eles têm um primo distante no mainstream na forma das várias igrejas batistas, mas, em geral, sua tradição acabou se tornando bem marginal. Por outro lado, os biblicistas conservadores e moderados acabariam por formar o mainstream da Reforma européia.
O motivo disto é que as várias Igrejas estatais se encaixavam, grosso modo, em dois grupos. Os Biblicistas Conservadores conduziram seu próprio tipo de Reforma no norte da Alemanha e Escandinávia, dando a esses países uma herança evangélica luterana. Os suíços logo abandonaram algumas das posições mais extremadas de Zwínglio e conduziram uma Reforma mais moderada no quesito "somente a Bíblia" em seus cantões, que se disseminou para Estrasburgo, vários Estados da Renânia, norte da Holanda e Escócia. A Igreja inglesa se encaixou em algum lugar entre esses dois campos, conferindo alguma veracidade ao velho ditado de MacCauleuy sobre a Igreja da Inglaterra. Parafraseando-no para aproximá-lo à realidade, seria justo dizer que o Anglicanismo acabou ficando com "uma hierarquia católica, Artigos bucerianos e uma liturgia luterana". Por que isso?
Entre as décadas de 1530 e 1540, parecia que a Inglaterra eventualmente acabaria adotando uma forma conservadora de luteranismo, próxima à da Suécia. O Arcebispo Cranmer era luterano, bem como a maioria dos partidários influentes da Reforma até então. No entanto, por volta de 1545, idéias reformadas, vindas especialmente de Estrasburgo e da Renânia (e não diretamente de Genebra e Zurique) começaram a ganhar terreno. Nicholas Ridley (1500-1555), o "pequeno notável" do movimento da Reforma, parece ter adotado a Teologia Eucarística reformada, após ler uma obra do século IX de um monge chamado Ratramnus. Ele eventualmente convenceu Latimer e Cranmer de que a posição luterana acerca da Eucaristia estava incorreta, e o cenário estava pronto para a Reforma Eduardiana prosseguir segundo linhas moderadamente reformadas, e não mais luteranas.
A despeito de seu conservadorismo, e do favor de que goza com os atuais anglo-católicos, o Livro de Oração Comum (LOC) de 1549 foi cuidadosamente emoldurado em uma esturura teológica reformada. No entanto, Cranmer, que acreditava em conduzir as reformas gradualmente, estruturou a liturgia de uma forma que não chocaria demais os católicos henriquianos, e que ao mesmo tempo o mainstream luterano do partido reformista aceitaria de bom grado. É ponto pacífico que ele fez o trabalho um pouco bem demais, resultando em um longo debate com o bispo católico henriquiano Stephen Gardiner (1500-1555), que acreditava que a Eucaristia de 1549 dava margem a uma interpretação católica, e por outro lado foi duramente criticado por Martin Bucer, Regius Professor de Teologia em Cambridge, que lançou sua primeira Censura do LOC em 1550. Cranmer, que cada vez mais se identificava com a linha reformada, retornou à prancheta, modificando extensamente a ordem para o Culto com Santa Comunhão, e retirou muito do cerimonial que havia sobrado em 1549.
O LOC de 1552 marcou o ápice do pensamento reformado, no que tange à liturgia da Igreja da Inglaterra. Eduardo VI morreu depois de um ano, e a ascensão de Maria Tudor (1516-1558) tornou o ser protestante na Inglaterra um negócio perigoso, visto que ela formalmente restaurou o país à obediência a Roma. No entanto, a infeliz política mariana de queimar protestantes proeminentes, como Cranmer, Latimer, Ridley, Hooper, Taylor e vários outros membros importantes da hierarquia eduardiana, não caiu bem para o público em geral. Tivesse vivido mais tempo, a Rainha Maria I provavelmente teria sido bem-sucedida em devolver a Inglaterra aos apriscos romanos, ou, mais provavelmente, em lançar o país em uma guerra civil religiosa; mas, tendo morrido em 1558, ela deixou o país encalhado entre a velha e a nova religião.
Sua sucessora e meia-irmã, Isabel (ou Elizabeth, 1533-1603) foi educada por John Cheke, e ela teve Matthew Parker como Capelão em certa época. Ela, portanto, tendia ao protestantismo, embora fosse relativamente isenta das influências continentais, não tomando partido nem pelo luteranismo, nem pelo calvinismo. Matthew Parker (c. 1504-1575), seu escolhido para Arcebispo da Cantuária, era também o propositor de uma versão insular do protestantismo, relativamente livre das influências das disputas estrangeiras, conquanto plenamente ciente de tais questões. Sir William Cecil, seu principal conselheiro, também não era nenhum fã de modismos estrangeiros, embora se inclinasse, talvez, um pouco mais ao calvinismo do que a Rainha. Com estes três a cargo da política, o cenário estava montado para um consenso religioso moderado, "pan-protestante", que refletia a necessidade do Governo de reunir todas as três correntes do protestantismo inglês dentro da Igreja nacional. Isabel, Cecil e Parker, portanto, buscaram reunir luteranos, bucerianos e calvinistas dentro da Igreja nacional. Paradoxalmente, o que começou como uma questão de necessidade política acabou produzindo o que John Wesley descreveu como "a melhor igreja reformada da Cristandade".
No próximo artigo, nós examinaremos como isto se deu e por que é tão importante para os anglicanos continuantes preservar sua herança católica-reformada.
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