quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Uma reforma bem conservadora, parte IV

Revm.º Peter D. Robinson

(tradução do artigo A conservative Reformation, part IV, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. +Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).

Nos últimos anos, tem havido persistentes tentativas de se jogar para escanteio os Trinta e Nove Artigos de Religião (daqui pra frente, simplesmente "os Artigos"), sobretudo pelos defensores da teologia liberal. Como resultado, a maior parte do clero anglicano não tem contemplado os Artigos tão de perto como talvez devessem. A postura de muitos parece ser a de que eles são irrelevantes, ou então, aquela vista em Oscar Wilde, que, solicitado a subscrever os Artigos quando entrou para a universidade, respondeu "Eu subscrevo até quarenta, se quiser!". Os mais moderados pelo menos têm a sabedoria de ver que os Artigos precisam ser lidos em seu contexto. E esse contexto é, claro, a atmosfera teológica dos cinqüenta anos que precederam 1563.


Em alguns aspectos, a Reforma Inglesa veio bem tarde para sua época, de modo que, de certa forma, ela é uma reforma derivada. O pensamento criativo foi feito em outro lugar - na Alemanha e na Suíça - então a contribuição inglesa para a sua própria Reforma foi a do bom-senso e da moderação. As estruturas básicas, tanto da teologia luterana, como da reformada, já estavam assentadas antes do início da Reforma Inglesa, de modo que é possível ver onde os documentos confessionais anteriores influenciaram os Artigos.

Então, de onde eles derivam?

O formato dos Artigos segue o da Confissão de Augsburgo (1530), em consistir de uma série de declarações relativamente curtas, seja mantendo a teologia tradicional católica, ou explicando onde a Igreja da Inglaterra difere dela. Comecemos com a estrutura básica dos Artigos, que se divide da seguinte forma:

Arts. 1 a 8 tratando das questões fundamentais - a Santíssima Trindade, as Escrituras e os Credos;
Arts. 9 a 18, das "Doutrinas da Graça";
Arts. 19-24, da natureza da Igreja;
Arts. 25-31, dos Sacramentos;
Arts. 32-39, de várias questões disciplinares e civis.

Mantendo este formato em mente, vamos passar pelos Artigos, conferindo de onde eles derivam, e suas similaridades e diferenças com relação a outras confissões da era da Reforma.

Os primeiros cinco Artigos tratam da doutrina da Santíssima Trindade, e se afinam com a doutrina católica romana, luterana e reformada sobre o assunto. A fraseologia, no geral, ecoa aquela da Confissão de Augsburgo, embora algo expandida. Ela também traz alguma semelhança com a Confissão Escocesa de 1560, ela mesma influenciada pelos 42 Artigos e pela Confissão Helvética. Os Arts. 6-8 seguem o amplo consenso dos luteranos e reformados quanto às Sagradas Escrituras e os Credos.

Uma abordagem semelhante, de consenso, prossegue, quando os artigos enfrentam as questões da justificação, do papel das boas obras e da predestinação. Para resumir a posição adotada pelos Artigos:

1. A justificação é pela graça, "mediante a fé, somente";
2. As boas obras não têm qualquer papel na nossa justificação, mas depois dela, elas são aceitáveis a Deus e evidências de uma fé viva;
3. O Art. 17 afirma que os anglicanos, em acordo com o ensinamento de S. Paulo aos Romanos, crêem na "predestinação para a vida".

Tudo isto em acordo com as confissões luteranas e com as primeiras, menos radicais, posturas de Bullinger, Calvino e sua geração de reformadores "suíços".

Os Artigos tomam um rumo mais independente quando tratam dos Sacramentos. O artigo sobre a teologia geral dos sacramentos, e o do batismo, alinham-se bastante com a posição dos luteranos e a das confissões Helvética e de Heildelberg. Em outras palavras, o Batismo comunica regeneração, que é subseqüentemente manifestada por uma vida vivida de acordo com os mandamentos de Deus.

Os Artigos sobre a Ceia do Senhor são, talvez, a parte mais ambígua de todos os Trinta e Nove. Eles só parecem excluir a doutrina medieval da transubstanciação e a doutrina "baixa-reformada" do memorialismo. No entanto, eles tendem a favorecer uma compreensão "alta-calvinista" do Sacramento. Basicamente, Cristo está presente "de uma maneira celestial e espiritual", e nós o recebemos "pela fé". Este é um ponto de vista essencialmente recepcionista, mas com uma grande dose de objetividade. Por outro lado, suas sentenças não são herméticas, e é perfeitamente possível ter um entendimento luterano de união sacramental e, ainda assim, subscrever os Artigos.

Os Arts. 32 a 39 declaram a necessidade de um ministério ordenado e autorizado, a legalidade dos votos e que as autoridades civis são parte da ordem divina. Os artigos presumem que o ministério da Igreja será governado episcopalmente, e consistirá de bispos, sacerdotes e diáconos, ordenados de acordo com as provisões do Ordinal Anglicano. Os Artigos também insistem que os ritos e cerimônias da Igreja, desde que não contenham nada contrário à Palavra de Deus, podem ser regulados pelos bispos, sob a supervisão do Príncipe, de modo a assegurar que o povo de Deus seja devidamente edificado - uma posição claramente luterana, bem diferente do "Princípio Regulador", tão amado das gerações posteriores de teólogos reformados.

No todo, os Artigos são um documento moderado e temperado, que geralmente se encaixa com as confissões históricas reformadas, mas mantém a porta semi-encostada para aqueles com entendimento filipista e luterano acerca da Ceia do Senhor. De uma certa forma, eles são um documento amplo e inclusivo, mas isso não significa que lhes falte substância. Sua inclusividade deriva, na verdade de uma vagueza calculada naquelas questões mais controvertidas entre os teólogos luteranos e reformados. A meta dos Trinta e Nove Artigos era construir um consenso protestante nacional, sobre o qual se fundaria uma igreja bíblica, católica e reformada.

É a história subseqüente do anglicanismo, não suas falhas inerentes, que causaram a diminuição da autoridade dos Artigos. Teólogos do século XVII rebelando-se contra a ortodoxia da dupla-predestinação de Dort tenderam a dar pouca ênfase à leitura do Art. 17. No entanto, os doutores carolíngeos estabeleceram uma nova ortodoxia, protestante de high church, que predominou por quase um século. Então, no século XIX, tanto os liberais quanto os partidários da broad church, e os anglo-católicos, buscaram diminuir a autoridade dos Artigos, de modo que pudessem mais facilmente promover suas próprias releituras do anglicanismo. Foi por esta época posterior, vitoriana, de reconstrução do anglicanismo, que deitou-se as bases do caos teológico e do relativismo moral que tomou a comunhão anglicana na segunda metade do século XX.

Um comentário:

Edwin disse...

Parabéns pelo artigo, demonstra clareza e conhecimento teológico. Como pastor luternao pela primeira vez vi corretamente expressa a compreenção luterana de Santa Ceia.O termo consubstanciação, de senso comum, é errônea. O termo que exprime nossa concepção, acertadamente empregado por ti, é de fato união sacramental. É um prazer sempre ler os artigos do teu Blog, pois trazem a aquestão da herança litúrgica dentro da reforma, como citei, ancorada em conhecimento histórico e clareza teológica.
Em Cristo
Sds fraternas
Rev. Edwin Fickel (IECLB)