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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Presbiterianos & Liturgia, parte 10.

O efeito anti-litúrgico do imediacionismo e do individualismo na moderna soteriologia calvinista norte-americana (2)

Por Jeffrey Meyers

(Continuação da parte 9)
(Leia o original aqui)


Pelo menos um terço das Institutas de Calvino é dedicado à doutrina da igreja (Livro IV). A doutrina de Deus, do homem, de Cristo e da salvação, todas culminam no Corpo místico do qual Cristo é o Cabeça. Essa "alta" teologia eclesiástica pode ser encontrada em todos os reformadores do século XVI (confira AVIS, Paul D. L., The Church in the theology of the reformers. Atlanta: John Knox, 1981) e especialmente na teologia reformada do começo do século XVI (confira a ótima exposição em MACGREGGOR, Geddes. Corpus Christi: the nature of the Church according to the Reformed tradition. Philadelphia: Westminster Press, 1958). É nesta comunidade de carne e osso santos, diálogo oral, rituais materiais e sacramentos físicos que nós nos encontramos com Deus. Calvino avisa:

Portanto, aquele que quer encontrar Cristo, deve primeiro encontrar a Igreja. Como alguém saberia onde estão Cristo e sua fé, se não souber onde estão seus seguidores? Aquele que quer saber alguma coisa de Cristo não deve confiar em si mesmo, ou construir seus próprios caminhos para o céu por sua própria razão, mas deve dirigir-se à Igreja, visitá-la e lá perguntá-lo (...) pois fora da Igreja não há verdade, não há Cristo, não há salvação.

Se isso nos soa estranho ou simplesmente errado, é porque nós fomos infectados com uma mentalidade gnóstica. O Espírito fala através da Noiva (Ap. 22.17). Quando Jesus convoca as sete igrejas a ouvir o Espírito, ele quer que elas ouçam a voz de seu pastor/mensageiro enquanto ele lê a carta que é endereçada a cada uma (Ap., caps. 2 e 3). A primeira parte do Livro IV das Institutas trata "da necessariedade da igreja". Ao falar do material e bem visível corpo dos crentes na terra, Calvino diz:

(...) porque é nossa intenção, agora, discutir a igreja visível, aprendamos do simples nome "mãe" o quão útil, e de fato necessário, é que nós devamos conhecê-la. Pois não há outro modo de se chegar à vida, senão se essa mãe nos conceber em seu útero, nos dar à luz, nos nutrir em seu seio, por fim, a menos que ela nos mantenha sob se cuidado e direção até que, deixando a carne mortal, nos tornemos como os anjos. Nossa fraquea não nos permite sermos dispensados de sua escola até que tenhamos sido alunos por toda a vida. Além disso, longe de seu seio ninguém pode ter esperança de qualquer perdão de pecados, ou de qualquer salvação (Institutas, IV.I.4).

É de se notar que Calvino não está falando de uma igreja invisível, "espiritual", mas da própria comunidade física dos crentes, que se reunem para servirem-se uns aos outros se serem os meios pelos quais Deus serve, pelo falar, o ouvir, o cantar e o orar por e em favor uns dos outros. De certa forma, a igreja é o mais preeminente dos meios de graça (confira LEITHART, Peter. Against "Christianity": for the Church; bem como o seu Sociology of infant baptism, dos quais ambos se encontram em Biblical Horizons: Christendom Essays, n. 100, dez. 1997, pp. 29-50 e 86-106).

Então por que tantos têm medo disso? Uma das idéias mais nocivas já lançadas no cristianismo reformado é essa noção de que Deus normalmente comunica a sua presença imediatamente [no sentido de "sem mediadores", N. do T.] à alma do homem, desviando-se de todos os meios externos, físicos. Sim, é verdade, e é parte do ideário da teologia reformada, que o Senhor é livre para operar fora dos meios constituídos, em casos extraordinários. Mas isso significa apenas que o Senhor ordinariamente trabalha da forma como prometeu, através dos instrumentos que ele mesmo apontou para comunicar sua graça, quais sejam, pela instrumentalidade das palavras audíveis de seus ministros, pela água do Batismo, e pelo pão e pelo vinho da Comunhão. Há, é claro, circunstâncias extraordinárias, nas quais não se limita àqueles meios o poder e a graça do Senhor. Mas por que é que nós deveríamos fazer uma "teologia das exceções"? Nós não podemos dizer que o Batismo tem qualquer efeito por causa do argumento do bandido da cruz? E do bebê que morre antes de chegar à pia? Fazer teologia apelando apenas para as exceções nos deixaria com uma compreensão muito empobrecida dos sacramentos.

Nós deveríamos, como pastores reformados, afirmar que os meios normais, ordinários, pelos quais Deus comunica as suas dádivas são, de fato, aqueles que ele mesmo constituiu, não outros além ou em torno deles, e muito menos sem eles! Esse é o modus operandi normal de Deus. O Espírito Santo normalmente opera através dos instrumentos físicos e humanos que ele mesmo ordenou. Do contrário, as promessas que são vinculadas a esses meios são enganosas e mesmo traiçoeiras.

Entender a promessa do Espírito Santo de usar os meios determinados pelo Senhor como instrumentos para entregar as dádivas do Reino é uma das marcas da eclesiologia sacramental reformada de Calvino. Por que não cremos no que Deus nos prometeu? Por que nos ofendemos em pensar que Deus realmente cumpre a sua promessa no Batismo? Ou na Ceia do Senhor? Ou no serviço da Palavra por meio dos que ele deu ao Ministério da Igreja? Um dos meus professores em Concordia diz: "Nós, pessoas modernas, não mais encontramos o Espírito Santo ele deveria ser buscado... não entendemos mais o elo prometido do Espírito Santo com os meios externos de graça, e talvez nem mais queiramos ouvi-lo. (NAGEL, Norman. Externum Verbum, Logia 6. Trinity 1997, pp. 27-32). Calvino diz assim, ao comentar João 20.23 e o comissionamento dos discípulos como ministros do Evangelho:

Agora vemos o motivo pelo qual Cristo emprega termos tão grandiosos, para elevar e adornar o ministério que ele confia e entrega aos Apóstolos. É para que os crentes possam ser plenamente convencidos de que o que eles ouvem a respeito do perdão dos pecados está ratificado e não pode ter menos valor a reconciliação que é oferecida pela voz dos homens, do que se o próprio Deus estendesse sua mão dos céus. E a igreja recebe diariamente o mais abundante benefício dessa doutrina, quando percebe que seus pastores são divinamente ordenados para que sejam certeza da eterna salvação, e que não se precisa ir longe para buscar o perdão dos pecados, que é confiado aos seus cuidados. (Commentary on the Gospel according to John, v. 2, trad. William Pringle. Grand Rapids: Baker, 1981, p. 272)

sábado, 9 de agosto de 2008

Presbiterianos & Liturgia, parte 9

O efeito anti-litúrgico do imediacionismo e do individualismo da moderna soteriologia calvinista norte-americana.

Por Jeffrey Meyers.

(continuação da Parte 8)
(leia o original aqui)


Parece que, para que esteja resguardada a soberania da obra de Deus, nós freqüentemente pensamos que devemos remover todos os meios, toda a mediação e, de fato, toda instrumentalidade da humanidade e da criação, e confinar a obra da salvação e da santificação a operações particulares, não mediadas, do Espírito sobre a alma do indivíduo homem.

Teólogos e pastores reformados são particularmente suscetíveis a esse erro por causa da influência indevida do livrinho de B. B. Warfield, The plan of salvation (Philadelphia: Presbyterian Board of Publications, 1915). Antes mesmo de dizer alguma coisa sobre o livro, deixem-me já rebater as já esperadas críticas dos fãs de Warfield. Ele foi um ótimo teólogo bíblico e sistemático. Não duvido disso nem por um minuto. Eu mesmo me beneficiei muito das suas obras. Essa é a primeira coisa a dizer.

A segunda é que eu não estou preocupado tanto com a teologia de Warfield em geral, mas com o que está expresso nesse livreto, O plano da salvação. Muita gente não tem contato com Warfield, senão por esse livro. Eu sei que isso é verdade especialmente para boa parte dos seminaristas. Meu problema é que esse livrinho, ao contrário do restante da obra de Warfield, apresenta um retrato muito mal tirado da sua teologia e, portanto, da teologia calvinista dos sacramentos, da liturgia e da igreja.

Sem fornecer um mínimo de prova escriturística, Warfield afirma que "a fé evangélica significa precisamente a dependência imediata da alma de Deus, e de Deus apenas, para a salvação" (p. 66, ênfase minha). Qualquer teologia que "separa a alma do contato direto com, e da dependência imediata de Deus, o Espírito Santo", é chamada de "sacerdotalismo".

Isso é perturbador. Se esse livrinho for tomado isolado do restante da obra mais aprofundada de Warfield, então isso conduzirá o leitor a se libertar da Reforma magisterial, especialmente da insistência luterana e calvinista de que Deus de fato usa instrumentos humanos (água, pão, vinho, a voz de outros seres humanos etc.) para comunicar-se a si mesmo e sua graça a seu povo.

O conceito warfieldiano de um calvinismo purificado como consistindo da imediação da obra do Espírito na alma do homem era mais motivada, temo eu, pelo seu preconceito contra os sistemas sacramentais de Roma e Cantuária do que por uma leitura cuidadosa das Sagradas Escrituras. Isso continua sendo um problema em rodas reformadas.

Warfield argumenta que a imediação é a essência da fé reformada e a própria realização da religião bíblica.

Pelo contrário, eu argumentaria que a noção não-bíblica da imediação é o calcanhar de Aquiles do calvinismo americano. Por que nós sentimos que seria uma indignidade o Espírito Santo ligar-se a si mesmo a meios externos tão inexpressivos como as palavras familiares proclamadas pela sepulcral voz de um pregador de carne e osso, ou o pão e o vinho da Ceia, ou a água do Batismo? Não será por causa de um falso espiritualismo, uma espécie de gnosticismo que se infiltrou no nosso pensamento enquanto cristãos? Uma noção estranha, não-bíblica, de que o Espírito deve operar na alma do homem sem o uso de meios ou instrumentos externos? Onde esto está ensinado na Bíblia?

A verdadeira essência da religião bíblica é, talvez, a coisa mais difícil a ser reaprendida por nós, modernos cristãos espiritualistas. Estamos tão acostumados a pensar em termos de corpo e alma, carne e espírito, físico e espiritual como sendo opostos, que deixamos de compreender que a plena magnitude do amor de Deus reside no fato surpreendente de que o Filho de Deus veio a nós em carne, e que o Espírito Santo generosamente liga-se a si mesmo aos meios de graça. Negar isso é derrapar para uma forma de gnosticismo.

Phillip Lee argumenta convincentemente que o protestantismo norte-americano em particular tem, talvez inadvertidamente, abraçado uma espiritualidade gnóstica (Against the protestant gnostics. Oxford: Oxford University Press, 1987). Acho que ele está certo. Os reformados modernos não gostam de liturgia porque acham que ela introduz um indesejado "intermediário" entre Deus e a alma individual. Esse monte de coisa só serve para complicar. Não precisamos disso. Afinal, se eu tenho contato espiritual direto com Jesus, pra quê eu vou precisar dessas outras coisas materiais?

(Continua)

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Presbiterianos & Liturgia, parte 8

Terminologia e glória

Por Jeffrey Meyers

(continuação da parte 7)
(leia o original aqui)

A terminologia que nós usamos para descrever o que acontece no Dia do Senhor pode causar confusão. Nós herdamos a designação “serviço de louvor”, que, na minha opinião, leva a uma confusão sobre o que realmente acontece na congregação.

“Serviço” vem do latim servitium, como em servitium Dei (“o Serviço de Deus”, ou “o Serviço Divino”). Essa forma antiga de designar a liturgia cristã é deliciosamente ambígua. No “Serviço divino” ou no “Serviço de Deus”, quem está servindo quem? É Deus que nos serve, ou nós servindo a Deus? Ou ambos?

Na concepção clássica, considerava-se que o “Serviço Divino” incluía tanto o serviço de Deus a nós, e o nosso serviço a Deus. Mas mesmo naquele tempo, nossos pais na fé consideravam o serviço de Deus a nós (o perdão dos pecados, o ministério [serviço!] da Palavra, os Sacramentos etc.) como o principal, e o nosso serviço a ele como uma resposta secundária.

Mas a prioridade do serviço de Deus a nós é exatamente o que se perde quando chamamos nossa assembléia dominical de “louvor”. No inglês (worship), esse termo vem do anglo-saxão worth-ship, que significa reconhecer o devido valor (worthness) de uma coisa ou de uma pessoa. Ao chamarmos nossa reunião de “culto de louvor”, parece que estamos dando ênfase não às dádivas e ao ministério de Deus a nós por meio da Palavra e dos Sacramentos, mas sim ao nosso, de reconhecer o “valor” de Deus.

Infelizmente, muitas pessoas que pregam e ensinam acerca do culto têm uma tendência de passar batido por isso. Nós tendemos demais a aceitar a enganosa tradução de “liturgia” como “o serviço do povo”, o que, na verdade, é só metade da história, e, na verdade, é a segunda metade!
O que acontece no domingo é a continuação do serviço do Senhor Jesus, assunto aos céus, por seu povo. “Pois qual é maior: quem está à mesa, ou quem serve? Porventura não é quem está à mesa? Pois, no meio de vós, eu sou como quem serve.” (S. Lucas 22.27; veja também S. Mateus 20.28, S. João 13.5-16 e Filipenses 2.7-8).

Sem essa compreensão, nosso culto inevitavelmente se degenera em pelagianismo com verniz calvinista. O serviço de louvor não é primeiramente para Deus. Ao contrário, primeiro nós recebemos de Deus, então, secundariamente, nós devolvemos a ele, com gratidão, precisamente daquilo que ele generosamente continua a nos dar.

Glória

Afinal, Deus não precisa de nosso serviço ou adoração. Ele não nos criou primeiramente para se glorificar a si mesmo, mas para distribuir e compartilhar a plenitude da sua glória com as suas criaturas. Isso precisa ser considerado com cuidado. O verdadeiro Deus não é como os deuses pagãos que precisam se alimentar de toda a glória que conseguirem. Para o verdadeiro Deus, a verificação da quantidade de glória que ele possui e a que nós possuímos não é um exercício de compensação. Se ele tem toda a glória, isso não significa que nós não temos nenhuma. Se nós temos glória, isso não vai às expensas da sua própria glória. Somente quando nós nos recusamos a reconhecer a fonte da nossa glória e nos afirmamos a nós mesmos contra a sua, é que incorremos na condenação dos profetas.

Thomas Howard desafia corretamente essa distorção:

Se apenas Deus é Todo-glorioso, então ninguém mais tem glória alguma. Nenhuma exaltação pode ser admitida a qualquer outra criatura, pois isto colocaria em xeque a prerrogativa exclusiva de Deus. Mas isto é imaginar uma corte medíocre. Que tipo de rei se cerca de criaturas deformadas, aleijadas e sem valor? Quanto mais glorioso o rei, mais gloriosos são os títulos e honras que ele confere. As plumas, coques, coroas, diademas, mantos e medalhões que adornam sua corte testificam de uma coisa apenas, de sua própria majestade e munificência. Grande é o rei que tem figuras de tão grande dignidade em sua corte, ou melhor ainda, que ele mesmo elevou a tal dignidade. Esses grandes senhores e senhoras, alfaiados e coroados com a maior honra e dignidade, são precisamente seus vassalos. Esse conjunto resplandecente é a sua corte! Toda a glória a ele e, nele, glória e honra a esses outros (Evangelical is not enough [Nashville: Thomas Nelson, 1984], p. 87).

Mas é essa forma mais crua de doutrina que povoa o imaginário popular. Se alguém tem uma nesga de glória, ela deve ser confiscada por Deus. Isso é paganismo. Ao contrário, nós devemos dizer que, se alguém tem uma medida, ou dez, de glória, ela lhe foi dada por Deus, da plenitude de sua própria glória, de modo que toda a glória no mundo redunda, em última análise, a ele. “Porque dele e por meio dele e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém.” (Romanos 11.36).

É essa visão equivocada da relação entre a glória de Deus e a nossa própria que leva a toda sorte de erro. Nossas igrejas não podem ser belas (gloriosas), mas devem parecer com auditórios, nus e caiados, do contrário poderíamos estar desviando as pessoas de Deus, que sozinho possui toda a glória. Loucura. A beleza não é perigosa em si mesma. É Deus quem dá glória e beleza a seu povo. Que idéia de Deus é passada por igrejas que deliberadamente fazem ambientes feios para o culto? O de um marido que prefere que sua esposa seja desmazelada, que não permite a ela que se embeleze; tal marido não ama de verdade a sua esposa. E quão pior seria que ele preferisse chamar a atenção para si mesmo e sua beleza, ao manter a sua esposa em farrapos!

O Pai deseja glorificar a noiva de seu Filho. O Filho também se dedica para embelezá-la. O Espírito da glória está diretamente envolvido nessa produção. O que você acha que isso significa para a liturgia cristã? Pense assim: o que fazemos nas cerimônias de casamento? Normalmente, os pais e o casal se dedicam a torná-las belas. Tempo e esforço são aplicados para assegurar que tudo seja feito direito, para glorificar a noiva e assegurar que a cerimônia seja, também, gloriosa. Por que não temos essa mesma postura com relação ao culto do Dia do Senhor? Onde está a preocupação correspondente com a beleza e o significado da liturgia da Igreja?

(continua na parte 9)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Presbiterianos & liturgia, parte 7

O serviço de Deus através do ministro

Por Jeffrey J. Meyers

(continuação da parte 6)
(leia o original aqui)

Vamos pensar no desaparecimento do pastor como representante do Senhor e seu porta-voz, em muitos cultos que se vêem por aí. Muitos pastores não dirigem mais o culto dominical. Esse afastamento do papel de liderança do pastor no culto contemporâneo decorre desse tipo de concepção unilateral do culto dominical que eu venho criticando.

Se o que as pessoas estão fazendo no culto é simplesmente se reunirem para render louvor e orações, e oferecer a Deus toda sorte de devoção humana, então nós podemos mesmo simplesmente nos reunir para fazer isso juntos, e qualquer um pode liderar. Se, no entanto, o próprio Senhor Deus é quem nos vem encontrar e nos conceder suas dádivas, então o ministro ordenado terá um papel de destaque, de modo que as pessoas não tenham dúvida de que é o próprio Senhor quem está falando, absolvendo, batizando, nos oferecendo alimento e bebida, e finalmente nos abençoando e nos enviando ao mundo para aumentar seu reino.



É claro, isto não quer dizer que o Senhor nos serve no culto exclusivamente através do pastor, visto que Deus também opera através das orações comunitárias, recitações e canto da congregação. Quantas vezes nós fomos verdadeiramente servidos por Deus enquanto ouvíamos e nos uníamos à voz unida da igreja, em oração e louvor? O Senhor, portanto, nos serve no culto dominical de modo que seu Espírito fale tanto pela voz do ministro como pelas vozes de seu povo. Mas deve haver uma certa prioridade dada às palavras e ações do ministro no culto dominical.

É por isso que o ministro que lidera o culto deve ser um homem ordenado. Por questão de seu ofício, ele deve representar o Noivo da noiva. Uma mulher não poderia fazê-lo. Isto faria destoar a própria estrutura dos papéis de relações dentro da igreja e do lar. O simbolismo da liderança masculina deve ser mantida na liturgia comunitária da igreja.

A igreja submete-se ao seu Senhor enquanto recebe dele a Palavra e os Sacramentos pela boca e mãos do pastor. O padrão de liderança masculina está enraizado profundamente na ordem criada (Gn 2.15-24; 3.15-19; I Tm 2.11-15; I Pe 3.1-7), bem como na ordem re-criada (I Co 11.3-16; 14.33-35; Ef 5.22-33). Esses papéis de relacionamento não são negociáveis. C. S. Lewis diz: "Eu estou esmagadoramente consciente de quão inadequados a maioria de nós somos, em nossas verdadeiras e históricas atualidades, para desempenhar o papel que é preparado para nós. Mas há um velho ditado militar que diz que você faz continência para o uniforme, e não quem o veste. Somente alguém vestindo o uniforme masculino pode (provisionalmente e até a Parousia) representar o Senhor da Igreja: pois todos nós somos, comunitária e individualmente, femininos para ele. Nós, homens, damos péssimos sacerdotes. Isso porque nós somos insuficientemente masculinos. Não há cura para aqueles de nós que não são, absolutamente, nada masculinos. Um dado homem pode dar um marido muito ruim; você não pode consertar isso invertendo os papéis. Ele pode ser um mau parceiro de dança. A cura para isso é que os homens devam freqüentar com maior empenho aulas de dança, e não que a pista de dança passe a ignorar distinções de sexo e tratar a todos os dançarinos como neutros."(citado in Credenda Agenda 11/2 [1999]: 3).

Continua na parte 8.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Presbiterianos & liturgia, parte 6.

Por Jeffrey Meyers

(continuação da parte 5)
(leia o original aqui)

Mais algumas reflexões sobre o serviço de Deus a nós

Primeiro, vamos nos lembrar de que o tabernáculo, o templo, os sacrifícios e o sacerdócio de Israel foram um serviço de Deus para Israel e a humanidade. Deus não precisava do louvor deles. Esse arranjo litúrgico foi seu generoso presente para seu povo e o mundo. Quando os israelitas chegaram à conclusão de que estavam fazendo algo para Deus, dando alguma coisa para ele, eles foram rejeitados pelo Senhor. Consideremos o Salmo 50.8-15:

Não o acuso pelos seus sacrifícios,
nem pelos holocaustos,
que você sempre me oferece.
Não tenho necessidade
de nenhum novilho dos seus estábulos,
nem dos bodes dos seus currais,
pois todos os animais da floresta são meus,
como são as cabeças de gado
aos milhares nas colinas.
Conheço todas as aves dos montes,
e cuido das criaturas do campo.
Se eu tivesse fome, precisaria dizer a você?
Pois o mundo é meu, e tudo o que nele existe.
Acaso como carne de touros
ou bebo sangue de bodes?
Ofereça a Deus em sacrifício a sua gratidão,
cumpra os seus votos para com o Altíssimo,
e clame a mim no dia da angústia;
eu o livrarei, e você me honrará.


De acordo com o Salmo 50, a forma pela qual nós glorificamos a Deus é clamando a ele no dia da angústia e permitindo que ele seja o nosso livrador. Ao depender de seu serviço divino, nós, em última análise, o glorificamos. Pois é justamente isso que o culto dominical é. O serviço de Deus a nós, não o nosso a ele em primeiro lugar. Segundo, se o único propósito do culto dominical for a reunião de indivíduos para louvar a Deus, orar e oferecer a ele todo tipo de devoção humana, então alguma coisa está perigosamente invertida. Como calvinistas, nós deveríamos enxergar a ameaça pelagiana que se esconde por trás de uma idéia tão unilateral. E como o pelagianismo anda de mãos dadas com uma concepção unitarista de Deus, não surpreende que um culto moldado por essa idéia tenda a ignorar a Trindade.
Na liturgia tradicional, o serviço de Deus em nosso benefício tem uma forma distintamente trinitária. O serviço de Deus a nós é graciosamente nos trazer à presença do Pai em união Espiritual com o Deus-Homem, Jesus Cristo. Jesus Cristo, homem, é o único mediador entre Deus e os homens. Ele é o sacerdote. Ele se oferece como homem perante o Pai, e o faz como Representante da Humanidade, o Sumo Sacerdote da humanidade redimida. Ele nos assiste em achegarmo-nos a Deus. É esse o papel de um sacerdote.John Thompson o descreve assim: “Jesus Cristo é, portanto, o único verdadeiro adorador. Pelo Espírito Santo, nós somos levados ao louvor e à resposta que Cristo oferece ao Pai. A nossa é a resposta da resposta. O Espírito é que possibilita isso, dando o que ele exige, que é o louvor dos nossos corações e de nossas vidas.” (Modern Trinitarian Perspectives [New York: Oxford University PRess, 1994], p. 100). Novamente, o que isso quer dizer é que “culto” não é fundamentalmente o que fazemos. Antes, é aquilo que nos é graciosamente dado, bem como o que nos é dado fazer, em Cristo. Culto é o serviço do Deus Triúno à congregação. Creio que T. F. Torrance esteja certo, ao dizer que tem alguma coisa grotescamente unitarista, até mesmo pelagiana, na concepção popular de culto do evangelicalismo. Deus está distante e nós nos aproximamos e fazemos todo tipo de coisas diante dele para agradá-lo. Considerem isto: há um significado profundo em que nosso culto não seja meramente coram Deo, ou coram Trinitate [“diante de Deus”, ou “diante da Trindade”, N. do T.], ou mesmo ad Deum ou ad Trinitatem [“dirigido a Deus”, ou “dirigido à Trindade”, N. do T.], mas sim in Trinitate [“na Trindade”, N. do T.] (isto é, “por meio da” Trindade, ou mesmo no sentido espacial de estar “em”). Uma concepção trinitariana de culto reconhece os dois movimentos de Deus: 1) de Deus para a humanidade – do Pai, através do Filho, pelo Espírito, para redimir o homem; e 2) da humanidade para Deus – na direção inversa – pelo Espírito, através do Filho, para o Pai. É assim que nossa resposta é incluída nesse serviço, pois nós só temos como responder se o fizermos em união com a resposta sacerdotal de Jesus Cristo. Mesmo a nossa resposta é uma dádiva.
Somente uma liturgia cuidadosamente construída pode assegurar que a congregação não escorregue para um “culto” pelagiano ou unitarista. Tradicionalmente, a liturgia cristã tem buscado incorporar o serviço de Deus pelo seu povo, bem como a resposta apropriada de louvor, pelo povo. Falarei mais sobre isso no próximo post.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Presbiterianos & liturgia - Parte 5

Entendendo mal o propósito do culto dominical

Por Jeffrey Meyers

(leia o original aqui)

No meu último post sobre este assunto, eu disse que um dos motivos pelos quais presbiterianos não compreendem e não apreciam a liturgia é a compreensão inadequada do que deve acontecer no Dia do Senhor. Presbiterianos não gostam de liturgia porque não têm cuidado de descobrir qual o propósito fundamental de se reunir no domingo.

Nós somos reunidos por Deus para sermos servidos por ele. O culto dominical é, acima de tudo, o serviço de Deus em nosso favor. Ele nos conduz à sua presença vivificante. Ele nos concede. Nós nos achegamos para receber as dádivas de Deus.



Uma vez, eu conversei com um ministro presbiteriano que estava promovendo seminários sobre o culto reformado por todo o país. Ele sabia do meu interesse pelo assunto e queria me contar o que vinha fazendo. “A primeira e mais importante colocação que eu faço nos meus seminários”, ele disse, “é que o culto reformado é glorificar a Deus. Nós não nos reunimos para receber nada de Deus, nós vamos para dar a ele nosso louvor e honra. Isso é o que marca o culto reformado!”

Bom, eu pensei, isso pode ser verdade e, se for, é um dos motivos pelos quais o povo reformado não consegue se identificar com um culto liturgicamente estruturado. Eles não vêm para receber nada de Deus durante o culto (com a exceção, talvez, do sermão); ao contrário, eles vêm para dar-lhe honra e louvor. Embora tenha se tornado um meio de verificação em meios reformados, esse argumento merece ser questionado. O propósito do culto dominical não é simplesmente louvar.

Muitas obras reformadas sobre o culto adotam essa posição. A primeira frase do livro Worship in Spirit and Truth [“Louvai em espírito e em verdade”, N. do T.] (Phillipsburg: Presbyterian & Reformed, 1996) é a seguinte: “O culto é a obra de reconhecer a grandeza de nosso Senhor da Aliança” (p. 1, ênfase do autor). Ele parte dessa definição ao longo de todo o livro. Eu poderia citar outros autores reformados mais recentes, com o mesmo teor. A maioria deles define o culto como o que o povo de Deus faz, o serviço que eles executam no Dia do Senhor, especificamente a adoração, louvor e honra que eles tributam a Deus.

Certamente, há numerosas passagens que nos exortam a “louvar ao Senhor” e “adorá-lo”. Eu gostaria de alertá-lo, contudo, que em muitos casos a palavra “adorar” não nos tem servido muito bem. Ela não é a melhor tradução das palavras que eram usadas para designar “curvar-se” ou “prostrar-se” (por exemplo, no Salmo 95.6).

Por exemplo, quando somos chamados a “nos prostrar” perante o Senhor, isso não corresponde exatamente ao significado que damos à palavra “adorar”. Lançar-se perante o Senhor é permitir-se ser levantado por ele. É entregar-se ao serviço do Senhor. Com efeito, lancar-se perante o Senhor nos coloca em posição de sermos servidos por ele. Assim, nesses textos, há muito mais do que apenas tributar “louvores” e “honras” a Deus.

Mais do que isso, é muito comum em nosso meio que a entrega de louvores e glórias a Deus seja colocada em oposição à expectativa do adorador de receber qualquer coisa de Deus na igreja. É exatamente essa unilateralidade do “culto é igual a louvor”, que eu creio ser o verdadeiro problema das igrejas reformadas.

Essa postura, às vezes, está vinculada à assertiva, supostamente super-espiritual, de que “nós nos reunimos apenas para louvar a Deus, sem nenhum interesse no que nós podemos receber dele”. E eu afirmo que isso é besteira antibíblica, que pode, e com efeito costuma se infiltrar entre nós como uma ladainha de adoração.

Para nós, como criaturas de Deus, não se pode conceber tal coisa de “louvor desinteressado”. Nós simplesmente não podemos amar ou louvar a Deus pelo que ele é, de maneira desvinculada do que ele nos deu ou do que nós continuamos a receber dele. Nós não somos iguais a ele. A idéia de que puro amor e louvor a Deus só podem ser dados quando desvinculados de tudo quanto ele nos tem feito, não tem qualquer embasamento bíblico. É claro que ela soa bem espiritual e piedosa. Ela até pode ser entendida como renúncia de si mesmo.

Mas a verdade é que não existe esse tal louvor na Bíblia, pelo simples motivo de que não temos como nos achegar a Deus como seres desinteressados, auto-suficientes. Nós somos seres criados. Seres dependentes. Seres que precisam, continuamente, receber de Deus tanto sua vida como sua redenção. Nosso culto a Deus, por esse motivo, necessária e primariamente envolve nossa recepção passiva de suas dádivas, tanto quanto do nosso tributo de ação de graças e nossas súplicas. Não podemos fingir que não dependemos dele. Nós sempre seremos receptores e suplicantes perante Deus. Nossa condição de receptores nos é tão intrínseca quanto nossa dependência. Nós devemos ser servidos por ele. Reconhecer isto é a verdadeira espiritualidade. Abrir-se a essa verdade é o primeiro movimento no nosso “culto”; na verdade, é o pressuposto de todo o culto comunitário. É a postura de fé perante nosso Deus, Todo-suficiente benfeitor. O louvor se segue a isso e não pode ser, isolado, o propósito exclusivo da nossa reunião no Dia do Senhor.

Portanto, acima de tudo, quando nos reunimos no Dia do Senhor, somos chamados por ele para receber, para obter. Isso é fundamental. O Senhor dá, nós recebemos. Visto que a fé é receptiva e passiva em sua natureza, um culto “pela fé” (ou seja, fiel – N. do T.) tem tudo a ver com receber de Deus. Nós recebemos o seu perdão, sua instrução, sua nutrição, sua bênção etc. Nós nos achegamos como aqueles que primeiro recebem, e então, em segundo, apenas em uma troca recíproca, devolvemos aquilo que é apropriado, que são gratos louvores e adoração.

Mais e mais, estou descobrindo quão crucial (pelo menos na atual situação) é essa concepção de culto. É muito freqüente nos círculos reformados e evangélicos que o termo “liturgia” seja traduzido como “o serviço do povo”. Conquanto eu não negue que nós “servimos” durante o culto, eu considero essa concepção perigosamente unilateral. O que quer que nós “façamos” durante o culto, deverá ser sempre uma fiel resposta às dádivas de Deus, de perdão, vida, conhecimento e glória – dádivas que recebemos no culto!

Muito do que se entende por “culto contemporâneo” tem esvaziado o culto dominical do serviço de Deus ao homem! É sempre voltado para o que nós fazemos. A redução do culto cristão a “louvar” e “dar honra ao Senhor”, mesmo que pelo bem-intencionado desejo dos pastores de livrar o culto de formas superficiais de culto, continuará sempre a alimentar isso mesmo que eles vêm combatendo.

Eu ainda tenho mais a dizer sobre isso, então concluirei esse raciocínio em outro post.

sábado, 28 de junho de 2008

Presbiterianos e liturgia, Parte 4

Por Jeffrey J. Meyers

(Continuação da Parte 3)
(Leia o original)
Mas agora, precisamos nos voltar para questões um pouco mais difíceis. Por que a teologia reformada norte-americana é tão caracteristicamente a-litúrgica? O que é que a nossa teologia, ou a nossa vida eclesiástica tem, para criar uma consciência tão a-, ou mesmo anti-litúrgica? Por que os nossos teólogos nem se arriscam a escrever uma teologia do culto? E por que as nossas teologias são escritas sem nenhuma preocupação em se integrar textos e práticas litúrgicos?

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Por que alguns presbiterianos conservadores não gostam de liturgia – Parte 3

Por Jeffrey J. Meyers

(continuação da Parte 2)
(leia o original aqui)

Mais questões de desempenho


No post anterior, eu disse que um dos principais motivos pelos quais muitos presbiterianos não gostam de liturgia é que eles nunca experimentaram um culto litúrgico que fosse bem executado. Ministros presbiterianos não sabem como realizar rituais. Parte do problema é que eles acreditam que precisam ser informais e irreverentes com a congregação, para soarem “autênticos” para ela. Como se autenticidade e ritual fossem mutuamente excludentes.


Se não for exageradamente crítica, uma pessoa pode aprender até com os erros de outras. Alguns anos atrás, eu fui com minha família a uma igreja presbiteriana bem conservadora, em um bairro diferente da cidade (nem se preocupem em tentar deduzir qual cidade). O pastor foi bem informal e relaxado durante o culto inteiro. Havia uma série de batismos agendados para aquela manhã. Quando os pais das crianças as levaram para a frente para serem batizadas, o pastor se juntou a eles na pia, mas estava visivelmente nervoso. Ele não havia decorado os nomes das crianças a serem batizadas, e não tinha nenhuma “cola” ou outro recurso escrito para ajudá-lo. Para encobrir seu erro, ele fez algumas piadas sobre conseguir lembrar nomes, então perguntou aos três casais de pais os nomes das crianças (para deixar claro, não foi segundo o ritual tradicional de se perguntar “qual é o nome desta criança?” imediatamente antes da administração do sacramento, que algumas igrejas mantêm).

Depois disso, ele chamou três presbíteros à frente (antes do batismo) e os fez dar uma volta com as crianças pelo templo, enquanto fazia mais piadinhas sobre quão fofinhos esses bebês eram. Quando voltaram, o pastor as batizou (sem usar a fórmula tradicional, ainda por cima), e os pais já começavam a voltar para seus lugares quando ele soltou uma gargalhada, e disse:

“Caramba, acho que nós esquecemos de tomar os votos dos pais! Eh, heh heh... Bom, pro caso de haver algum dedo-duro presbiteriano por aqui que possa me denunciar, acho melhor fazer umas perguntar para os pais. Mas... ops... acho que eu não estou com uma cópia dos votos aqui, então eu vou improvisar. Pais, vocês amam ao Senhor? ... Legal. Vocês prometem criar seus filhos na fé? ... Amém! Bom, acho que é isso. Hora de cantar um hino!”

Dito isso, ele se sentou com a congregação e a equipe de louvor dirigiu a congregação no hino “Oh, falai pelas montanhas”.

Tudo bem, vocês podem pensar que esse exemplo é um caso extremo, mas eu já tenho tempo de janela o bastante pra saber que não.

Eu tenho uma regra de não comentar nem ficar fazendo análises críticas de sermões, cultos ou igrejas no Dia do Senhor, especialmente durante o próprio culto. Mas naquele domingo, quando já estávamos em casa, almoçando em família, minha filha mais velha me perguntou “Pai, o que o senhor achou do culto?”

Eu respondi algo na linha de “Bom, não foi como o nosso, foi?”

“Não foi, não”, eles responderam.

Aí minha mais velha falou o que sentia: “Sabe, se eu fosse de uma daquelas três famílias, acho que eu mandaria rebatizar o meu filho!”

Depois dessa, eu quebrei minha regra e tive uma conversa bem produtiva com meus filhos sobre protocolo litúrgico e o grande serviço que ele presta ao povo de Deus. Como Paulo disse a Timóteo, “Atente bem para a sua própria vida e para a doutrina, perseverando nesses deveres, pois, agindo assim, você salvará tanto a si mesmo quanto aos que o ouvem” (I Tm 4.16).

Liturgia não é algo que você simplesmente pode ler em um livro e ir fazer. Aquele que lidera o povo de Deus à sua presença precisa de orientação madura, e uma boa dose de experiência dirigida, com alguém bem treinado na arte da liderança litúrgica. Alguns de nós que foram criados em igrejas litúrgicas têm uma boa vantagem. Outros, cientes das suas deficiências, têm procurado se ligar a pastores bem qualificados para que lhes sirvam de tutores durante o seminário ou a licenciatura.

Mas se você já está no pastorado, sempre há maneiras de adquirir a competência necessária. Eu sugiro que você aproveite cada oportunidade, quando não estiver oficiando na sua própria congregação, para visitar, cultuar com e cuidadosamente observar ministros bem treinados de comunhões mais litúrgicas. Até hoje eu visito igrejas luteranas e episcopais quando estou de férias, assistindo, observando, aprendendo e examinando suas construções litúrgicas. Se você tiver alguma competência nessas áreas, invista tempo com candidatos ao ministério da sua igreja, ensinando, treinando e os guiando no be-a-bá da liderança litúrgica.

(Continua na Parte 4)


Por que alguns presbiterianos conservadores não gostam de liturgia? -- Parte 2

Por Jeffrey J. Meyers

(leia o original aqui)
(leia a parte 1 aqui)

Nossos irmãos e irmãs em cristo na fé presbiteriana jamais acolherão com entusiasmo o culto litúrgico sem uma liderança pastoral que seja não apenas capaz de explicar sua fundamentação bíblica e teológica em aulas e sermões, mas também, e talvez até mais importante do que a habilidade didática, seja a capacidade de liderar um culto litúrgico, com habilidade e sensibilidade.

Creio que muitas congregações presbiterianas não tenham experimentado os benefícios de um culto litúrgico, e isso ocorre primeiramente porque nossos próprios ministros não experimentaram nada como a liturgia vibrante, cativante e bíblica de que eu estou falando. Não é preciso nem dizer que eles não foram suficientemente treinados para a liderança litúrgica. Mas, deixando a teologia do culto de lado por um momento, quero abordar a questão da competência para oficiar em um culto litúrgico.

Congregações presbiterianas não gostam de liturgia porque seus ministros não sabem como conduzi-la. Conseqüentemente, como não tiveram um treinamento efetivo, esses pastores vão conduzir essa liturgia ou de maneira casual, descomprometida, ou pior, de maneira apologética, agressiva, sem muita confiança no seu papel de ministros ordenados. Pior ainda, muitos vão simplesmente abdicar de sua liderança em favor de “comissões de culto” ou “equipes de liturgia”. Há toda uma gama de problemas de “desempenho”, que eu creio que obstruem uma adequada apreciação do culto litúrgico. Alguns cultos “tradicionais” são executados de forma tão lenta e ponderada, que fica lhes faltando a vida e a emoção que caracterizam o culto litúrgico. As partes do culto que cabem ao ministro podem ser conduzidas de forma tão entediante que ninguém fica motivado a responder de coração aos chamados à confissão, ou à adoração. Os hinos podem ser cantados em um tempo tão lerdo que tudo o que a congregação quer é chegar logo à última estrofe. Mesmo que seja observada a ordem correta de se buscar a presença de Deus, a liderança pode ser tão descuidada que o povo não consegue perceber o que Deus tem feito por ele, em qualquer parte do culto.

Como isso pode acontecer? Vamos passar uns exemplos. Um ministro (ou líder leigo) pode ser prolixo demais, ou ter uma postura arrogante, ou ser informal demais, de modo que ele chama a atenção para si mesmo, em vez de funcionar como um instrumento de Deus a serviço do povo. Ministros ou líderes leigos que não são capazes de se preparar adequadamente antes do culto podem desviar a atenção do povo do verdadeiro foco do culto – o que Deus tem feito por nós, e a nossa resposta a Ele – para si mesmos, de uma forma tão grande que tudo o que o povo consegue é sentir pena do coitado que não consegue se encontrar, nem sabe o que falar em cada momento do culto. Talvez um dos maiores obstáculos ao culto seja a liderança do ministro que não tem noção da solenidade da situação, e por isso não serve com o devido cuidado o povo de Deus no culto. “Ora, se culto tradicional é isso”, o povo pensa, “então tragam logo o culto espontâneo, dirigido pela congregação”. E eu concordo. Eu iria, também, preferir esse culto. Frank Seen tem razão, quando diz:

A experiência da Reforma também nos ensina que, quando a liturgia dá problema, o problema costuma ser menos com a sua forma e conteúdo, do que com o jeito que ela é celebrada e interpretada. Hoje, as formas históricas de culto estão sendo abandonadas em favor de “liturgias alternativas”, que empregam música de estilo pop e dramatizações, argumentando que a liturgia tradicional é chata ou que não faz sentido para quem só vai ao culto esporadicamente (e, às vezes, nem para quem é freqüentador assíduo). Quase sempre, esse argumento é dado por pastores que não têm muita competência em presidir a liturgia de uma forma compreensível ou estimulante, e que talvez sejam, até, inseguros no papel de ministro oficiante. Essa incompetência com o ritual inclui não apenas o desempenho fraco dos ministros, dos músicos e da congregação, mas também a falta de noção, por parte de quem prepara a ordem do culto, para saber o que adicionar ou tirar das ordens que vêm prontas nos manuais da denominação. Muitas liturgias ficam atoladas por causa da inclusão de detalhismos que não constam da ordem original, ou tomam rumos incertos no ritual, que levam para uma teologia incerta. Assim, não espanta que eles não consigam atrair os adoradores atuais. Quanto ao argumento de que a liturgia é chata; a liturgia ocidental não sofre de mesmice e monotonia: ela foi construída sobre o princípio da variedade de ritos, costumes e opções musicais e de leituras do calendário cristão (“The Reform of the Mass: Evangelical, but Still Catholic”, in The Catholicity of the Reformation, ed. por Carl E. Braaten & Robert W. Jenson [Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1996, p. 51-2).


(continua)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Por que alguns presbiterianos conservadores não gostam de liturgia?

Por Jeffrey J. Meyers.

[O Rev. Jeffrey Meyers é ministro da Presbyterian Church of America, autor dos livros The Lord's Service, A Table in the Mist, Presbyterian, Examine Thyself, e Commentary on James (no prelo) e dono do blog Corrigenda Denuo. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a permissão do Reverendo para traduzir e publicar esta série de artigos para o português. O original deste artigo pode ser lido aqui. N. do E.]

Sete anos atrás, eu dei uma palestra com o título deste post em uma conferência sobre teologia do culto. Desde aquela época, eu continuei pensando nessa questão. Eu gostaria de trabalhá-la de tempos em tempos no meu blog. Um pouco do que vocês vão encontrar aqui será simplesmente copiado daquela palestra. Mas depois de mais sete anos de experiência, creio que será necessário completar e fazer algumas correções nos meus argumentos originais.



Eu comentei, no começo do meu texto original, que o título é, ao mesmo tempo, exageradamente ambicioso e vergonhosamente tímido. É ambicioso no sentido de que ele sugere que eu vá fornecer uma resposta definitiva, ou uma lista de motivos para o caráter alitúrgico, ou mesmo anti-litúrgico, de boa parte dos cultos presbiterianos na América. Alguém pode pensar, também, que eu tenho um antídoto milagroso para aqueles que foram envenenados contra a liturgia. Eu não finjo ser capaz de fazer nenhum desses milagres.
Apesar do título provocativo, eu tenho algo mais modesto em mente. Eu vou tentar isolar, dentre os muitos fatores históricos, sociais, culturais, filosóficos, teológicos e práticos possíveis, alguns que parecem me apresentar um desafio estratégico para aqueles de nós que estão trabalhando para restaurar, ou melhor re-formar e implementar uma liturgia reformada católica nas nossas igrejas [“católica” no sentido de universal, atenta aos 2000 anos de cristianismo que vieram antes de nós. N. do T.].
O título é, também, tímido, porque a atitude entre muitos dos presbiterianos conservadores com relação à liturgia pode ser bem mais hostil do que “não gostar” sugere. Muitos, nas nossas igrejas, estão na verdade com medo da liturgia. Eles a temem. Alguns, por ignorância, outros por falta de experiência, ou talvez ambos. Eles podem nunca ter recebido instrução alguma sobre as razões bíblicas e teológicas para um se ter culto litúrgico, ou simplesmente nunca terem experimentado aquilo que nós estamos defendendo. Sua única experiência com liturgia pode ter sido em uma missa romana ou em um culto luterano, em que o culto inteiro foi murmurado e a participação da congregação passou longe de ser vigorosa e ativa. Outros a temem por motivos quase-históricos.
Há, é claro, bons motivos para se temer a liturgia, se por “liturgia”, alguém entende simplesmente copiar os modelos litúrgicos atuais da Igreja Romana, ou da Ortodoxa Oriental, ou da Anglicana de high church. Nem tudo que essas igrejas fazem precisa ser rejeitado, claro. Agora, saber se nós, presbiterianos, ainda temos motivo justo para continuar rejeitando o culto litúrgico porque fazia (ou faz) lembrar o culto anglicano, ou católico romano, é um projeto de pesquisa que precisa desesperadamente de desenvolvimento.
O outro bom motivo para se temer a reforma litúrgica é se isso significar simplesmente restaurar algum dos modelos históricos da tradição reformada. A meta da reforma litúrgica não deve ser, jamais, simplesmente re-encenar qualquer liturgia histórica, seja a de Agostinho, a de Bucer, a de Calvino, a de Knox, etc. Nosso desejo deve ser reformar a nossa herança cristã-católica de acordo com a Palavra de Deus. Um autor reformado recentemente definiu todas as reformas litúrgicas como tentativas de “imitar as práticas de 500 anos atrás”. Esse romantismo litúrgico não tem lugar em uma verdadeira renovação litúrgica. É um sofisma comum em discussões contra a reforma litúrgica. Encenar uma liturgia histórica pode ser uma boa coisa para um clube de apreciação histórica fazer.
O acadêmico de liturgia católica romana Louis Bouyer chama isso de “arqueologismo litúrgico”. De acordo com Bouyer, esse romantismo é um dos “problemas fundamentais do movimento litúrgico. Porque nenhuma reconstrução do passado – não importa quão excelente seja o período escolhido – pode ser conseguida sem a mistura de elementos próprios dos gostos de quem faz a reconstrução; e essas reconstruções tendem, por isso, a causar mais problemas do que elas podem solucionar.” (Liturgical Piety. [Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1954], p. 12).
Como Bouyer avisa em outra passagem, existe sempre o perigo que aqueles interessados em uma renovação litúrgica sejam possuídos pelo “espírito da restauração arqueológica fajuta”. E, de novo: “Porque se a rejeição teimosa da Igreja e do mundo como estão hoje fossem uma questão preliminar necessária para qualquer renascimento litúrgico, este fato, por si mesmo, certamente constituiria a mais perfeita condenação desse renascimento.” Infelizmente, muitos homens na tradição presbiteriana acham que renovação litúrgica é copiar modelos escoceses do século XVII, ou colar a liturgia de Calvino, em Genebra, no mundo atual. Não é isto que eu tenho em mente.
Talvez nós devêssemos também notar como a liturgia e a Teologia do Culto se desenvolveram bem melhor em igrejas presbiterianas que nós consideramos majoritariamente liberais ou neo-ortodoxas, como a PC(USA) ou até mesmo a Igreja da Escócia. Esse fato, por si só, contribui para a resistência dos presbiterianos estritamente confissionais de tudo quanto for litúrgico. Afinal, se essas igrejas gostam de liturgia, isso não deve ser boa coisa (confira o Book of Common Worship da PC(USA) (1993) e os recentes artigos de Bryan D. Spinks e Iain R. Torrance, em To glorify God: Essays on Modern Reformed Liturgy (Wm. B. Eerdmans, 1999).
(continua na Parte 2)