Originalmente publicado em Discipleship Ministries – United MethodistChurch, 20 de abril de 2011.
Um artigo de blog da semana passada em Christian Century, “Against Passion Sunday” (“Contra o Domingo da Paixão”), provocou uma variedade de respostas à prática atual de se celebrar o último domingo na Quaresma como Domingo de Ramos/Paixão do Senhor.
Muitos se lembram de que estes
dois acontecimentos nem sempre foram parte da mesma data. Suas memórias estão
corretas. Antes do Concílio Vaticano II, era costumeiro ler a narrativa da
Paixão no domingo anterior, e então celebrar o Domingo de Ramos como uma data
autônoma, para dar início à Semana Santa. Porém, a partir da publicação do lecionário
trienal católico romano em 1969, seguido pelos projetos ecumênicos de calendário
e lecionário trienal, que resultaram no Lecionário Comum (1983) e no Lecionário
Comum Revisado (1992), isso mudou.
De alguma forma, as pessoas chegaram
à noção de que a razão primeira para essa mudança seria uma preocupação de que
as pessoas não compareceriam ao culto da Sexta-Feira Santa, em que ouviriam a
narrativa completa da Paixão. Essa baixa frequência, pensou-se, fez com que “o
pessoal do lecionário”, por uma questão de conveniência, incluiu a narrativa da
Paixão no Domingo de Ramos, para que mais pessoas tivessem a chance de ouvi-la.
Dada a variedade de pessoas que
repetem essa afirmação, a história aparentemente viralizou em vários grupos.
Eu faço parte do “pessoal do lecionário”,
fui um dos dois representantes da Igreja Metodista Unida na Consultation on
Common Texts (CCT), que criou e continua a dar suporte ao Lecionário Comum
Revisado. Atualmente sirvo como secretário da CCT. E como alguém do “pessoal do
lecionário”, posso afirmar que não foi esse o porquê dos meus antecessores terem
feito esta opção, de modo nenhum.
O que estava em discussão era
resgatar uma prática cristã antiga, não apenas desse domingo, mas da própria
Quaresma, um resgate que fazia parte de um conjunto de descobertas dos
estudiosos de liturgia e ecumenismo a partir do século XIX.
O lecionário trienal romano (OLM,
na sigla em latim) e o calendário litúrgico revisado produzidos pelas reformas
do Vaticano II foram o primeiro resultado desse resgate da Quaresma e da Semana
Santa.
O resgate da Quaresma não tem a
ver apenas com sincronizar nossos calendários com os antigos. Ao contrário, o
objetivo era resgatar a missão da Igreja de discipular pessoas no caminho de Jesus,
e realinhar nossas práticas de culto para apoiar essa missão.
O propósito de discipulado foi
obscurecido pelas inovações medievais no calendário e nos lecionários, que se
seguiram ao fim do que era o principal meio da Igreja oferecer esse discipulado
intensivo – o catecumenato de (pelo menos!) três anos. A Quaresma era a “reta
final” da preparação dos candidatos ao Batismo, depois de três anos aprendendo
como orar, como ouvir e aprender das Escrituras, como cuidar dos pobres, dos
enfermos e dos órfãos, como cuidar e defender as necessidades dos idosos, como
vencer práticas viciantes em suas vidas, entre outras coisas.
Todo esse treinamento continuado assegurava
que os candidatos ao Batismo poderiam responder às perguntas batismais com
profunda integridade. Essas perguntas, em sua forma mais antiga, eram: “Você
renuncia a Satanás e a todas as suas obras? Você confessa a Jesus Cristo como
Senhor e Salvador?” e, a partir do Credo Apostólico, “Você se entrega ao
cuidado do Deus Triúno e da Igreja que confessa e vive pela graça e poder desse
Deus?”. A nossa aliança e votos batismais têm origem nesses votos e práticas
antigos.
Mas quando o catecumenato de três
anos foi comprimido nesses quarenta dias (na Síria, já em 387), e depois
praticamente desapareceu por todo o antigo Império Romano já no século VI, substituído
por uma mistura de práticas posteriormente chamadas de “Confirmação”, ou “Crisma”,
com foco mais em doutrina do que em viver no caminho de Jesus, as semanas da
Quaresma passaram a ser usadas para outro propósito – uma temporada de jejum e
penitência com lembretes constantes do sofrimento de Jesus pelo caminho. Essa
era a realidade praticamente universal no Ocidente pelo século VIII. Em outras
palavras, a Quaresma não tinha mais a ver com discipular as pessoas no caminho
de Jesus, mas sim disciplinar a nós mesmos pelos nossos pecados, ainda que
apenas nesses quarenta dias.
Foi essa prática medieval da
Quaresma, desconectada de qualquer esforço sério de discipular os novos
convertidos no caminho de Jesus, que continuou a moldar os lecionários e
práticas quaresmais no Ocidente até o Concílio Vaticano II.
Juntamente com a publicação do OLM
pela Igreja Católica Romana (1969) e o trabalho ecumênico subsequente (com a
participação de católicos) no Lecionário Comum (1983) e Lecionário Comum
Revisado (1992), também começou um esforço ecumênico sério de resgatar as
práticas do catecumenato. Aqui também Roma foi, de certa forma, pioneira,
particularmente com a publicação de seu Ritual da Iniciação Cristã de Adultos e
muitos recursos de apoio, pelo mundo todo. O trabalho ecumênico sobre esta
plataforma continuou na América do Norte com a North American Association
for the Cathecumenate (NAAC). Para os metodistas, a coroa desses esforços é
o maravilhoso e prático livro de Daniel Benedict, Come to the Waters.
Como resultado de todo esse trabalho,
por todos esses cristãos mundo afora, por todo esse tempo, é aqui que estamos –
com o resgate de um Domingo de Ramos/Paixão como a dobradiça que une a Quaresma
resgatada e uma Semana Santa mais intensa.
A Quaresma é um período de
quarenta dias de jejum e preparação espiritual, cuja intenção é auxiliar as
comunidades a acompanhar os candidatos ao Batismo durante sua “reta final”, em
práticas, ritos e disciplinas essenciais à vida no caminho de Jesus. A Quaresma
propriamente dita começa na Quarta-Feira de Cinzas, e se encerra no Domingo de
Ramos/Paixão do Senhor, o dia que marca o início da Semana Santa.
A Semana Santa é um tempo mais
intenso de jejum, leitura e oração, no qual damos especial atenção aos últimos
dias, sofrimento e execução de Jesus. As leituras do Lecionário Comum Revisado
para cada dia da semana (encontradas no United Methodist Book of Worship,
no LCR online, na Vanderbilt Divinity Library, e no site de DiscipleshipMinistries da United Methodist Church) nos oferecem leituras dos Cânticos do Servo
Sofredor de Isaías, de Hebreus e da última semana de Jesus em Jerusalém (de
segunda a quarta-feira), e então para os cultos do Tríduo Pascal, os “três grandes
dias” – Quinta-Feira Santa (foco no lava-pés e no novo mandamento, e menos na
instituição da Ceia do Senhor); Sexta-Feira Santa (a Paixão segundo o Evangelho
de João, não as Sete Palavras da Cruz, que são uma prática devocional medieval);
o Sábado de Aleluia (um culto ou vigília de silêncio, leituras e oração) e a
Grande Vigília Pascal (sábado após o pôr-do-sol).
A Grande Vigília é o primeiro
culto da Páscoa, com tudo o que tem direito, fogo, palavra, banho e refeição. Historicamente,
é na Vigília que os candidatos, que nesta Quaresma completam seu ciclo de três
anos de preparação, são batizados – e hoje, também em muitas igrejas, incluindo
a nossa! Depois de seu Batismo, eles receberiam (na verdade, presenciariam)
pela primeira vez a Santa Ceia.
Assim, a Quaresma e a Semana
Santa têm a ver com discipular pessoas no caminho de Jesus. Durante a Quaresma,
focamos nas histórias e práticas centrais do ministério de Jesus. Durante a
Semana Santa, enfocamos intensamente seus últimos dias, sua execução, seu
sepultamento e, afinal, com a Grande Vigília, sua ressurreição.
A Páscoa inaugura outra “semana de
semanas” (cinquenta dias) dedicados a preparar toda a Igreja, incluindo os recém-batizados,
para compreender nosso ensino e ritual (“mistagogia”), mas, mais importante, para
começar a discernir e assumir ministérios, conforme os dons do Espírito se
manifestam no corpo de Cristo, culminando com o seu comissionamento no
Pentecostes, o fim da temporada pascal.
Sou grato porque estas perguntas
estão sendo feitas a respeito da “invenção” (na verdade, resgate) do Domingo de
Ramos/Paixão do Senhor.
Espero que todos possamos ver quão
mais ricas nossas vidas podem ser – não apenas no culto, mas especialmente em
nosso discipulado junto a Jesus – se assumirmos as tarefas a que esse
aparentemente pequeno (embora talvez desconfortável) resgate da prática antiga
nos convida.
3 comentários:
Muito bom, Rev. Chagas.
Resgatar a história dá mais sentido ao nosso presente.
Deus continue te abençoando.
SX
Parabéns, suas informaçoes são sempre muito ricas
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