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quinta-feira, 20 de julho de 2017

Matthew Henry e a disciplina puritana da oração em família

John Faed (1819-1902). A noite de sábado do lavrador. Gravura. Museu Burns House, Mauchline, Escócia, Reino Unido. 
Os puritanos são um marco na história da Reforma e na história da Igreja, de uma forma geral. Sua tremenda paixão, seriedade e intencionalidade em todos os assuntos em que se envolviam sempre provocaram, em seus observadores e principalmente em seus oponentes, um misto de admiração e revolta.
Neste artigo, o Prof. Hughes Oliphant Old parte da obra de Matthew Henry para descrever a prática puritana da oração diária em família, o Culto doméstico, traçando um paralelo entre ela e o ofício diário monástico medieval -- demonstrando, afinal, uma imensa catolicidade nessa importante disciplina familiar puritana.

quarta-feira, 1 de março de 2017

A Quaresma: uma perspectiva reformada

Nas igrejas protestantes e evangélicas brasileiras, muito por causa da abordagem anticatólica de nossos primeiros missionários, existe uma grande resistência e, na maioria das vezes, muita ignorância quanto aos tempos e ênfases do Calendário Cristão. E, embora não seja tão difícil introduzir, por exemplo, o tempo do Advento (visto que a Segunda Vinda de Cristo é um tema fortíssimo de nossa hinódia e de nosso ideário), por outro lado encontramos na observação da Quaresma um dos maiores desafios aos pastores protestantes de orientação mais litúrgica.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Um breve histórico do uso do colarinho clerical na tradição presbiteriana

Por Timothy R. LeCroy*
Originalmente publicado em Vita Pastoralis, 17 mai. 2012.


Introdução

Parece que não existiu um traje distinto para os ministros cristãos até perto do século VI. O clero vestia o que os demais cidadãos vestiam, embora de forma mais sóbria e discreta, condizente com seu ofício. Com o passar do tempo, os trajes do laicato mudaram com a moda e os costumes, enquanto os ministros permaneceram conservadores no modo de vestir, como normalmente acontece. O resultado foi que o vestuário do clero cristão tornou-se distinto daquele do laicato, e assim os trajes passaram a ser investidos (sem trocadilho) de significado.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Santo! Santo! Santo! Deus Onipotente!

Trabalho originalmente apresentado ao Seminário Presbiteriano do Sul (Campinas/SP) para avaliação semestral na Cadeira de Música.



O HINO “TRINDADE SANTÍSSIMA”, NC 11

Sem. Eduardo Henrique Chagas

O hino Trindade Santíssima, nº 11 do Novo Cântico, conhecido em outros hinários pelo título Louvor ao Trino Deus[1], ou simplesmente por seu primeiro verso, “Santo! Santo! Santo! Deus onipotente”,[2] é, sem dúvida, um dos hinos mais conhecidos e amados de toda a hinódia protestante.[3] Nos meios protestante e evangélico, mesmo igrejas que já não mantêm qualquer relacionamento com a música sacra “tradicional” ainda o conservam em seu repertório, muitas vezes escrevendo arranjos para os conjuntos musicais e vocais mais em voga atualmente. A força e, consequentemente, a longevidade deste hino, com certeza se devem ao feliz casamento de letra e música, que raramente acontece de forma tão perfeita quanto como neste caso[4].

quinta-feira, 4 de março de 2010

O incomum Livro de Oração Comum: ainda um best-seller, depois de 450 anos

Artigo originalmente publicado em inglês na revista Reformed Worship, n.º 53, Setembro de 1999.

Por Paul E. Detterman*

Por quanto tempo o povo de Deus tem debatido sobre a linguagem e a ordem do Culto? Por quase tanto quanto ele tem se reunido para orar e louvar a Deus.

A história da Igreja cristã tem sido marcada por épocas de estabilidade, quebradas por períodos de reforma. Quase sem exceção, o repensar da fé da Igreja (Teologia) tem inspirado a revisão do culto da Igreja (Liturgia), nem sempre nesta ordem. A oração, em uma tradição, precisa ser extemporânea (espontânea), ou não será considerada autêntica. Um século depois, aqueles que herdaram a tradição da oração extemporânea estão publicando livros de oração em um esforço para render ações de graças e intercessão a Deus em um estilo e forma considerados mais dignos da atenção divina. Os salmos metrificados de uma geração são os hinos empolados da próxima. Livros de oração, hinários, ordens de culto e lecionários vêm e vão. Governos e denominações ascendem e caem. E através disso tudo, alguns elementos da fé histórica e do culto da Igreja persistem.

O Pentecostes de 1999 marcou o 450.º aniversário do Livro de Oração Comum (LOC). Anglicanos fazem lembrar, com desculpável orgulho, que este é o mais antigo livro de culto em uso contínuo na Igreja de língua inglesa. Estantes de biblioteca, índices de periódicos e páginas da internet estão repletos da história detalhada e da análise exaustiva d'O Livro de Oração.

Mas esse aniversário não é simples curiosidade histórica, nem sua comemoração deve ser limitada aos cristãos que respondem a Cantuária. Historiadores da Igreja e teólogos do culto rapidamente nos lembrarão que muita da linguagem do LOC é familiar para incontáveis cristãos que nunca nem mesmo seguraram um exemplar em suas mãos. Esse livro de culto tão incomum, originalmente concebido uma geração antes de Shakespeare, continua a moldar a vida e a fé de cristãos de todo o mundo.

Origens do Livro de Oração Comum

Embora cristãos reformados, luteranos e anglicanos todos derivem uma porção significante de sua teologia e culto das reformas que aconteceram no século XVI, a Igreja da Inglaterra foi única tanto na origem como no resultado de sua reforma. O infame rei britânico Henrique VIII desafiou a autoridade do Papa e conduziu a Igreja da Inglaterra para fora de Roma por motivos tanto pessoais quanto políticos. Liturgia e oração estavam bem embaixo na lista das reclamações do rei. Como resultado, a reforma litúrgica seguiu a separação política a uma distância segura.

Não foi senão com a morte de Henrique em 1547 e a coroação de Eduardo VI (que ocorreu entre uma sonequinha e uma troca de fraldas do novo rei) que a reforma da Igreja inglesa floresceu. Em janeiro de 1549, dois breves anos após a morte de Henrique, uma comissão presidida por Thomas Cranmer, o longevo Arcebispo de Cantuária, compilou e apresentou um livro de oração para a aprovação da Convocação da Igreja e do Parlamento. Essa primeira edição do LOC seria extensamente revisada três anos após (1552) e subseqüentemente, banida durante o reinado de Maria I, "a Sanguinária" (1553-1558). Porém, a influência de sua estrutura e o poder de seu texto mudaram a Igreja.

Católico e Reformado

Embora pareça ser grosseria discutir genealogias em uma festa de aniversário, cristãos reformados e luteranos devem se lembrar de que, de muitas maneiras, o LOC é, em parte, nosso livro também. O Arcebispo Cranmer estava bem a par do progresso da reforma da Igreja no continente. Ao longo das décadas de 1520 e 1530, ele viajou pela Europa a serviço de Henrique VIII, e tomou contato com os ensinamentos dos reformadores, dentre os quais Lutero e Calvino, e aprendeu a política da reforma. Cumpre dizer que Cranmer foi essencial para a ida de intelectuais luteranos, calvinistas e zwinglianos para postos-chave das universidades da Inglaterra. As ordens de culto, as posturas e a linguagem das orações, e o entendimento dos sacramentos contidos no Livro de 1549 refletem uma síntese complexa das teologias e práticas católicas e reformadas.

Enquanto muito possa ser dito sobre a estrutura, o estilo e a influência do LOC, talvez mais importante para cristãos da tradição reformada seja a linguagem de suas orações e a centralidade que ele dá à Ceia do Senhor. De certa forma, o Livro conservou certos aspectos da herança de Calvino para seus descendentes diretos, até que estivéssemos prontos para recebê-los.

A linguagem das orações

No século XVI, a linguagem do culto era uma preocupação central. O culto na língua do povo não era um debate novo nos anos de 1500, nem era o ponto inicial de atrito para muitos dos reformadores. Mas a tradução do culto do latim para o alemão, francês, inglês e muitas outras línguas locais rapidamente seguiram-se às disputas iniciais. Cada reformador teve o seu poeta. Cranmer não foi exceção (embrora o seu possa ter sido uma comissão inteira!). De qualquer forma, desde a primeira edição em 1549, uma marca do LOC foi a beleza de seu texto.

As Coletas (orações curtas que reunem as preces silenciosas do povo nos diversos momentos do culto) são uma marca registrada do LOC. Muitas destas encontraram lugar em publicações reformadas, como o Livro de Culto Comum (PCUSA, 1993). Nos exemplos abaixo, note-se o uso das palavras e imagens que tornam essas orações simples, elegantes e sinceras (confira também o quadro ao final).

Oração ao fim do dia

Mantém vigia, amado Senhor, sobre aqueles que trabalham, vigiam ou velam nesta noite, e encarrega seus anjos daqueles que dormem. Atende os enfermos, Senhor Jesus, e concede descanso aos que se encontram fatigados, abençoa os que se encontram à morte, alivia os que sofrem, consola os aflitos, defende os que se alegram, tudo isso por amor do teu nome. Amém.

Coleta para a Quinta-feira Santa

Senhor Jesus Cristo, que estendeste teus braços de amor sobre a dura madeira da cruz, de modo que todos pudessem se aproximar de teu abraço salvador; veste-nos de teu Espírito, de modo que, estendendo nossas mãos em amor, possamos trazer aqueles que não te conhecem que te conheçam e te amem, para a honra de teu nome. Amém.

Uma oração pelos enfermos

Ó Deus, força dos fracos e conforto dos que sofrem, atende com misericórdia as nossas orações, e concede ao teu servo N. o auxílio do teu poder, de modo que sua enfermidade se torne em saúde, e nosso pesar em alegrias, por Cristo Jesus. Amém.

Nós, na tradição reformada, ainda pelejaríamos por mais quatrocentos anos com a linguagem da oração, criando padrões de intercessão que, se não por outra coisa, se tornariam memoráveis pela sua prolixidade, antes de retornarmos para o estilo do LOC como inspiração para uma nova geração de publicações de auxílio para o culto.

A centralidade da Sagrada Comunhão

De caráter central para o LOC, embora nem sempre para a prática de muitos anglicanos, foi o entendimento do Culto Dominical Central fundado tanto na Palavra quanto no Sacramento. O Livro de 1549 oferecia uma síntese do padrão romano, com os ofícios diários de oração matinal e vespertina, coroados pela Eucaristia no Dia do Senhor. Ao longo dos séculos seguintes, muitas igrejas não-romanas adaptaram suas práticas para se amoldarem à compreensão da época.

Cristãos da tradição reformada ainda celebram a Ceia do Senhor em ciclos trimestrais, mensais ou semanais, dependendo dos costumes e tradições regionais e locais das congregações. O LOC tem servido como um lembrete constante da intenção dos reformadores, e como um cutucão perpétuo para aqueles que elaboram os manuais de culto a cada nova geração.

E daí?

Um aniversário dessa magnitude é importante para os cristãos atuais, pois serve para nos lembrar de que as lutas que encaramos como oficiantes de culto em 1999 não são nada novas. As reformas da igreja que abalaram a Europa do século XVI não foram, de modo algum, únicas ou surpreendentes. Uma retomada do ensino e da pesquisa passaram a questinoar muita da tradição que evoluiu com a Igreja. Enquanto isso, o poder das Escrituras estava sendo redescoberto por aqueles na Igreja que não estavam contentes em ver os trapos da condição humana desacreditarem a Palavra de Deus. A Reforma era inevitável.

A Reforma da igreja, que continua a abalar a América do Norte nestes últimos dias do século XX não é única ou surpreendente, pelos mesmos motivos. A mudança continua inevitável.

Em tempos de reforma, aqueles que guiam a Igreja têm muito a aprender e a relembrar. O LOC de 1549 reuniu orações e salmos, litanias e ordens de culto de uma vasta gama de fontes separadas, organizando-as para que fossem úteis nos cultos público e doméstico, e traduzindo textos históricos do latim para a língua do povo. Se a publicação do LOC não tivesse realizado nada mais, isso mesmo já seria digno de nota. Porém, no transcurso do reinado de um infante-rei e em uma era de profunda reestruturação religiosa, o LOC ancorou a reforma da Igreja da Inglaterra dentro da tradição da Igreja histórica. Graças a Deus por esses 450 anos de oração comum, e pelas graças que ainda não conhecemos.

As Coletas de Thomas Cranmer

Para aqueles que se interessam por mais da contribuição do LOC de 1549 de Thomas Cranmer, confiram The collects of Thomas Cranmer, um novo livro de Frederick Barbee e Paul F. M. Zahl. As coletas se encontram na linguagem original, e cada uma é seguida de um comentário sobre seu contexto histórico e uma meditação voltada aos cristãos contemporâneos.

Excerto

ORAÇÕES PARA O ADVENTO, NATAL E EPIFANIA, DO LIVRO DE ORAÇÃO COMUM

As seguintes coletas são da edição de 1979 do Livro de Oração Comum da Igreja Episcopal dos Estados Unidos. (Sobre essa forma de oração que conclui, ou "coleta" as orações individuais do povo, confira Reformed Worship n. 52, p 44).

A edição de 1979 do LOC inclui ordens de culto e orações tanto na linguagem histórica quanto na contemporânea; um dos seguintes exemplos está na forma histórica, os demais, na contemporânea.

Primeiro Domingo do Advento

Deus Todo-Poderoso, concede-nos a graça de lançar fora as obras das trevas, e de revestir-nos da armadura de luz agora, neste tempo da vida mortal em que teu Filho Jesus Cristo veio para visitar-nos em grande humildade; concede-nos que, no último dia, quando ele vier novamente em sua majestosa glória para julgar os vivos e os mortos, nós possamos ascender à vida imortal; por meio dele, que vive e reina contigo e o Espírito Santo, um só Deus, agora e para sempre. Amém.

Segundo Domingo do Advento

Deus de misericórdia, que enviaste teus arautos, os profetas, para pregar o arrependimento e preparar o caminho para nossa salvação; concede-nos a graça de ouvir seus alertas e abandonar nossos pecados, de modo que possamos reeber com alegria a vinda de Jesus Cristo, nosso Redentor, que vive e reina contigo e o Espírito Santo, um só Deus, agora e para sempre. Amém.

Terceiro Domingo do Advento

Manifesta teu poder, ó Senhor, e com grande força vem entre nós; e, porquanto somos amargamente abalados por nossos pecados, concede que tua abundante graça e misericórdia prontamente nos socorra e nos salve; por Cristo Jesus, Nosso Senhor, a quem, contigo e o Espírito Santo, sejam toda honra e toda glória, hoje e para sempre. Amém.


Quarto Domingo do Advento

Purifica nossas consciências, ó Deus Todo-Poderoso, pela tua visitação diária, de modo que teu Filho Jesus Cristo, em sua vinda, encontre em nós uma mansão para ele preparada, o qual vive e reina contigo, na unidade do Espírito Santo, um só Deus, agora e para sempre. Amém.

Nós Vos imploramos, ó Deus Todo-Poderoso, que purifiqueis nossas consciências por Vossa visitação diária, de modo que, quando Vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, vier em Sua glória, Ele encontre preparada para Si uma mansão; por meio deste mesmo Jesus Cristo, Nosso Senhor, que vive e reina convosco na unidade do Espírito Santo, um só Deus, agora e para sempre. Amém.

A Natividade de Nosso Senhor: Noite de Natal

Ó Deus, que fizeste esta santa noite resplandecer com o brilho da verdadeira Luz; concede que nós, que conhecemos o mistério desta Luz na terra, possamos também gozá-lo perfeitamente no céu, onde, contigo e o Espírito Santo, ele vive e reina, um só Deus, em glória sempiterna. Amém.

Primeiro Domingo após o Natal

Deus Todo-Poderoso, que espargiste sobre nós a nova luz de teu Verbo encarnado; concede que esta luz, alimentada em nossos corações, possa brilhar em nossas vidas; por Jesus Cristo, Nosso Senhor, o qual vive e reina contigo, na unidade do Espírito Santo, um só Deus, agora e para sempre. Amém.

O Santo Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo: 1.º de janeiro

Pai Eterno, que deste ao teu Filho encarnado o nome santo de Jesus para sinal da nossa salvação; planta em cada coração o amor a ele, que é o Salvador do mundo, Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual vive e reina contigo e o Espírito Santo, um só Deus, em glória sempiterna. Amém.


Segundo Domingo após o Natal

Ó Deus, que de forma maravilhosa criaste, e ainda mais maravilhosamente restauraste a dignidade da natureza humana; concede que partilhemos da natureza divina daquele que se humilhou para partilhar de nossa humanidade, teu Filho Jesus Cristo, que vive e reina contigo na unidade do Espírito Santo, um só Deus, para sempre e sempre. Amém.

A Epifania: 6 de janeiro

Ó Deus, que pela condução de uma estrela manifestaste teu único Filho aos povos da terra; guia-nos a nós, que conhecemos a ti pela fé, à tua presença, onde possamos ver tua glória face a face. Por Cristo Jesus, Nosso Senhor, o qual vive e reina contigo e o Espírito Santo, um só Deus, agora e para sempre. Amém.


_________________________
* Paul Detterman é conferencista, músico eclesiástico e Ministro da Palavra e Sacramentos da Presbyterian Church (USA). Ele trabalha como diretor executivo da Presbyterians for Renewal, um ministério nacional sediado em Louisville, Kentucky.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Uma reforma bem conservadora, parte IV

Revm.º Peter D. Robinson

(tradução do artigo A conservative Reformation, part IV, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. +Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).

Nos últimos anos, tem havido persistentes tentativas de se jogar para escanteio os Trinta e Nove Artigos de Religião (daqui pra frente, simplesmente "os Artigos"), sobretudo pelos defensores da teologia liberal. Como resultado, a maior parte do clero anglicano não tem contemplado os Artigos tão de perto como talvez devessem. A postura de muitos parece ser a de que eles são irrelevantes, ou então, aquela vista em Oscar Wilde, que, solicitado a subscrever os Artigos quando entrou para a universidade, respondeu "Eu subscrevo até quarenta, se quiser!". Os mais moderados pelo menos têm a sabedoria de ver que os Artigos precisam ser lidos em seu contexto. E esse contexto é, claro, a atmosfera teológica dos cinqüenta anos que precederam 1563.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Uma Reforma bem conservadora, parte III

Revm.º Peter D. Robinson

(tradução do artigo A conservative Reformation, part III, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. +Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).

A Sagração do Arcebispo Matthew Parker
no Palácio de Lambeth, 17 de dezembro de 1559.

As duas peças-chave do Acordo Isabelino (Elisabetano) eram a revisão de 1559 do Livro de Oração Comum de 1552, e os Artigos de Religião. Ambos definiram a tônica teológica para a Reforma Inglesa ao fornecer a liturgia segundo a qual a Igreja deveria orar diariamente, e o padrão doutrinário ao qual o clero deveria subscrever e aderir.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Uma Reforma bem conservadora, parte II

O Livro de Oração Comum de 1559
Revm.º Peter D. Robinson

(tradução do artigo
A conservative Reformation, part II, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. +Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).



Com sua ascensão ao trono em novembro de 1558, as três grandes questões que pressionavam a Rainha Isabel (Elisabeth) I eram: um Tesouro vazio, uma guerra incompleta e inconclusiva com a França e a solução da questão religiosa. A primeira e a segunda dessas questões resolveram-se mais ou menos por si mesmas. As hostilidades com a França cessaram, e o Erário começou a novamente se encher com as rendas ordinárias da Rainha. Isso deixou a religião como o problema mais espinhoso.

As convicções religiosas de Isabel parecem não ter sido uma grande força motriz em sua vida pelos padrões da época, mas ficava claro, não obstante, que ela preferia o protestantismo. Ela tinha sido, afinal, educada por humanistas cristãos de persuasão reformada, como John Cheke, e ela dissimulou, quanto à questão religiosa, tão bem quanto somente ela sabia dissimular, ao longo de todo o reinado de sua meia-irmã. Mesmo que ela tivesse tido uma educação menos protestante, visto que a Igreja Romana havia declarado o casamento de sua mãe inválido, e ela mesma uma bastarda, ela não estava predisposta a permanecer sob obediência papal. Ficou claro, portanto, que tão logo quanto possível ela repristinaria o Ato de Supremacia como o primeiro passo em direção à definição da questão religiosa. A Inglaterra logo rompeu com Roma, tendo o Parlamento declarado Isabel "Governadora Suprema... na terra" (e não "Cabeça Suprema", como se acredita popularmente) da Igreja da Inglaterra. Aí passa-se um curioso período de inércia de alguns meses, enquanto Isabel faz pesquisas e permite que o novo rompimento com Roma se consolide. Parece ter havido uma espera necessária, primeiro pelo recesso de Natal do Parlamento e, segundo, para permitir que Isabel e o Gabinete preenchessem as dioceses vacantes, já que todos os bispos de Maria, menos dois, renunciaram ou foram despojados.

O sinal mais claro de onde a política religiosa de Isabel levaria foi a Conferência de Westminster, ocorrida no início de 1559, projetada como um sinal de reaproximação do campo protestante. Ao mesmo tempo, o segundo Livro de Oração Comum de Eduardo VI começou a reaparecer em algumas paróquias-chave, e alguns mais entusiastas começaram a livrar as igrejas dos "ídolos", antes do Governo proibir essa destruição arbitrária.

Alguns meses depois, quando o Ato de Uniformidade apareceu, ele era basicamente uma restauração do status quo conforme era em 1552-3, exceto pelo fato de que Isabel e seu Gabinete fizeram várias emendas conservadoras ao LOC de 1552. Primeiro, "os coros deveriam permanecer como anteriormente"; segundo, os paramentos tradicionais foram restaurados; terceiro, a Rubrica Negra foi removida e as palavras "O Corpo/Sangue do Senhor Jesus Cristo, que foi partido/vertido por ti, preserve teu corpo e alma para a vida eterna" foram adicionadas ao Prefácio da forma mais reformada de 1552; e, por último, a condenação do Papa foi removida da Litania. Todas essas mudanças afastaram a igreja de uma posição mais estritamente reformada, tornando possível alcançar e conciliar os luteranos ingleses.

Para Arcebispo, Isabel escolheu Matthew Parker. Nascido em Norwich a 1504, Parker foi o capelão de Ana Bolena e, então, de Henrique VIII. Ele foi Deão de Stoke-by-Clare de 1536 a 1546, mas depois que o Colégio foi dissolvido no ano seguinte, ele se casou e mudou-se de volta para Cambridge. Foi conhecido por ser um defensor moderado da Reforma, mas depois de ser removido de seu cargo eclesiástico em 1553, foi-lhe permitido viver tranqüilamente em sua fazenda em Suffolk durante o reinado de Maria. Parker era moderado, mas protestante convicto, com uma carreira acadêmica destacada em Cambridge, e foi amigo tanto de Peter Martyr quanto de Martin Bucer. Isabel e Cecil tiveram de trabalhar longamente para convencer Parker a concordar com sua nomeação a Arcebispo da Cantuária, mas ele finalmente a aceitou, e foi consagrado em 19 de dezembro de 1559.

Parker não teve muito tempo para audiências como Arcebispo já que, dentro em poucos meses, ele e seus irmãos bispos publicaram algumas injunções provisórias, modificando certos dispositivos do LOC/1559 concernentes aos paramentos. Isabel também ordenou a restauração de cinqüenta das festas menores do calendário - sem fazer provisões litúrgicas para elas -, proibiu pregações polêmicas e limitou o número de pregadores licenciados. Parker também se esforçou em fazer o pesado maquinário da Igreja da Inglaterra funcionar como uma Igreja reformada.

As fases 1 e 2 do Acordo de Isabel - a Lei de Supremacia e a Lei de Uniformidade - parecem ter encontrado pouca oposição, e não muito entusiasmo. Nos dez anos anteriores, houve quatro grandes mudanças de religião, de modo que a maioria das pessoas estava preparada para ir às suas igrejas e participar do que quer que fosse feito ali. A cuidadosa implementação do Acordo por Isabel e Parker manteve tanto luteranos quanto reformados a bordo, na busca de uma via media entre Wittenberg e Genebra. No entanto, ainda havia a necessidade de produzir algum tipo de declaração doutrinária, o que foi conseguido em uma sessão conjunta das Convocações de Cantuária e York no inverno de 1562-63.

Parece quase certo que o Arcebispo Parker foi a luz-guia na reestruturação dos Quarenta e Dois Artigos de Cranmer para os Trinta e Nove Artigos. Nisto, ele foi auxiliado por Edmund Grindal, Bispo de Londres. As coisas já haviam progredido um pouco nos nove anos anteriores, já que a ameaça anabatista havia recedido e o Concílio de Trento se aproximava de seu fim. A nova redação dada por Parker aos Artigos removeu muitas das referências aos anabatistas, enquanto respostas a alguns dos decretos já publicados de Trento foram incorporadas ao texto. O projeto final foi apresentado a uma Convocação que se encontrava com uma disposição reformada e reformadora. Uma proposta pela remoção dos órgãos das igrejas foi rejeitada por estreita margem, então é de surpreender que os Trinta e Nove Artigos tenham passado pelo necessário debate relativamente incólumes. A Rainha, no entanto, vetou o Art. 29, por ser ofensivo aos luteranos e outros que sustentavam a doutrina da Presença Real antes de 1563. Isto deve ter irritado alguns dos espíritos mais ardentes da ala reformada, mas foi um aborrecimento curto, já que o artigo foi repristinado em 1571, quando a influência do luteranismo na Inglaterra diminuiu, e com ela a necessidade de agradar aos "papistas" da Igreja.

Os Trinta e Nove Artigos, da forma como saíram da Convocação de 1563, são um documento interessante. Parker estava procurando consenso, e na maior parte dos Artigos, parece mais próximo ao espírito da Confissão de Augsburgo do que das várias confissões suíças dos trinta anos anteriores. Os luteranos perderam com o (brevemente suprimido) Art. 29, que adota uma posição claramente reformada. Por outro lado, o conceito luterano de adiáfora - que cerimônias que não sejam claramente contrárias às Escrituras podem ser regulamentadas pela Igreja - está firmemente entrincheirado nos Artigos, o que marca uma séria derrota do partido calvinista.

Os Artigos marcam, de fato, o fim da fase legislativa do Acordo Isabelino (Elisabetano). Teoricamente, a Igreja da Inglaterra tinha uma liturgia reformada, mas empregando ainda os paramentos tradicionais. Os interiores das igrejas deveriam ter sido mudados apenas com a remoção dos altares, crucifixos, gradis de suporte para os crucifixos e as imagens supersticiosas, que deveriam ser substituídas com frases decorativas das Escrituras pintadas nas paredes das igrejas. Sua teologia era protestante, trilhando um caminho intermediário entre o luteranismo e a posição reformada. Seu governo permaneceu nas mãos dos Bispos, em sucessão apostólica, e os territórios e circunscrições das antigas dioceses e paróquias foram mantidos como dantes. Na prática, no entanto, houve concessões de parte a parte.

Para começo de conversa, a eliminação extra-oficial de objetos supersticiosos freqüentemente foi além do estritamente necessário. Órgãos foram removidos de algumas igrejas e deixaram de ser usados em outras. A música sacra estava em uma maré baixa. As igrejas eram cada vez mais empregadas como dois ambientes distintos: a nave para as orações Matutina e Vespertina, e o coro para a Ceia do Senhor. Os paramentos, que não o conjunto de batina, sobrepeliz, capa de asperges, tippet e capuz, parecem ter desaparecido de muitas áreas e não retornariam senão em tempos mais modernos. Alguns ministros - particularmente aqueles da linha que viria a se chamar puritana - omitiam partes da liturgia do LOC para deixar mais tempo ao sermão. Parker agiu contra tais abusos de várias maneiras.

Primeiro, ele deixou claro que a música sacra simples em inglês deveria ser encorajada. Esta provisão foi, depois de alguma hesitação, abraçada com entusiasmo e, gradualmente, as grandes liturgias corais que associamos com o anglicanismo se desenvolveram, vindas da pena de grandes compositores como Thomas Tallis e William Byrd para o uso das catedrais e da Capela Real de Isabel. Parker também promoveu a compilação da "Versão Antiga" dos Salmos de Davi metrificados, um incidente que levou a Igreja da Inglaterra a se tornar uma igreja de salmodia exclusiva em muitos lugares até meados do ano de 1800.

Em segundo lugar, ele e o Arcebispo Grindal de York ordenaram que a Oração Matutina, a Litania e o Culto de Comunhão deveriam ser lidos como um só, em sequência, nas paróquias. Isso facilitou aos magistrados que encontrassem omissões. Isso também levou ao tipicamente anglicano "Culto a seco" de Matinas, Litania e ante-Comunhão, terminando com um sermão. Devido à inércia dos fiéis e a regra reformada de que "não haverá missa sem comungantes", as celebrações da Santa Comunhão caíram em freqüência para uma vez ao mês, uma vez por bimestre ou quadrimestre, dependendo do tamanho da paróquia. Algumas paróquias em cidades grandes e as catedrais mantiveram as celebrações semanais.

Em terceiro lugar, em uma tentativa de assegurar a uniformidade de cerimonial, o Arcebispo exigiu o uso de batina, sobrepeliz, tippet e capuz em todos os cultos das paróquias. Também exigiu o uso da capa de asperges em catedrais e igrejas colegiadas. Paramentos eucarísticos foram deixados desaparecer discretamente, mas permaneceram legais.

À esquerda, conjunto de batina, sobrepeliz, tippet e capuz acadêmico, paramentação mínima para todas as liturgias anglicanas. À direita, o conjunto é acrescido de capa de asperges, que continuou em uso nas catedrais. Neste caso o ministro trocou o tippet por uma estola, o que era permitido, embora raro, no regime do LOC/1559. Fotos: Wikipedia.
Gradualmente, essa via media anglicana consolidou-se para se tornar a religião da Inglaterra, embora no século seguinte (até depois de 1662), tenha havido uma agitação persistente por uma reforma mais extensa para firmar a Inglaterra no campo reformado ou calvinista.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Uma Reforma bem conservadora, parte I

Revm.º Peter D. Robinson

(tradução do artigo A Conservative Reformation, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).


Tem havido um esforço bem coordenado, nos últimos 175 anos, por parte de uma facção da Igreja Anglicana, em negar a herança protestante do episcopalismo ortodoxo. Isto geralmente tem tomado a forma ou de uma tresleitura intencional dos Trinta e Nove Artigos de Religião (por exemplo, o Trato XC, de J. H. Newman), ou, mais recentemente, da negação pura e simples de que eles tenham qualquer relevância para a igreja moderna. Conquanto eu discorde fortemente dos argumentos contidos no Trato XC, é verdade que precisamos colocar os Artigos em seu contexto histórico, para podermos compreender plenamente o que o Arcebispo Matthew Parker e as Convocações de Cantuária e York estavam tentando fazer em 1563.

Teologicamente, os Reformadores protestantes se dividiram em três grupos. Para fins de argumentação, chamemo-nos de Biblicistas Conservadores, Biblicistas Moderados e Biblicistas Radicais. Os conservadores foram encabeçados por Lutero, e incluem outros grandes nomes como Melanchton, Bugenhagen, Olaus Petri e a maioria dos primeiros reformadores ingleses -- Barnes, Tyndale etc. Os moderados respondem pelos Reformadores da Suíça e do Reno, como Calvino, Bucer, Ecolampádio, Peter Martyr e Bullinger. O campo radical consiste de pessoas como Carlstadt e Miguel Serveto, que em última análise começaram a repensar até os Credos. O campo radical eventualmente se fechou em um canto e sobrevive hoje apenas em grupos biblicistas radicais como os Amish e os menonitas. Eles têm um primo distante no mainstream na forma das várias igrejas batistas, mas, em geral, sua tradição acabou se tornando bem marginal. Por outro lado, os biblicistas conservadores e moderados acabariam por formar o mainstream da Reforma européia.

O motivo disto é que as várias Igrejas estatais se encaixavam, grosso modo, em dois grupos. Os Biblicistas Conservadores conduziram seu próprio tipo de Reforma no norte da Alemanha e Escandinávia, dando a esses países uma herança evangélica luterana. Os suíços logo abandonaram algumas das posições mais extremadas de Zwínglio e conduziram uma Reforma mais moderada no quesito "somente a Bíblia" em seus cantões, que se disseminou para Estrasburgo, vários Estados da Renânia, norte da Holanda e Escócia. A Igreja inglesa se encaixou em algum lugar entre esses dois campos, conferindo alguma veracidade ao velho ditado de MacCauleuy sobre a Igreja da Inglaterra. Parafraseando-no para aproximá-lo à realidade, seria justo dizer que o Anglicanismo acabou ficando com "uma hierarquia católica, Artigos bucerianos e uma liturgia luterana". Por que isso?

Entre as décadas de 1530 e 1540, parecia que a Inglaterra eventualmente acabaria adotando uma forma conservadora de luteranismo, próxima à da Suécia. O Arcebispo Cranmer era luterano, bem como a maioria dos partidários influentes da Reforma até então. No entanto, por volta de 1545, idéias reformadas, vindas especialmente de Estrasburgo e da Renânia (e não diretamente de Genebra e Zurique) começaram a ganhar terreno. Nicholas Ridley (1500-1555), o "pequeno notável" do movimento da Reforma, parece ter adotado a Teologia Eucarística reformada, após ler uma obra do século IX de um monge chamado Ratramnus. Ele eventualmente convenceu Latimer e Cranmer de que a posição luterana acerca da Eucaristia estava incorreta, e o cenário estava pronto para a Reforma Eduardiana prosseguir segundo linhas moderadamente reformadas, e não mais luteranas.

A despeito de seu conservadorismo, e do favor de que goza com os atuais anglo-católicos, o Livro de Oração Comum (LOC) de 1549 foi cuidadosamente emoldurado em uma esturura teológica reformada. No entanto, Cranmer, que acreditava em conduzir as reformas gradualmente, estruturou a liturgia de uma forma que não chocaria demais os católicos henriquianos, e que ao mesmo tempo o mainstream luterano do partido reformista aceitaria de bom grado. É ponto pacífico que ele fez o trabalho um pouco bem demais, resultando em um longo debate com o bispo católico henriquiano Stephen Gardiner (1500-1555), que acreditava que a Eucaristia de 1549 dava margem a uma interpretação católica, e por outro lado foi duramente criticado por Martin Bucer, Regius Professor de Teologia em Cambridge, que lançou sua primeira Censura do LOC em 1550. Cranmer, que cada vez mais se identificava com a linha reformada, retornou à prancheta, modificando extensamente a ordem para o Culto com Santa Comunhão, e retirou muito do cerimonial que havia sobrado em 1549.

O LOC de 1552 marcou o ápice do pensamento reformado, no que tange à liturgia da Igreja da Inglaterra. Eduardo VI morreu depois de um ano, e a ascensão de Maria Tudor (1516-1558) tornou o ser protestante na Inglaterra um negócio perigoso, visto que ela formalmente restaurou o país à obediência a Roma. No entanto, a infeliz política mariana de queimar protestantes proeminentes, como Cranmer, Latimer, Ridley, Hooper, Taylor e vários outros membros importantes da hierarquia eduardiana, não caiu bem para o público em geral. Tivesse vivido mais tempo, a Rainha Maria I provavelmente teria sido bem-sucedida em devolver a Inglaterra aos apriscos romanos, ou, mais provavelmente, em lançar o país em uma guerra civil religiosa; mas, tendo morrido em 1558, ela deixou o país encalhado entre a velha e a nova religião.

Sua sucessora e meia-irmã, Isabel (ou Elizabeth, 1533-1603) foi educada por John Cheke, e ela teve Matthew Parker como Capelão em certa época. Ela, portanto, tendia ao protestantismo, embora fosse relativamente isenta das influências continentais, não tomando partido nem pelo luteranismo, nem pelo calvinismo. Matthew Parker (c. 1504-1575), seu escolhido para Arcebispo da Cantuária, era também o propositor de uma versão insular do protestantismo, relativamente livre das influências das disputas estrangeiras, conquanto plenamente ciente de tais questões. Sir William Cecil, seu principal conselheiro, também não era nenhum fã de modismos estrangeiros, embora se inclinasse, talvez, um pouco mais ao calvinismo do que a Rainha. Com estes três a cargo da política, o cenário estava montado para um consenso religioso moderado, "pan-protestante", que refletia a necessidade do Governo de reunir todas as três correntes do protestantismo inglês dentro da Igreja nacional. Isabel, Cecil e Parker, portanto, buscaram reunir luteranos, bucerianos e calvinistas dentro da Igreja nacional. Paradoxalmente, o que começou como uma questão de necessidade política acabou produzindo o que John Wesley descreveu como "a melhor igreja reformada da Cristandade".

No próximo artigo, nós examinaremos como isto se deu e por que é tão importante para os anglicanos continuantes preservar sua herança católica-reformada.