quarta-feira, 25 de junho de 2008

Por que alguns presbiterianos conservadores não gostam de liturgia?

Por Jeffrey J. Meyers.

[O Rev. Jeffrey Meyers é ministro da Presbyterian Church of America, autor dos livros The Lord's Service, A Table in the Mist, Presbyterian, Examine Thyself, e Commentary on James (no prelo) e dono do blog Corrigenda Denuo. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a permissão do Reverendo para traduzir e publicar esta série de artigos para o português. O original deste artigo pode ser lido aqui. N. do E.]

Sete anos atrás, eu dei uma palestra com o título deste post em uma conferência sobre teologia do culto. Desde aquela época, eu continuei pensando nessa questão. Eu gostaria de trabalhá-la de tempos em tempos no meu blog. Um pouco do que vocês vão encontrar aqui será simplesmente copiado daquela palestra. Mas depois de mais sete anos de experiência, creio que será necessário completar e fazer algumas correções nos meus argumentos originais.



Eu comentei, no começo do meu texto original, que o título é, ao mesmo tempo, exageradamente ambicioso e vergonhosamente tímido. É ambicioso no sentido de que ele sugere que eu vá fornecer uma resposta definitiva, ou uma lista de motivos para o caráter alitúrgico, ou mesmo anti-litúrgico, de boa parte dos cultos presbiterianos na América. Alguém pode pensar, também, que eu tenho um antídoto milagroso para aqueles que foram envenenados contra a liturgia. Eu não finjo ser capaz de fazer nenhum desses milagres.
Apesar do título provocativo, eu tenho algo mais modesto em mente. Eu vou tentar isolar, dentre os muitos fatores históricos, sociais, culturais, filosóficos, teológicos e práticos possíveis, alguns que parecem me apresentar um desafio estratégico para aqueles de nós que estão trabalhando para restaurar, ou melhor re-formar e implementar uma liturgia reformada católica nas nossas igrejas [“católica” no sentido de universal, atenta aos 2000 anos de cristianismo que vieram antes de nós. N. do T.].
O título é, também, tímido, porque a atitude entre muitos dos presbiterianos conservadores com relação à liturgia pode ser bem mais hostil do que “não gostar” sugere. Muitos, nas nossas igrejas, estão na verdade com medo da liturgia. Eles a temem. Alguns, por ignorância, outros por falta de experiência, ou talvez ambos. Eles podem nunca ter recebido instrução alguma sobre as razões bíblicas e teológicas para um se ter culto litúrgico, ou simplesmente nunca terem experimentado aquilo que nós estamos defendendo. Sua única experiência com liturgia pode ter sido em uma missa romana ou em um culto luterano, em que o culto inteiro foi murmurado e a participação da congregação passou longe de ser vigorosa e ativa. Outros a temem por motivos quase-históricos.
Há, é claro, bons motivos para se temer a liturgia, se por “liturgia”, alguém entende simplesmente copiar os modelos litúrgicos atuais da Igreja Romana, ou da Ortodoxa Oriental, ou da Anglicana de high church. Nem tudo que essas igrejas fazem precisa ser rejeitado, claro. Agora, saber se nós, presbiterianos, ainda temos motivo justo para continuar rejeitando o culto litúrgico porque fazia (ou faz) lembrar o culto anglicano, ou católico romano, é um projeto de pesquisa que precisa desesperadamente de desenvolvimento.
O outro bom motivo para se temer a reforma litúrgica é se isso significar simplesmente restaurar algum dos modelos históricos da tradição reformada. A meta da reforma litúrgica não deve ser, jamais, simplesmente re-encenar qualquer liturgia histórica, seja a de Agostinho, a de Bucer, a de Calvino, a de Knox, etc. Nosso desejo deve ser reformar a nossa herança cristã-católica de acordo com a Palavra de Deus. Um autor reformado recentemente definiu todas as reformas litúrgicas como tentativas de “imitar as práticas de 500 anos atrás”. Esse romantismo litúrgico não tem lugar em uma verdadeira renovação litúrgica. É um sofisma comum em discussões contra a reforma litúrgica. Encenar uma liturgia histórica pode ser uma boa coisa para um clube de apreciação histórica fazer.
O acadêmico de liturgia católica romana Louis Bouyer chama isso de “arqueologismo litúrgico”. De acordo com Bouyer, esse romantismo é um dos “problemas fundamentais do movimento litúrgico. Porque nenhuma reconstrução do passado – não importa quão excelente seja o período escolhido – pode ser conseguida sem a mistura de elementos próprios dos gostos de quem faz a reconstrução; e essas reconstruções tendem, por isso, a causar mais problemas do que elas podem solucionar.” (Liturgical Piety. [Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1954], p. 12).
Como Bouyer avisa em outra passagem, existe sempre o perigo que aqueles interessados em uma renovação litúrgica sejam possuídos pelo “espírito da restauração arqueológica fajuta”. E, de novo: “Porque se a rejeição teimosa da Igreja e do mundo como estão hoje fossem uma questão preliminar necessária para qualquer renascimento litúrgico, este fato, por si mesmo, certamente constituiria a mais perfeita condenação desse renascimento.” Infelizmente, muitos homens na tradição presbiteriana acham que renovação litúrgica é copiar modelos escoceses do século XVII, ou colar a liturgia de Calvino, em Genebra, no mundo atual. Não é isto que eu tenho em mente.
Talvez nós devêssemos também notar como a liturgia e a Teologia do Culto se desenvolveram bem melhor em igrejas presbiterianas que nós consideramos majoritariamente liberais ou neo-ortodoxas, como a PC(USA) ou até mesmo a Igreja da Escócia. Esse fato, por si só, contribui para a resistência dos presbiterianos estritamente confissionais de tudo quanto for litúrgico. Afinal, se essas igrejas gostam de liturgia, isso não deve ser boa coisa (confira o Book of Common Worship da PC(USA) (1993) e os recentes artigos de Bryan D. Spinks e Iain R. Torrance, em To glorify God: Essays on Modern Reformed Liturgy (Wm. B. Eerdmans, 1999).
(continua na Parte 2)

5 comentários:

Leon Gabbai de Morais disse...

Prezado Eduardo,

Eu gostaria de manifestar minhas congratulações e a minha satisfação por ter encontrado este blog, cuja preocupação fundamental é de resgatar os fundamentos da teoria e da prática liturgica reformada. Parabéns por esse trabalho, que tem colaborado na difícil tarefa de preencher uma enorme lacuna existente no que concerne a este tema, em língua portuguesa e no contexto da igreja reformada brasileira.

Ass. Leon Gabai (Sefarad)

Eduardo Chagas disse...

Sefarad,

Grato pela audiência e pelos elogios! Tem dia em que a gente se sente a própria voz que clama no deserto... Mas como diz o velho corinho dos Vencedores sobre São Barnabé, não fica bem a gente deixar as coisas continuarem como estão, "ainda mais quando se sabe o que fazer e não se faz"!

Abraços!

Leon Gabai de Morais disse...

Estou ansioso, aguardando novas postagens... A propósito, eu possuo um livro de salmos e cânticos que guardo desde que freqüentei a igreja Reformada (missão da Igreja Reformada Libertada da Holanda). Os salmos são traduções e adaptações do Saltério de Genebra. Caso te interessem, farei um esforço para escaneá-los e mandar pra você. Abração fraternal, meio véio!

Eduardo Chagas disse...

Leon,

Rapaz, seria uma mão na roda pro projeto! Se for mais fácil, veja quanto fica pra xerocar e mandar por correio, eu cubro a despesa numa boa!

Esta semana devo terminar de traduzir a série do Rev. Jeff Meyers!

Abração!

Leon Gabai de Morais disse...

Não tem problema, brother! É só passar o endereço que o resto eh comigo... meu msn: leonmorais@hotmail.com.

Aguardo o contato!