sexta-feira, 4 de junho de 2010

A Santa Ceia: testemunho da presença de Cristo

“Porventura, o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo?” (I Co. 10.16)

Na última quinta-feira, segundo o calendário da Igreja Católica Romana, foi observada a solenidade de Corpus Christi. Esse dia foi transformado em feriado por causa da importância para a teologia romana daquilo que ele comemora: a presença de Cristo na Eucaristia. Eu gostaria de investir algum tempo neste assunto, hoje. A questão da presença (ou da ausência) de Cristo no Sacramento da Eucaristia, que é a Santa Ceia do Senhor, foi um dos assuntos mais acaloradamente discutidos de toda a história do Cristianismo, e ainda hoje é motivo de dúvida e de divisão no seio da Igreja. Desde a Antigüidade até os dias de hoje, estudiosos como Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino, Philip Melanchton, Ulrico Zwinglio, João Calvino, Karl Barth e vários outros, escreveram obras com milhares de páginas e dezenas de volumes para tentar explicar em detalhes como é que isso acontece, de Cristo estar presente conosco, quando nos reunimos em torno da sua Mesa.


A Igreja Romana, com a força de seu magistério, impõe a seus fiéis a crença de que, a cada missa, o sacrifício de Jesus Cristo na cruz é atualizado, ou repetido, nas figuras do pão e do vinho, que se transformam, milagrosamente, no Corpo e no Sangue do Senhor, partido e vertido para o perdão dos nossos pecados (a isso dá-se o nome de transubstanciação). Como para eles, os elementos se tornam o corpo sacrificado do Senhor Jesus, toda reverência e adoração são devidos a eles, pois ali enxergam o próprio Cristo.

Quando veio a Reforma Protestante no século 16, muitos dos reformadores ofereceram sua própria interpretação para o que realmente acontece na Mesa da Comunhão. Nenhum deles podia aceitar que o grande sofrimento e sacrifício do Senhor descrito nos Evangelhos, fosse de alguma forma insuficiente, que tivesse de ser repetido a cada domingo. Pelo contrário, a afirmação de que Cristo se deu por nós, de uma vez por todas e de maneira suficiente para a salvação do mundo, é um dos marcos com os quais todos os protestantes concordam. Mas ficou a questão: o que acontece, então, quando comemos do pão e bebemos do cálice?

Para os luteranos, acontece uma união sacramental entre Cristo e os elementos da Santa Ceia. Pão e vinho não deixam de ser pão e vinho. Mas assim como na Encarnação, pela ação do Espírito Santo, o Filho de Deus se uniu com a natureza humana para se tornar Homem-Deus, também crêem eles que pela ação do Espírito Santo, Cristo se une sacramentalmente com os elementos do pão e do vinho, “nos quais, com os quais e sob os quais” ele manifesta a presença de seu Corpo e de seu Sangue (Fórmula de Concórdia, Cap. 7).

Por outro lado, Ulrico Zwinglio, pensador do racionalismo humanista e primeiro reformador da Igreja de Genebra, se opôs aos luteranos dizendo que na verdade, o corpo físico de Cristo está no céu, para onde os Apóstolos o viram subir na Ascensão (Mc. 16.19-20; Lc. 24.50-53; At. 1.6-11), de modo que é impossível que ele se faça corporeamente presente na Santa Ceia. Para Zwinglio, o significado central e a grande importância da Santa Ceia não era nenhum valor místico ou espiritual, mas sim a humilde obediência à palavra de Cristo, “fazei isto em memória de mim” (I Co. 11.24-25). O entendimento zwingliano da Santa Ceia não era o de um sacramento, mas sim de uma refeição memorial, meramente simbólica, o cumprimento de uma ordem (ordenança) de Jesus. (Calvino, Breve tratado sobre a Ceia do Senhor, § 56) Atualmente, os batistas e todas as novas igrejas evangélicas e pentecostais adotam esse entendimento.

Mas e a nossa Igreja, o que diz sobre isso?

Como presbiterianos, nós somos herdeiros da linha teológica do reformador João Calvino, que substituiu Zwinglio em Genebra quando este morreu durante as guerras religiosas contra os estados católicos da Suíça. Calvino defendia a presença espiritual de Cristo na Santa Ceia. Mas diferente dos romanos e luteranos, e tomando por base uma frase da liturgia tradicional da Eucaristia (“sursum corda”, “elevemos os corações”), ele dizia que não era Cristo quem descia para tomar forma de pão e de vinho, mas era a Igreja quem era elevada espiritualmente aos céus para participar da Ceia na presença de seu Senhor (Calvino, Breve tratado sobre a Ceia do Senhor, § 51).

Segundo a nossa teologia, não acontece qualquer transformação interna no pão e do vinho, nem é repetido o sacrifício de Cristo na cruz. Não obstante, pela operação do Espírito Santo, todos quantos, com fé, comem e bebem e são alimentados fisicamente do pão e do vinho, também comem e bebem e são alimentados espiritualmente do Corpo e do Sangue de Cristo. O sacrifício do Senhor Jesus na cruz não é repetido, mas os benefícios da sua morte em nosso lugar são atualizados, trazidos para nós no presente pela ação do Espírito Santo. (Calvino, As Institutas, IV.17.10; Confissão de Fé de Westminster, 39.7)

Quando comemos do pão e bebemos do cálice, diz o Apóstolo Paulo, anunciamos a morte do Senhor até que ele venha (I Co. 11.26). Quando participamos da Comunhão do Corpo e do Sangue do Senhor, nos é dada uma prévia, uma amostra e uma garantia do grande banquete que nos aguarda, quando Cristo finalmente vier buscar sua Noiva, que é a Igreja (Ap. 19.9). Portanto, a celebração da Santa Ceia, do Sacramento da Eucaristia, é um testemunho visível, palpável e (por que não?) saboreável do mistério da nossa fé, do motivo da nossa viva esperança (I Pe. 3.15), de que Cristo morreu e ressuscitou, e voltará na glória do seu reino eterno.

Deus nos conceda que, como testemunhas fiéis, que testemunham da verdade, possamos comunicar ao mundo a Verdade do Evangelho, para que, vendo o mundo nossa perseverança “na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações”, “com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo” (At. 2.42, 46, 47), acrescente-nos o Senhor, dia a dia, os que serão salvos.


Eduardo H. Chagas
Aspirante ao Sagrado Ministério

5 comentários:

Ingrit Jeampietri disse...

Olá Eduardo,
parabéns por seu artigo. Tem muito a ver com a clássica teologia eucarística anglicana, estabelecida por Cranmer nos dois primeiros LOCs (1549 e 1552) que, aliás, no que se refere á teologia eucarística, rejeita não somente a transubstanciação, mas também a consubstanciação luterana e o memorialismo zwingliano. Tenho quase certeza que a 1a edição das Institutas (1536) influenciou Cranmer a seguir a linha calvinista.
Obrigado por acrescentar o link de nossa pequena Capela em seu belo site (que, aliás, já está meus "favoritos").
Gostaria de trocar outras ideias contigo sobre liturgia.
meu email é cecalvani@hotmail.com

Ass. Rev. Carlos Eduardo Calvani

Eduardo Chagas disse...

Rev. Calvani,

Quanto à Reforma Inglesa e sua influência continental, dê uma olhada na série Uma Reforma bem conservadora, de autoria de um bispo inglês radicado nos EUA. Ele sugere que a "culpa" da forte influência reformada no anglicanismo (tanto nos 39 Artigos como no LOC) é de Martin Bucer, que foi colega de Calvino em Estrasburgo e se refugiou na Inglaterra,onde acabou como professor de Teologia em Cambridge depois que a chapa esquentou no Continente. http://liturgiareformada.blogspot.com/search/label/S%C3%A9rie%3A%20Uma%20reforma%20bem%20conservadora

Um abraço!

Ingrit Jeampietri disse...

De fato, Bucer foi um dos assessores de Cranmer após a edição do LOC de 1547. Na revisão de 1552 há forte influência de Bucer na doutrina eucarística. Posteriormente isso foi amenizado no livro de 1662 que se firmou como a clássica "via media" anglicana.
Vamos conversar mais sobre isso por email. Tenho algumas ideias que talvez possamos desenvolver juntos.
abs
calvani

pxbrunopx disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cris (Meire) disse...

Caríssimo Eduardo,

A Paz de Nosso Senhor e Salvador

Comecei a ler seu texto, e me deparei com um gravíssimo erro. A Santa Missa Católica NÃO HÁ REPETIÇÃO DO SACRIFÍCIO DE CRISTO! como informou em seu texto. Peço que corrija este gravíssimo erro, pois este não é ensinamento da Igreja Católica Apostólica Romana.


O sacrifício da Missa não acrescenta nada ao Sacrifício da Cruz nem o repete, mas o "representa", no sentido de que "o faz presente" sacramentalmente em nossos altares, o mesmo e único sacrifício do Calvário (ver Catecismo da Igreja Católica n. 1366; Paulo VI, Credo do Povo de Deus n. 24).

O texto de Hebreus 7,27 não diz que o sacrifício de Cristo o realizou "de uma só vez e já se acabou", mas "de uma vez para sempre". Isto quer dizer que o único sacrifício de Cristo permanece para sempre (ver Catecismo da Igreja Católica n. 1364). Por isso diz o Concílio: "Nosso Salvador, na última ceia, ...instituiu o sacrifício eucarístico de seu corpo e sangue, com o qual ia perpetuar pelos séculos, até a sua volta, o sacrifício da cruz" (ver Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium n.47). Portanto, o sacrifício da Missa não é uma repetição mas uma re-apresentação e renovação do único e perfeito sacrifício da cruz pelo qual fomos reconciliados.


Confesso que nem mesmo li o restante do texto, após me deparar com algo tão grave.

Que a Paz de Cristo esteja contigo!