sábado, 20 de julho de 2013

Solenidade no presbiterianismo: "compondo a Mesa"?

Sem. Eduardo H. Chagas

Algo que eu já venho observando há um bom tempo, desde minha época de Faculdade de Direito, na verdade, são as influências que o presbiterianismo brasileiro recebe na hora de elaborar o seu cerimonial. De fato, parece que a vontade de fugir de tudo o que lembre o romanismo é tão grande que qualquer outra fonte que ofereça um cerimonial com "ordem e decência" é mais válida do que as fontes da Igreja cristã histórica.


Um dos exemplos mais marcantes disso é o costume de "compor a Mesa" em cultos solenes. Ora, a composição de uma Mesa para a direção de trabalhos vem da praxe parlamentar, que nós bem sabemos que é um legado deixado pelo conciliarismo reformado ao mundo democrático ocidental.

O procedimento é o seguinte: um cerimonialista pede a atenção do público e passa a chamar os componentes da Mesa um a um, por seu nome e função. Assim, o presidente, o vice, os secretários e, eventualmente, outros dignitários presentes. A cada nome, uma rodada de aplausos, enquanto o chamado dirige-se ao seu lugar à mesa. Composta a mesa, geralmente canta-se o Hino Nacional e passa-se à ordem do dia, quer sejam trabalhos parlamentares, quer seja uma palestra.

No Brasil, o costume de compor a Mesa vai além dos trabalhos parlamentares; é costume fazê-lo também em solenidades acadêmicas e para-acadêmicas: palestras, simpósios e congressos em escolas, faculdades, universidades e mesmo em entidades de classe, como a Ordem dos Advogados e os Conselhos Regionais que regulam as mais variadas atividades profissionais.

O que me causa estranhamento é que um Culto Público não é uma reunião de trabalho parlamentar, e muito menos o Sermão, uma palestra (ainda que muitos o considerem como se o fosse). Mesmo quando se trata do Culto de abertura de uma reunião conciliar, para a qual serve de exercício devocional, o Concílio não está em sessão durante o Culto. Encerrada a celebração, via de regra a Mesa é recomposta e o Moderador ou Presidente precisa chamar a Casa à ordem e, aí sim, começar os trabalhos.

Não faz sentido compor a Mesa com a Liturgia em andamento. O Culto não é nem deve ser dirigido como um procedimento parlamentar. Ora, nos procedimentos parlamentares, o foco primário é o Presidente da Mesa. É a ele que se dirigem as propostas, as arguições, os apartes, que ele encaminha conforme a ordem. Mesmo na praxe conciliar da Igreja, ainda que tudo deva ser feito tendo em vista o Senhor da Igreja, o foco dos trabalhos, o centro em torno do qual eles gravitam, é o Moderador ou Presidente da Mesa.

Na Liturgia, não se pode conceber nenhum outro foco, mediato ou imediato, que não seja o próprio Deus. É a ele que dirigimos os louvores, confissões, súplicas e gratidão; é dele que recebemos a graça nas orações, na Palavra e nos Sacramentos. Mesmo a proclamação da Palavra, que tantos elevam como clímax do Culto, é, em primeiro lugar, um ato de adoração a Deus e, apenas secundariamente, instrução na fé para os ouvintes.

Ainda que as várias partes da Liturgia sejam divididas entre vários celebrantes, e que estes sejam os componentes da Mesa do Concílio, não é bom que eles assumam seus lugares litúrgicos por meio de composição da Mesa. Essa prática interrompe o andamento da Liturgia e desvia o foco para os dignitários e seus cargos.

Qual a alternativa? Eu humildemente sugiro a boa e velha processional. Sem apresentações, sem desviar o foco, que deve estar em Deus, para seres humanos. Durante uma peça instrumental, ou durante o primeiro hino, entram, nesta ordem:

  • A Bíblia, se for do costume local;
  • O Coro, se houver;
  • Os celebrantes, vindo o principal celebrante por último.



Neste vídeo, processional do coro e pastores da Igreja Presbiteriana Shadyside, em Pittsburgh, Pennsylvania, EUA.


Entrada da Bíblia na tradicional celebração Kirkin' of the tartan, na Igreja Presbiteriana de Enslow Park, em Huntington, Ohio, EUA.

Como um adendo, é interessante notar que, nas universidades de tradição inglesa e americana, também se prefere a processional, tanto dos professores quanto dos alunos (e todos, professores e alunos, sempre paramentados), como meio de início dos trabalhos nas diversas solenidades acadêmicas (início de ano letivo, congressos e formaturas). A processional imprime movimento, agilidade, à cerimônia, e evita o desvio do foco para os indivíduos, principalmente dignitários que aparecem de surpresa, para os quais se torna necessário espremer um lugar à Mesa.

Processional acadêmica da University of the Highlands na Catedral de Inverness, Escócia.

















Um comentário:

Mauricio disse...

muito bom o texto mano.

tbm não concordo com muito do que vejo no culto, apontando pro homem e não pra Deus.

tbm quero te agradecer pelo blog. os modelos que encontrei aqui tem me ajudado a elaborar liturgias mais reformadas. confesso que não tenho usado tudo. Mas creio que estou num bom caminho, com liturgias mais profundas, sem parecer missa. kkkkkk. vou te mandar uns modelos das minhas depois.

Se for possível, poderia divulgar isso?

segue o link de um sermão expositivo em Tiago, parte de uma série que tenho pregado na Igreja Presbiteriana em Iguaba Grande-RJ

http://revmauricio.blogspot.com.br/2013/07/sermao-expositivo-em-tiago-41-12.html

espero que possa abençoar os amados e amantes da Palavra de Deus.