segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Liturgia 2.0?

Me mandaram este vídeo do Marcos Botelho, colunista da Ultimato, falando sobre uma nova proposta de liturgia para os dias de hoje, teoricamente capaz de, ou mais hábil para, comunicar o Evangelho à atual geração, cronicamente hiperativa e portadora de déficit agudo de atenção.

Minhas humildes considerações sobre ele:

Me pareceu que eles não fazem qualquer diferenciação entre um simpósio, ou ciclo de palestras, como foi Lausanne, e o Culto Divino. Veja, ele iguala "discurso religioso" e Culto. Ou Sermão e Culto.

Lógico, isso não é culpa deles. Entre a maior parte dos protestantes e, como herança, entre os evangélicos, o foco do Culto sempre foi muito mais o Sermão, a parte "horizontal", didática, catequética, do Culto, do que a parte "vertical", a contemplação, a devoção, a meditação, a oração etc. E principalmente depois dos "avivamentos", a ênfase conversionista que o Sermão assumiu tornou a coisa toda ainda mais didática/catequética do que devocional.

Eu adotaria com prazer esse esquema de falar 15 minutos e passar para as "mesas" refletirem, dentro da Escola Dominical. Se é que os bancos da Igreja têm muita coisa para contribuir entre si; a Igreja local não é um congresso teológico onde todos têm estofo para ter algo a contribuir. Isso é o que mais me irrita, por exemplo, nas reuniões de célula/grupo familiar, em que se lê um texto bíblico e depois, um a um, todos (necessariamente todos) falam "o que esse texto quer dizer pra mim". Aff!!! Quase nenhum leigo tem qualquer coisa de útil a dizer relacionado com o texto, na minha experiência. Por isso eu nem me envolvo mais com essa coisa de "grupo", pra não mais passar raiva ouvindo borracha.

De qualquer forma, interatividade, "olho no olho", discussão, "construção colaborativa do conhecimento" (como gostam de dizer na Academia), é uma ótima para a Escola Dominical. Eu sempre tento promover a maior quantidade possível de debate em sala de aula. Salutaríssimo! (mesmo que por aqui quase nunca vire debate de verdade na sala de adultos, no templo...)

Mas o Culto Divino não é lugar nem ocasião para isso, para debate, para "olho no olho", para "a minha opinião". Os americanos têm uma frase que expressa perfeitamente a minha opinião sobre isso: it's not about us!. O culto não é para nós, não é sobre nós, no sentido de que a preocupação, o foco, em momento algum, somos nós, mas sempre o Adorado. O "eu", o "meu ponto de vista", "o que eu sinto sobre isso" não tem importância NENHUMA!

Sim, eu concordo que existe, historicamente, e isso desde Calvino, uma centralização (excessiva?) na figura do Ministro durante a celebração litúrgica. Ele fala, ele ora e a igreja só diz amém. E canta. Só. Já se disse do Culto reformado que "a Liturgia do povo é cantar".

Quando a Liturgia ainda tinha algum equilíbrio, com os Salmos e hinos congregacionais distribuídos conforme, e ligados aos, diversos atos do Culto, até se amenizava um pouco a centralidade do Ministro e da prédica, da transmissão de conteúdo em detrimento da piedade, da devoção, da adoração.

Mas desde que o "momento de louvor" concentrou toda a participação do povo no início da celebração, deixando aí meia hora de "louvor" e uma de Sermão, e isso sendo toda a Liturgia, assistimos ao que o Marcos Botelho falou. O pastor fala uma hora (a maior parte dela de frivolidades, como o outro complementou) e o povo na verdade está babando desde os 15, 20 minutos iniciais.

Então a tal "Liturgia 2.0" oferece uma solução para um problema que não foi a Liturgia tradicional que criou, e que de fato se sente muito mais na tal "Liturgia contemporânea 1.0" do que na protestante tradicional, ou na cristã histórica. 

Muito mais do que preleção didático-catequética, do que aula de Teologia, palestra motivacional ou discurso moralista, o Sermão precisa voltar a ser visto como ato de Culto, como sacrifício de louvor que é oferecido, assim como todos os demais elementos do Culto. É a Palavra de Deus exposta, assim como as leituras públicas das Escrituras são a Palavra de Deus lida.

É importante que ele transmita conteúdo? Sim, é! Sem dúvida! Mas no Culto, transmissão de conteúdo não é o principal. É o principal na Escola Dominical, na catequese, no discipulado. Não no Culto. No Culto, o foco é a tributação de adoração ao Senhor, Nosso Deus!

Note-se que eu não excluo que se empregue novas mídias como auxílio ao Sermão, por exemplo. Já vi excelentes Sermões expositivos, em cujos exórdios foram empregadas imagens, pinturas, músicas e até mesmo vídeos, para ilustrar o argumento do pregador. Mas isso não pode se tornar o foco do Sermão, o seu fator identificador. "Ah, a Igreja X é legal porque o Sermão lá é todo multimídia e a gente debate ele lá na hora mesmo!"

Quanto à profundidade. Nossa geração assimila conceitos densos e abstratos sim, mas é preciso saber apresentá-los dentro desse "intervalo de atenção" (attention span) mais curto, de forma dinâmica, e saber amarrar tudo isso dentro de uma preleção ou prédica que não passe de 20 minutos, meia hora. Mas será que o Sermão, diante de toda a congregação (não apenas adultos, não apenas gente avançada que pode comer "alimento sólido") é hora e lugar para comunicar conceitos densos e abstratos?

No geral, eu concordo que pode ser necessário prestar algum dinamismo à execução da Liturgia hoje. Mas acredito que, ao contrário de limar "tudo o que está aí" e tentar reinventar a roda em plena era digital, a coisa a se fazer é justamente voltar à Liturgia histórica, apresentando-a de forma adequada aos nossos dias.

Não estou, portanto, sugerindo simplesmente trazer os códices de pergaminho com iluminuras, e corais masculinos que só fazem canto gregoriano em latim.

O que sugiro é pegar a Liturgia histórica, as grandes letras dos mais belos e profundos hinos, os responsos, a música, a dinâmica da dialética entre Oficiante e Povo, os gestos, os movimentos, os sons, os aromas, os sabores. Tudo isso pode ser apresentado de forma que faça sentido para os novos ouvintes.

Fala-se muito nos meios das igrejas emergentes em "criar uma experiência multissensorial", que envolva muito mais do que a fala e audição, como se fosse algo inovador, algo "novo, moderno e e revolucionário".

E já se disse por aí que a Liturgia evangélica, ou a protestante, parece feita para espíritos desencarnados, que não fazem nada além de ver e ouvir, e quando muito, cantar e bater palmas. A única diferença é se isso se faz com o povo de pé ou sentado, e mesmo assim já não há muito critério para essa mudança de postura.

Pois bem, sabichões: experiências multissensoriais no Culto já existem e são empregadas pela Igreja cristã, católica/universal há 2000 anos!

Tato? As posturas e gestos do ajoelhar, levantar as mãos ou postá-las juntas para a Oração, estendê-las para receber a bênção e fazer a Oração que o Senhor nos ensinou; até a Saudação da Paz (não "cumprimentar seu vizinho" ou dizer para ele frases-clichê gospel descartáveis, cunhadas para o momento, mas a perfeitamente bíblica "Paz de Cristo", a qual não exige nenhuma medida de hipocrisia de crente para ser dita sinceramente)... Talvez também a sensação de ser aspergido com água no rito do Asperges, ou mesmo de molhar a mão na Pia Batismal ao entrar no templo, relembrando com isso o próprio Batismo, que foi a entrada no Corpo de Cristo.

Olfato? Que tal resgatar o incenso? Ou ainda, assar o pão da Comunhão durante o culto?

Paladar? Que tal empregar pão e vinho de boa qualidade (como mandam os PL/IPB) em vez de cubinhos insossos de pão-de-fôrma e suco Del Valle? (e já vi igreja usar Ki-Suco na Comunhão).

Quanto à visão, que tal resgatar a boa arte e arquitetura sacra, sem qualquer intenção de veneração ou devoção à própria arte, mas para ilustração e reforço das verdades bíblicas? 

Enfim... eu concordo com a necessidade de maior dinânica no Culto, e até da multissensorialidade. Mas não posso compactuar com nada que coloque o foco da celebração no homem, em suas sensações e no que ele acha ou deixa de achar, sente ou deixa de sentir.

Desde a geração dos baby boomers, as pessoas ficaram, de certa forma, mimadas. Elas passaram a querer impor seus gostos e opiniões, e a de fato querer ser o centro das atenções em tudo. "O freguês tem sempre a razão" é um dos lemas dessa geração e das posteriores. E isso se impôs até à Igreja. O que tem orientado a Liturgia em muitos lugares  não é alguma proposta teológica, mas simplesmente atender aos gostos de alguma "fatia do mercado". E com esse cristianismo de mercado, não dá pra compactuar.

3 comentários:

Leon Gabai de Morais disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leon Gabai de Morais disse...

Du, ótimo texto! Precisas as tuas observações acerca da atual tedência de contextualiação do culto que seduz evangélicos e protestantes. Deveríamos, de fato, buscar não a reinvenção da roda, como você muito bem observou, mas resgatar a riquíssima herança litúrgica que o Cristianismo possui e lançar mão dela, buscando sua cuidadosa adaptação à cada realidade específica, nas dimensões culturais e geográficas e climáticas e etc.

Vandim disse...

De fato esse cara confundiu dinâmica didática de congresso com liturgia de culto. O Robinson Cavalcanti fez uma outra descrição da liturgia de Lausanne 3
veja: http://www.dar.org.br/bispo/50-artigos/1608-viagem-missionaria-a-africa-do-sul-xi.html