quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A Liturgia Evangélica 22: A Bênção

Por Michael "iMonk" Spencer.

The Evangelical Liturgy 22: The Benediction originalmente publicado em InternetMonk, 8 de novembro de 2009. Traduzido com permissão.

Estamos chegando ao fim desta série. Sinto-me muito honrado por todos vocês que seguiram conosco neste passeio. Espero que alguém tenha, com isso, pensado na glória perdida da tradição litúrgica protestante, e as muitas e maravilhosas conexões bíblicas, evangélicas e ecumênicas que são possíveis ao se restabelecer alguma forma dela no evangelicalismo.


A Bênção é a "boa palavra" que fornece ao culto público um encerramento formal. Para muitos cristãos, alguma versão de uma bênção bíblica comporá estas palavras finais, tais como a Bênção Aaraônica, que todos já ouvimos tantas vezes:

O Senhor vos abençoe e vos guarde; O Senhor faça resplandecer o rosto sobre vós e tenha misericórdia de vós; O Senhor sobre vós levante o rosto e vos dê a paz. (Nm. 6.24-26)
Há várias passagens bíblicas que foram originalmente compostas como bênçãos, ou que podem ser facilmente adaptadas para esse fim.

O ministro está pronunciando a bênção de Deus sobre o povo de Deus. Esse é um momento especial e poderoso no culto. Ele não deveria passar batido ou ser menos prezado. É a oportunidade de enviar o povo de Deus com a Paz de Deus e a Boa Nova do Evangelho sobre eles.

Em algumas tradições, a bênção vem combinada com um "envio" da congregação. O ministro diz "Eu vos envio para..." e diz alguma aplicação ou resumo do Evangelho do dia. Então pronuncia-se a Bênção de Deus sobre tudo quanto foi dito, e assegura-se o povo de Deus da sua presença, enquanto eles vão para viver o Evangelho de Deus no mundo.

A Bênção sofreu bastante no protestantismo quando alguém decidiu que era um momento oportuno para pedir a um membro da congregação para fazer uma oração final. Muitas dessas orações não têm conexão com a Palavra que foi proclamada, ou ainda, são repetições gastas de clichês de oração e trivialidades.


Na minha experiência, eu aprecio fazer o sinal da cruz e pronunciar a Bênção final como uma bênção trinitária do Deus Triúno sobre a congregação enquanto eles vão em paz ao mundo (eu também pronuncio uma bênção trinitária no começo ou no fim do sermão).

A disciplina de se empregar uma Bênção liturgicamente substancial traz consigo certo foco e seriedade quanto ao que aconteceu no culto.

Algumas igrejas conseguirão usar uma bênção musical de vez em quando. A congregação pode ser ensinada a entoar responsos cantados às Bênçãos bíblicas, ou um coro ou conjunto vocal pode cantar a bênção final.

Em nome do Pai, no amor de Cristo e no poder do Espírito Santo, ide ao mundo como o povo da esperança e servos do Evangelho e de todos quanto dele necessitam.

9 comentários:

Juan Pablo disse...

Eduardo, qual a posição das maõs correta para o ministro durante a bênção? Pergunto porque meu primeiro pastor na IPB, levanatava as mãos em sinal de oração. Quando lhe perguntei porque ele não as impunha sobre a Igreja, a resposta foi porque a o ministro não poderia abençoar ninguém, mas apenas invocar a bênção divina. No entanto maioria impõe as mãos, como normalmente se faz nas igrejas evangélicas. Qual o paepl do ministro nesse caso? Ele age in persona christis, ou não?
E quanto aos eclesianos? faz parte da tradição reformada levantar as mãos com as palmas para cima simbolizando o recebimento da bênção?

Eduardo Chagas disse...

Juan,

Eu não sei o que seu pastor faz com o "abençoarei os que abençoares", com o "será ligado no céu o que ligardes na terra" e outras passagens em que Deus claramente dá autoridade à sua Santa Igreja (e aos Ministros de sua Igreja, por extensão) de agir e produzir efeitos tanto na terra como nas esferas celestiais.

O que é a oração senão um ato praticado pelos cristãos como procuradores (embaixadores) de Cristo na terra? "Em nome de Jesus" significa MESMO "em nome de Jesus". Não disse Nosso Senhor que deveríamos pedir como quem já tivesse recebido?

Então, eu entendo que o Ministro da Palavra e dos Sacramentos, como despenseiro dos mistérios de Deus e como pastor de seu rebanho, tem plena autoridade de abençoar o povo de Deus, sim, inclusive empregando o gestual próprio. Não somos entes acorpóreos, que subsistem apenas no mundo das idéias, e nossos corpos não são apenas cascas para carregar nossas mentes.

O que eu pretendo usar: impetrar a Bênção (qualquer uma bíblica, seja aaraônica, seja apostólica) impondo as mãos sobre a congregação e concluí-la com em nome da SS. Trindade, fazendo sobre o povo o Sinal da Cruz. O estender as mãos sobre alguém em sinal de bênção remonta ao judaísmo e foi herdado pacificamente pelo cristianismo histórico. Já vi gravuras mesmo de puritanos, com suas togas negras e peitilhos engomados, do alto de seus púlpitos centralizados, impondo as mãos sobre o povo ao abençoá-lo.

Quanto ao povo com as mãos espalmadas para cima, até onde eu sei, isso era postura de humilde súplica muito antes das mãos em "orans", e acabou ficando reservado, com o tempo, para o recebimento de bênçãos (ou dA bênção, já que os protestantes costumam usar em geral só uma no culto).

Nilson disse...

Prezado Eduardo,

Sou amante da liturgia, (talvez por ter sido formado no catolicismo), mas percebo que um culto litúrgico parece distante da realidade de mts na igreja atual, inclusive dos mais jovens e das comunidades cujos membros são mais simples, não sei se esta é a realidade da sua localidade.
Realizando algumas pesquisas históricas, percebi que os cultos foram sofrendo alterações litúrgicas ao passar do tempo. A minha pergunta é: Será que o ritualismo e o cerimonialismo não foge da proposta simples do culto como era realizado na igreja primitiva? Será que no primeiro século, quando as igrejas se reuniam nas casas havia toda essa preocupação fundamentado na forma?
A visão do ministro como o mediador da benção apostólica não esvazia o sacerdócio universal dos crentes, como era defendido por Lutero?
Não estamos trazendo resquício de Roma?
Desde de já quero lhe dizer que pessoalmente eu gosto mt de liturgia, apenas estou analisando historicamente e teologicamente.
Quanto o sinal da cruz durante a impetração da benção, como presbiteriano eu nunca vi nenhum ministro fazer uso, achei bem interessante ...
Um forte abraço!

leandro disse...

Eduardo, tenho apreciado muito seu blog,
queria lhe perguntar como sua Igreja reagiu ao uso do sinal da Cruz?

Eduardo Chagas disse...

Nilson,

(...) percebo que um culto litúrgico parece distante da realidade de mts na igreja atual, inclusive dos mais jovens e das comunidades cujos membros são mais simples, não sei se esta é a realidade da sua localidade.

Eu acredito que não. Quem vem à Igreja, quem entra em um templo cristão, já está esperando algo diferente do "comum", do prosaico, do cotidiano, de tudo aquilo que se encontra "lá fora". Mesmo dos jovens.

Basta olhar o crescimento vertiginoso dos grupos carismáticos: eles não vão à Igreja buscando mais do mesmo, buscando a mesma linguagem e, nas reuniões, fazer a mesma coisa que já fazem lá fora em suas vidas cotidianas. Eles vão à Igreja buscando o diferente, o transcendente, o mais profundo. E isso pode se expressar tanto no "caos" dos pentecostais e carismáticos quanto na contemplação dos grupos que redescobrem a profundidade da liturgia.

Um colega meu dos tempos do colegial, à época ateu, dizia: se eu quiser ouvir música pop, rock, o que for, eu vou a um show. Se eu decidisse ir à igreja, seria para ver e ouvir algo diferente, que eu não posso ter fora dela.

Não sei como estão as coisas por aí, mas na minha cidade, os grupos tradicionalistas dos católicos (caminho neo-catecumenal, até a FSSPX) têm crescido quase tanto quanto os carismáticos. O que tem importado é a redescoberta do mistério, da profundidade, do contato com o transcendente, seja para tradicionais, seja para carismáticos.

As igrejas que estão se esvaziando são justamente as que caem no prosaico, que, à guisa de "acessibilidade", diluem toda a beleza da liturgia e não deixam nada de mistério, de contemplação, para quem se senta no banco.

No meio do protestantismo histórico, tenho visto muito dessa diluição nas igrejas tradicionais (explica-se tudo à exaustão até que não sobre mais mistério, ou ainda, elimina-se tudo o que possa ser "inacessível" para o visitante), e muita adesão ao pentecostalismo.

Essa terceira via, da busca pela transcendência por meio de uma liturgia coerente, ainda é rara no Brasil. Mas, na minha experiência, e eu tenho contato tanto com igrejas centrais quanto com congregações mais simples, a prática da liturgia histórica (sem excessos e afetações) vem sendo bem recebida. O público médio, a bucha-de-banco, recebe bem. Só quem costuma encrencar é quem tem uma agenda diferente (sobretudo "ministros" de louvor...)

Eduardo Chagas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eduardo Chagas disse...

Realizando algumas pesquisas históricas, percebi que os cultos foram sofrendo alterações litúrgicas ao passar do tempo. A minha pergunta é: Será que o ritualismo e o cerimonialismo não foge da proposta simples do culto como era realizado na igreja primitiva? Será que no primeiro século, quando as igrejas se reuniam nas casas havia toda essa preocupação fundamentado na forma?

Um ritualismo pelo ritualismo, uma preocupação com a forma dos rituais desvinculada de uma igual preocupação com a comunicação do seu conteúdo, certamente foge da proposta da Igreja primitiva. Mas o próprio Apóstolo S. Paulo foi pioneiro em se valer da profundidade do simbolismo dos rituais para comunicar uma teologia bem mais profunda.

Mas me preocupa um pouco a tendência de se enxugar o culto (e a teologia, e a eclesiologia) de todos os desenvolvimentos posteriores; esse minimalismo, essa vontade de resumir e restringir o culto ao mínimo possível e necessário. É como se nada, dos 2000 anos de experiências, lutas, vitórias e derrotas da Igreja, servisse para nós hoje. Nada do que passaram nossos pais e ancestrais na fé parece ter importância.

Curioso é que nessa "volta às origens", invariavelmente se chega ao resultado de grupos reunidos nos lares, uma rodinha em torno de uma mesa, que canta duas ou três músicas ao violão à guisa de "louvor" (independente do conteúdo das letras das músicas), então se lê um passo das Escrituras, cada um diz "o que esse texto quer dizer para mim", depois cada um compartilha seus pedidos de oração, e ora-se, em seqüência ou dividindo o grupo em duplas ou trios. Se houver Santa Ceia, o máximo de ritual será se alguém ler as Palavras da Instituição.

O curioso é o quanto isso é diferente da descrição que S. Justino Mártir faz da Liturgia em sua Primeira Apologia...


A visão do ministro como o mediador da benção apostólica não esvazia o sacerdócio universal dos crentes, como era defendido por Lutero? Não estamos trazendo resquício de Roma?

Creio que não. O sacerdócio universal dos crentes conforme concebido por Lutero não excluía o sacerdócio/ministério particular dos ministros da Igreja. São vocações, chamados distintos, como distintos são os dons e as funções dos diferentes membros do Corpo de Cristo. Tanto que em igreja luterana alguma se concebe, por exemplo, que um leigo celebre a Eucaristia.

Se formos considerar "clericalismo" o fato de o ministro ter papéis e funções litúrgicas diferentes das do povo, então temos de abolir absolutamente o ministério ordenado.

Quanto ao sinal da cruz, só conheço um ministro que tem esse hábito. No Brasil, nenhum (ainda!)... ehehehehe.

Abração!

Eduardo Chagas disse...

Leandro

Na minha igreja, não se faz o sinal da cruz (eu não sou pastor ainda).

Já fiz enquanto celebrava a liturgia, visitando uma congregação, e ninguém estranhou.

Abraço!

Maximiliano Gama disse...

Hey meu irmão, paz e bem!
Sendo bem direto e o mais claro que puder, responda-me:
Por quê deve o Ministro impetrar a banção, nesse caso, apostólica?
Já perguntei pra todo lado e ainda não obtive resposta!