segunda-feira, 29 de março de 2010

Paramentos

Por Douglas Wilson

Originalmente publicado em inglês em Credenda Agenda, em 19 de setembro de 2009.

Nota do Editor: Embora o Blog não subscreva todos os pontos de vista expressos pelo autor deste artigo, ele levanta alguns contrapontos práticos que geralmente passam em branco na reflexão dos partidários de um protestantismo reformado
high church.


Ao lidar com a questão dos trajes clericais, quer dentro do contexto de um Culto Público, quer fora dele, é difícil limitar a discussão a uma questão, apenas. Por exemplo, a questão de "usar paramentos" é uma questão. A questão de que esse uso seja obrigatório ou não, é outra, e ambas às vezes se sobrepõem. Nos estágios iniciais da Reforma inglesa, John Hooper voltou à Inglaterra no meio do reinado de Eduardo VI, e, dado o seu prolífico ministério no púlpito, foi-lhe oferecido o bispado de Gloucester. Ele declinou do cargo por ter escrúpulos quanto ao uso obrigatório dos trajes exigidos pelo Ordinal. Por sua recusa, foi lançado na prisão (por ninguém menos que Cranmer), e uma polêmica se iniciou.



Agora, uma questão é a dos paramentos propriamente ditos -- pode um ministro vestir trajes que o distingam como tal, no desempenho de seu ofício? Eu creio que a maior parte de nós diria "é claro". Mas no caso de Hooper, a questão dos paramentos estava totalmente emaranhada, pelo menos da forma que ele a concebia, com a questão da liberdade de consciência. Nessa polêmica, Ridley defendeu o uso dos paramentos como uma "coisa indiferente". Mas minha paráfrase da réplica de Hooper seria "se é tão indiferente assim, por que é obrigatório?". Nessa polêmica em particular, Hooper eventualmente cedeu, não por ter mudado de opinião, mas porque a força da oposição de seus colegas protestantes à sua postura fê-lo questionar se seria sábio morrer por essa causa em particular. Ele certamente não era covarde ou contemporizador -- mais tarde ele entregaria sua vida como um bispo-mártir fiel sob a tirania de Maria I, a Sanguinária; um sacrifício, esse sim, sobre questões mais fundamentais.

À oposição de Hooper à obrigatoriedade dos paramentos uniu-se o reformador polonês John à Lasco, e a eles se opuseram homens fiéis como Martin Bucer, Peter Martyr, Nicolas Ridley e Thomas Cranmer. E, na opinião de Cranmer, a questão não era, na verdade, usar ou não usar os paramentos, mas sim, quem deveria marcar o ritmo da Reforma das igrejas na Inglaterra. Então, para complicar mais as coisas, uma terceira questão foi misturada com as duas anteriores. Suponha, por um momento, que todos nós quiséssemos nos livrar desses paramentos. Isso deveria ser feito caso a caso pelos ministros que têm escrúpulos quanto a eles, ou deveria ser feito de maneira coordenada e conjunta entre a liderança estabelecida? Cranmer certamente enveredou pelo caminho de uma reforma completa e conjunta, mas [e justamente por isso] não queria certos indivíduos queimando a largada.

E, ao aplicarmos essas questões aos dias de hoje, temos de nos lembrar que "queimar a largada" inclui tanto aqueles que se recusam a vestir os paramentos, como Hooper, como aqueles que querem começar a vesti-los, como vem acontecendo com um número cada vez maior de ministros em nosso meio. Nestes estágios iniciais da história de um grupo como a CREC [Comunhão das Igrejas Evangélicas Reformadas dos EUA, N. do T.], um certo grau de variação e experimentação é inevitável, e não é com isso a minha birra. Mas nós devemos estar cientes da tendência quanto a pastores agindo individualmente, e igrejas agindo individualmente, cada um da forma que acha melhor a seus próprios olhos, criando uma mistureba genuinamente americana, e não uma verdadeira cultura litúrgica. Então, quando Cranmer trancafiou Hooper por se recusar a vestir os trajes adequados para sua ordenação como bispo, a questão, na verdade era quanto a quem ia definir o ritmo da Reforma.

Isso foi uma manifestação precoce das eternas questões que cercam aquilo que veio a ser chamado de "o princípio regulador", mas que na verdade é uma aplicação estritíssima dele.

Como à Lasco definiu, "Nada deve ser adicionado, no que concerne ao Culto Público, que Deus não haja determinado." Mas como dissemos, isso não apenas exclui os paramentos episcopais, mas também os pianos, coros, mulheres recebendo a Comunhão, bancos, púlpitos, cultos aos domingos e Batismo infantil. Talvez nós devêssemos modificá-lo para "Nada deve ser exigido, no que concerne ao Culto Público, que Deus não haja determinado." Nós podemos fazer certas coisas que Deus não ordenou que fizéssemos, como ter um Culto de Natal, mas teríamos dificuldades em justificar a disciplina de um membro da igreja que se recusasse a comparecer a tal culto. Fazer algo porque se tem liberdade de consciência para tanto é uma coisa. Exigir que outros o façam é um abuso da liberdade de consciência.

As questões que cercam tudo isso não são fáceis, e até agora nós temos três questões de peso -- o uso dos paramentos propriamente ditos, a questão da sua obrigatoriedade, e a questão da tomada conjunta dessa decisão. A essas três, eu adicionaria mais uma: a roupa é uma forma de comunicação, e uma na qual os cristãos evangelicais da América não são nada fluentes. Quando se está aprendendo uma língua nova pela primeira vez, sabemos que não faltam oportunidades para pagar micos. Eu me lembro de uma tirinha em que um garçom chega à mesa trazendo uma tremenda gororoba na bandeja. E diz: "É uma lista telefônica frita. Nós colocamos um nome chique em francês e você pediu!"

Deixem-me dar vários exemplos disso. É como os habitantes do Panamá, que só pensam que há dois tipos de frio: com neve e sem neve. Nós tendemos a acreditar que só existem duas categorias de trajes eclesiásticos: trajes eclesiásticos e trajes não-exlesiásticos. E, assim como os panamenhos, nós só aprendemos essa distinção pela leitura de livros sobre lugares que têm essas coisas. Mas para alguém nessa posição, uma vez tomada a decisão de usar paramentos, é isso e pronto. Me vê uma dessas belezinhas! Uma vez que você decide falar francês, simplesmente vá, dando ao seu discurso o embalo daquele je ne sais quoi. Sabe? Mas esse é um caminho perigoso para se trilhar. Já ouvi uma vez, o que provavelmente deve ser verdade, que os esquimós têm dezessete palavras diferentes para "neve".

É por isso que eu acho que a maioria de nós deveria tomar cuidado com a tendência de ser bem provincial, iletrado e bem americano com essas coisas. Quase todos de nós tomaríamos pau em uma prova que avaliasse o conhecimento sobre o uso e o significado de galões, casulas, roquetes, sotainas, albas (ou sotainas-albas, já que estamos nisso), e estolas. Eu sei que eu tomaria. E eu realmente acho que ninguém deveria começar a vestir essas coisas até entender toda a história e o significado de fazê-lo. Senão, ele pode se ver celebrando a Ceia do Senhor no equivalente litúrgico de uma cueca samba-canção, e a diversão será garantida quando seus parentes europeus aparecerem para uma visita. Mas se, e quando, o ministro souber o que é e de onde vem, é possível que ele não queira mais vesti-lo.

Então, se você começou a pregar de toga, você usa também uma estola, ou não? E se usa, o faz porque é isso que a Murphy Robes mandou no catálogo? Sabia que, na Igreja da Inglaterra, uma das coisas que distinguiam um candidato evangélico às Sagradas Ordens, era sua vontade de ser ordenado com um tippet, e não com uma estola? E note-se que o tippet ainda dá vitória ao argumento em favor de trajes clericais. É claro, se o carteiro e os jogadores de futebol vestem uniformes, porque não podemos também? Mas esse argumento dos uniformes com freqüência se esquece de que o uniforme não apenas distingue os jogadores de um time daqueles que não são jogadores. Eles também distinguem os jogadores de diferentes times um do outro. Aliás, é essa a sua principal função. Em nosso meio, às vezes falamos como se a única função dos trajes clericais fosse distinguir o clero do laicato. Mas há diferenças entre luteranos e anglicanos, e entre ortodoxos gregos e católicos romanos, e entre metodistas e presbiterianos. E em muitos lugares, há diferenças entre os trajes dos evangelicais e dos não-evangelicais. Eu não estou convencido de que já saibamos o bastante sobre isso. Ainda não sabemos francês o bastante para começarmos a pedir coisas do menu com qualquer grau de confiante extravagância.

Nós devemos estar confortáveis com a diversidade confessional dentro do mundo reformado, claro, e o mesmo vale para a diversidade litúrgica dentro deste mesmo mundo. Mas não deveríamos tentar estabelecer as fronteiras no mapa segundo esses dois critérios diferentes (confessional e litúrgico), senão vamos acabar com dois tipos de fronteiras diferentes, todas conflitantes. Se deveríamos excluir uma confissão anglo-católica, como eu creio que deveríamos, então deveríamos excluir também os ritos anglo-católicos, porque os ritos são poderosos o bastante para trazer consigo a mais apropriada confissão. Não podemos usar dois pesos e duas medidas, dizendo que os ritos (incluindo os paramentos clericais) são agentes poderosos de mudança, quando argüímos a seu favor, mas dizer que são coisas indiferentes e uma simples questão de pano, ao respondermos às objeções.

O ritual é poderoso, e vai dar a forma das sensibilidades religiosas de gerações futuras de maneiras que nós nunca podemos prever inteiramente. Este é o jeito que as coisas funcionam. Mas certamente alguém deveria tentar planejar isso? E em uma questão como o traje dos ministros etc., não deveria a Igreja, como corpo coletivo, ser a entidade que irá fazê-lo? Eu creio que nossas práticas litúrgicas são pelo menos tão importantes quanto nossas confissões de fé, mas temos as alterações em nossa confissão cercadas com arame farpado e campos minados, enquanto alterações fundamentais na nossa liturgia podem ser feitas à vontade do pastor. Isso não é exatamente inteligente. O ritual é poderoso, e rituais diferentes no nosso meio vão, eventualmente, resultar em culturas diferentes. Isso inclui os trajes rituais que adotamos. Por exemplo, uma cultura resultante de um anglicanismo litúrgico é bem diferente de uma cultura resultante de um presbiterianismo litúrgico, ou de uma forma de culto reformada, então, o que quer que façamos, devemos fazer de propósito, e não ao acaso. Aqueles que pensam igual agora deveriam tentar fazê-lo juntos. Por que deveríamos nos empenhar para nos parecer com nossos primos de terceiro grau, que provavelmente não sabem ou não se importam com o que estamos fazendo, mesmo, quando fazê-lo pode causar atritos nas nossas relações com nossos irmãos e irmãs que não estão tão inclinados a ir nessa direção?

Agora, não estou escrevendo isso como alguém que tenha algum tipo de fobia contra vestir trajes clericais. Sempre que fui, como pregador visitante, a uma igreja onde o ministro normalmente prega de toga, eu me alegrei em também fazê-lo, e esta tem sido a minha política já há trinta anos. Eu vesti uma beca de coralista quando era garoto, e visto uma toga acadêmica na faculdade New Saint Andrew's toda semana. Ocasionalmente, quando o casal de noivos pede, eu uso a toga ao celebrar seu casamento.

Quando um amigo meu, companheiro de opinião de John Hooper, me cutuca por isso, eu simplesmente digo que gosto de me vestir como John Knox de vez em quando. E, ainda por cima, temos de ter em mente que alguém poderia argumentar que as roupas com que eu normalmente prego -- terno e gravata -- são o uniforme de um vendedor de seguros. Será essa a mensagem que queremos passar com essa roupa? Eu até diria que sim, desde que estejamos falando de seguro de incêndio...


Então, deixem-me reconhecer que eu estou convencido pelos argumentos. Não tenho problemas com os ministros que desempenham seus ofícios togados, nem com ministros que vestem colarinhos clericais em público, desde que eles não saiam por aí dirigindo como porraloucas e mostrando os dedos para os demais motoristas.

Eu simpatizo com os argumentos teológicos em favor dos trajes clericais; pode-se achar bons exemplos deles em The Lord's Service, de Jeff Meyers. E também compreendo a atração das "histórias de colarinho". Nos meios em que circulo, entre um terço e metade dos ministros usam o colarinho, e as oportunidades que isso cria para o ministério com estranhos são simplesmente extraordinárias. Não muito tempo atrás, minha esposa e eu estávamos em uma conferência, e o ministro da igreja que a estava sediando foi nos buscar no hotel. Ele usava um colarinho e, quando entrou no hotel, um garotinho correu atrás dele no corredor e perguntou, sério, se ele precisava ir à igreja para ir pro céu.

Essa é uma parte tão marcante de se usar o colarinho que eu me surpreendo da Campus Crusade [um equivalente conservador norte-americano da ABU brasileira, N. do T.] não exigir que todo o seu pessoal use. Meu pai tem o dom do evangelismo, e é do tipo que, antes de uma viagem de avião, enche a mala de literatura evangelística, incluindo algum material em urdu, e acontece de se sentar do lado de um falante nativo de urdu. Me assusta pensar o que aconteceria se ele começasse a usar o colarinho.

Por ser eu um simpatizante, e porque eu freqüentemente me encontro em circunstâncias em que um monte de meus colegas estão "enternados" para a ocasião, eu preciso sempre responder a questões sobre os meus motivos de me abster dos paramentos. E conquanto eu esteja dispondo essas minhas preocupações, é importante notar que eu estou trabalhando com generalizações; não estou falando de qualquer ministro em particular. Parando para pensar, um número de contra-exemplos vem à mente. E, ao mesmo tempo, acho que há algumas coisas que ainda não resolvemos por inteiro. As quatro preocupações que eu levantei acima estão na lista, mas há pelo menos mais uma questão grande para mim.

Quando se adotam os trajes clericais, se está adotando junto as tentações que vem com eles. Isso não é um argumento contra o seu uso, de forma alguma, mas é um argumento contra aqueles que não acreditam que haja ou possa haver tais tentações. Como costumo dizer, quando alguém se matricula em um curso de matemática, a primeira coisa que se vai encontrar são todos aqueles problemas de matemática. A pessoa que diz que esses cursos devem ser evitados por causa dos problemas ("você já pensou no tipo de problemas que vai ter de resolver?!") tem obviamente uma abordagem bem estreita da vida. Mas tem outro tipo de pessoa com uma visão ainda mais estreita: a que se matricula no curso na certeza e na plena convicção de que é impossível que haja problemas de matemática. Pelo contrário, confie na pessoa que se matricula no curso, sabendo que ele vai ser dureza.

Então, o que pode ser dureza no que diz respeito a vestir ou não trajes que distingam o clero? Há algumas questões, pelo menos, que eu acho que tenho espaço para abordar aqui. Primeiro, Jesus falou de um certo tipo de carinha religioso, o "socialite emergente eclesiástico", caçador de honras e glórias para si mesmo.

"Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes talares e muito apreciam as saudações nas praças, as primeiras cadeiras nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes; os quais devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem longas orações; estes sofrerão juízo muito mais severo" (Luvas 20.46-47).

Qualquer um que acredite que esse tipo de personalidade já desapareceu da Igreja é do mesmo tipo de pessoa que acredita que ninguém jamais erra um problema de matemática. E quando Jesus fala das "vestes talares", ele estava na verdade atacando a "atitude talar" de quem as vestia, não os trajes em si mesmos. Ele mesmo estava trajando uma túnica talar quando disse isso. O tipo de pessoa que adora ser chamado de Reverendo Fulano de Tal é o mesmo tipo de pessoa que adorava ser chamado de Rabino Fulano de Tal, e que adora ir a jantares de premiação, e a oportunidade de encher qualquer igreja com suas sonoras invocações ao Todo-Poderoso. Mas vale dizer, eu tenho plena consciência de que esse tipo de personalidade existe também nos ambientes low church: o Irmão Sicrano, que insiste em não ser chamado por título algum, do mesmo jeito que os pistolas-altas do Politburo soviético adoravam ser chamados de camaradas. Mas o fato de que outras pessoas são tentadas pelo mesmo problema em outras situações não é argumento para se baixar a guarda.

É uma tendência humana universal, estar bem ciente dos problemas que se acabou de escapar, e não muito das tentações que se está prestes a encarar. Mas as tentações à frente são sempre as que podem te pegar. Eu estaria muito mais tranqüilo com a volta dos trajes clericais se aqueles que a estão promovendo fossem os que vigorosamente levantassem suas objeções e possíveis armadilhas. Isso significaria, por exemplo, que quando os mais exagerados dos nossos começasse a andar por aí mais empinado que cavalo de desfile, e quando a sua cruz peitoral fosse pesada o bastante para dar ao seu quiroprata alguns desafios únicos de alinhamento, ele deveria estar levantando questões afiadas dos seus colegas de toga, não apenas da tia Marta, a batistona. Isso não é uma impossibilidade: deveríamos pegar para nós essa página do manual do Bispo Jewel, que consentiu em vestir os trajes episcopais pelo bem do Evangelho enquanto manteve para si o direito de falar de alguns de seus aspectos como "bobagens" ou "um grande e ridículo bolo de noiva".

Ou, como John Milton uma vez notou, ao refletir sobre um certo tipo de desfile eclesiástico:

"Eles exigiam de nós que suportássemos o farfalhar de suas sotainas de seda, e que nos segurássemos em vez de explodir em gargalhadas ao assisti-los desfilando de capas, rendas e bordados pelo jardim, com paralelogramos em suas cabeças".

Em suma, existe um tipo de paramento clerical que está para os trajes clericais decentes, assim como desmaiar bêbado na sarjeta está para a taça de vinho no almoço em família no domingo. O fato de que ambos envolvem álcool são um bom motivo, na cabeça da tia Marta, para evitá-los ambos, o que, é claro, não tem sentido. Mas deveríamos estar igualmente preocupados com o cidadão que põe tudo no mesmo saco igual a tia Marta, mas para aprová-los. Mas qualquer um que não acha esse tipo de pavoneamento religioso risível deve ter um coração de pedra, e provavelmente deveria ficar de fora da questão.

Minha segunda preocupação nesse âmbito é onde os mal-entendidos são possíveis e prováveis. Mas antes de atacar a questão, deixem-me reconhecer que há uma multidão de contra-exemplos que me ocorrem.

Dito isto, minha preocupação é com a efeminação. Não que os trajes e paramentos clericais a tragam em si mesmos; mas sim o que eles são na nossa cultura, e as conotações que esses trajes levaram séculos para adquirir.

O traje é linguagem, e assim como as palavras, as peças que usamos têm igualmente denotação e conotação. Como disse acima, estou convencido pelos argumentos quanto à denotação. Mas ao falarmos em público, devemos estar cientes, e termos cuidado, com as conotações daquilo que dizemos. Se eu entabulasse conversa com um estranho no aeroporto enquanto esperasse um avião, e ele me perguntasse o que eu falo, eu não responderia que sou um "bispo". Eu evitaria essa palavra totalmente por causa das conotações. Eu poderia facilmente defender um argumento sobre a denotação (episkopos e presbyteros no Novo Testamento são usadas intercambiavelmente, CQD, e pronto. Mas as conotações ainda fariam o negócio afundar, e eu provavelmente não teria tempo de explicar meu argumento.

A denotação do colarinho é bem óbvia. Este é um homem separado para o ministério e vocacionado para o serviço de Deus e da Igreja. É por isso que o colarinho levanta tantos comentários e perguntas, e isso é uma coisa boa. Mas também há um monte de pressupostos de fundo, conotações, que são parte da mistura, e qualquer um que queira oficiar como um ministro bíblico precisa nadar contra a corrente em um grande rio de pressupostos culturais sobre os ministros e seu ministério.

E precisamos reconhecer que esses pressupostos se alinham com a identificação cultural dos clérigos como o "terceiro sexo". Como não existe, na verdade, um terceiro sexo, para os homens isso se traduz numa forma bem estranha de efeminação. Os homens que usam o colarinho, ou vestem a toga, precisam cuidar melhor da sua projeção de masculinidade do que alguns andam fazendo. Sim, a denotação diz que você é um ministro de Deus. Mas o que dizem as conotações sobre o tipo de homem de Deus que você é?

Aqui é que os contra-exemplos vêm à mente. Eu conheço um ex-fuzileiro naval que usa o colarinho, e o efeito não é problema algum. Muitos dos homens que eu conheço que usam colarinhos o fazem de uma forma bastante masculina. Me lembram de um certo tipo de clérigo em Wodehouse que lutava boxe ou remava quando estudou em Oxford e desempenhava seus deveres clericais com um entusiasmo forte. Mas o motivo da imagem de Wodehouse ser engraçada é que ela é uma distorção inesperada da reputação popular do homem do clero, uma reputação que em boa parte é merecida, e que devemos levar em conta.

Há exceções óbvias, e ministros de verdade precisam mesmo ser durões, mas ainda assim, a reputação dos ministros como homens meio frouxos não é de todo injusta. Gerações de "o jovem mais bonzinho da igreja" foram induzidos pelas senhoras da igreja a considerar o sagrado ministério, e por que essa é uma vocação que (diz o senso comum) não envolve juntas sangrando, e envolve ser muito legal com as pessoas, a igreja passou a considerar esses "rapazes bonzinhos" como os melhores candidatos ao ministério.

Todos nós conhecemos o tipo, da vida real e da literatura. Os retratos literários são, às vezes, caricatos, e injustos por isso, mas ainda assim eles repercutem em nós, e funcionam, por um motivo. E esse motivo é que essas caricaturas batem com algo que todos nós já vimos na vida real. Desde o salmodiador David nos contos de Cooper, ao Reverendo Kinosling dos contos de Penrod, passando pelo Mr. Collins de Orgulho e Preconceito, nós ministros deveríamos aproveitar a oportunidade de nos olharmos como o mundo nos olha. Precisamos refletir sobre isso mais do que queremos. Quando a briga com os índios esquenta, "o vigário" é quase sempre acanhado e inútil. E quando não é, todo mundo fica surpreso.

O negócio é o seguinte: quando um homem veste o colarinho, ele precisa saber que uma certa gravidade masculina é necessária para evitar que o colarinho o arraste (por associação e por conotação) pra uma direção que ele não quer ir. Se ele tem essa gravidade e está ciente das muitas conotações associadas ao clericalismo (e familiar com o anti-clericalismo que resulta delas), eu creio que vestir a toga ou o colarinho pode ser uma coisa muito boa para ele. Legal, vai fundo. Mas a menos que nós tenhamos essa conversa de forma aberta e ampla, outros vão imitá-lo sem pensar muito no assunto, e alguns destes que vão imitá-lo vão ser do tipo frouxo, afrescalhado e afundado até o pescoço na sua efeminação. E quando eles vestirem o colarinho, isso vai terminar de puxá-los pro fundo. Eles já têm a tendência que criou a caricatura em primeiro lugar; são os rapazes bonzinhos que foram pro seminário empurrados por todas as tias da SAF, e então adotam um uniforme que tem tudo a ver com as conotações que o mundo em torno delez faz. Estava assistindo um "reverendo" muito bonzinho outro dia sendo entrevistado na televisão, e ele era tão gentil que só faltou dar tapinhas nas costas da mão da platéia. Estava óbvio, e o colarinho deixou ainda mais óbvio.

Agora, eu sei que alguns dos leitores são abençoados em nunca terem passado por nada disso que eu estou falando, e para eles vai parecer que eu estou falando bobagem. Estou feliz por eles. Eles cresceram com um pastor luterano que foi SEAL da Marinha Americana antes do seminário, um homem que deixava uma escarradeira na sacristia, e a conclusão natural é de que o Wilson está exagerando na reação. Tão exagerado que a gente está meio que desconfiando da masculinidade dele, não é não?

O problema do pavoneamento que eu mencionei acima é um mais facilmente reconhecido e lidado com, se não por outro motivo, porque os opositores do uso de trajes clericais já terem levantado todas as passagens pertinentes, e o assunto pelo menos já foi discutido. Mas o nosso problema com séculos de ministros efeminados não foi ainda amplamente reconhecido dentro da Igreja, e ainda é um problema bem arraigado no Ocidente. Eu tenho em alta conta a vocação ministerial, e creio ser esta alta opinião bíblica, mas também creio que um certo tipo de clericalismo foi largamente responsável pela ascenção de um violento anti-clericalismo. Antes de restaurarmos as formas adotadas da primeira vez, não deveríamos discutir o que deu errado?

Um comentário:

Bia disse...

Embora o autor tenha tido um amplo exercício para se mostrar "tolerante" com posições diferentes das suas, escorrega terrívelmente em seu preconceito. Me pareceu extremamente equivocada e machista a associação de trages liturgicos ou clericais a "feminização".