Revm.º Peter D. Robinson
(tradução do artigo A conservative Reformation, part IV, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. +Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).
Nos últimos anos, tem havido persistentes tentativas de se jogar para escanteio os Trinta e Nove Artigos de Religião (daqui pra frente, simplesmente "os Artigos"), sobretudo pelos defensores da teologia liberal. Como resultado, a maior parte do clero anglicano não tem contemplado os Artigos tão de perto como talvez devessem. A postura de muitos parece ser a de que eles são irrelevantes, ou então, aquela vista em Oscar Wilde, que, solicitado a subscrever os Artigos quando entrou para a universidade, respondeu "Eu subscrevo até quarenta, se quiser!". Os mais moderados pelo menos têm a sabedoria de ver que os Artigos precisam ser lidos em seu contexto. E esse contexto é, claro, a atmosfera teológica dos cinqüenta anos que precederam 1563.
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quinta-feira, 3 de setembro de 2009
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Uma Reforma bem conservadora, parte III
Revm.º Peter D. Robinson
(tradução do artigo A conservative Reformation, part III, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. +Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).
As duas peças-chave do Acordo Isabelino (Elisabetano) eram a revisão de 1559 do Livro de Oração Comum de 1552, e os Artigos de Religião. Ambos definiram a tônica teológica para a Reforma Inglesa ao fornecer a liturgia segundo a qual a Igreja deveria orar diariamente, e o padrão doutrinário ao qual o clero deveria subscrever e aderir.
(tradução do artigo A conservative Reformation, part III, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. +Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).
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| A Sagração do Arcebispo Matthew Parker no Palácio de Lambeth, 17 de dezembro de 1559. |
As duas peças-chave do Acordo Isabelino (Elisabetano) eram a revisão de 1559 do Livro de Oração Comum de 1552, e os Artigos de Religião. Ambos definiram a tônica teológica para a Reforma Inglesa ao fornecer a liturgia segundo a qual a Igreja deveria orar diariamente, e o padrão doutrinário ao qual o clero deveria subscrever e aderir.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Uma Reforma bem conservadora, parte II
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| O Livro de Oração Comum de 1559 |
(tradução do artigo A conservative Reformation, part II, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. +Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).
As convicções religiosas de Isabel parecem não ter sido uma grande força motriz em sua vida pelos padrões da época, mas ficava claro, não obstante, que ela preferia o protestantismo. Ela tinha sido, afinal, educada por humanistas cristãos de persuasão reformada, como John Cheke, e ela dissimulou, quanto à questão religiosa, tão bem quanto somente ela sabia dissimular, ao longo de todo o reinado de sua meia-irmã. Mesmo que ela tivesse tido uma educação menos protestante, visto que a Igreja Romana havia declarado o casamento de sua mãe inválido, e ela mesma uma bastarda, ela não estava predisposta a permanecer sob obediência papal. Ficou claro, portanto, que tão logo quanto possível ela repristinaria o Ato de Supremacia como o primeiro passo em direção à definição da questão religiosa. A Inglaterra logo rompeu com Roma, tendo o Parlamento declarado Isabel "Governadora Suprema... na terra" (e não "Cabeça Suprema", como se acredita popularmente) da Igreja da Inglaterra. Aí passa-se um curioso período de inércia de alguns meses, enquanto Isabel faz pesquisas e permite que o novo rompimento com Roma se consolide. Parece ter havido uma espera necessária, primeiro pelo recesso de Natal do Parlamento e, segundo, para permitir que Isabel e o Gabinete preenchessem as dioceses vacantes, já que todos os bispos de Maria, menos dois, renunciaram ou foram despojados.
O sinal mais claro de onde a política religiosa de Isabel levaria foi a Conferência de Westminster, ocorrida no início de 1559, projetada como um sinal de reaproximação do campo protestante. Ao mesmo tempo, o segundo Livro de Oração Comum de Eduardo VI começou a reaparecer em algumas paróquias-chave, e alguns mais entusiastas começaram a livrar as igrejas dos "ídolos", antes do Governo proibir essa destruição arbitrária.
Alguns meses depois, quando o Ato de Uniformidade apareceu, ele era basicamente uma restauração do status quo conforme era em 1552-3, exceto pelo fato de que Isabel e seu Gabinete fizeram várias emendas conservadoras ao LOC de 1552. Primeiro, "os coros deveriam permanecer como anteriormente"; segundo, os paramentos tradicionais foram restaurados; terceiro, a Rubrica Negra foi removida e as palavras "O Corpo/Sangue do Senhor Jesus Cristo, que foi partido/vertido por ti, preserve teu corpo e alma para a vida eterna" foram adicionadas ao Prefácio da forma mais reformada de 1552; e, por último, a condenação do Papa foi removida da Litania. Todas essas mudanças afastaram a igreja de uma posição mais estritamente reformada, tornando possível alcançar e conciliar os luteranos ingleses.
Para Arcebispo, Isabel escolheu Matthew Parker. Nascido em Norwich a 1504, Parker foi o capelão de Ana Bolena e, então, de Henrique VIII. Ele foi Deão de Stoke-by-Clare de 1536 a 1546, mas depois que o Colégio foi dissolvido no ano seguinte, ele se casou e mudou-se de volta para Cambridge. Foi conhecido por ser um defensor moderado da Reforma, mas depois de ser removido de seu cargo eclesiástico em 1553, foi-lhe permitido viver tranqüilamente em sua fazenda em Suffolk durante o reinado de Maria. Parker era moderado, mas protestante convicto, com uma carreira acadêmica destacada em Cambridge, e foi amigo tanto de Peter Martyr quanto de Martin Bucer. Isabel e Cecil tiveram de trabalhar longamente para convencer Parker a concordar com sua nomeação a Arcebispo da Cantuária, mas ele finalmente a aceitou, e foi consagrado em 19 de dezembro de 1559.
Parker não teve muito tempo para audiências como Arcebispo já que, dentro em poucos meses, ele e seus irmãos bispos publicaram algumas injunções provisórias, modificando certos dispositivos do LOC/1559 concernentes aos paramentos. Isabel também ordenou a restauração de cinqüenta das festas menores do calendário - sem fazer provisões litúrgicas para elas -, proibiu pregações polêmicas e limitou o número de pregadores licenciados. Parker também se esforçou em fazer o pesado maquinário da Igreja da Inglaterra funcionar como uma Igreja reformada.
As fases 1 e 2 do Acordo de Isabel - a Lei de Supremacia e a Lei de Uniformidade - parecem ter encontrado pouca oposição, e não muito entusiasmo. Nos dez anos anteriores, houve quatro grandes mudanças de religião, de modo que a maioria das pessoas estava preparada para ir às suas igrejas e participar do que quer que fosse feito ali. A cuidadosa implementação do Acordo por Isabel e Parker manteve tanto luteranos quanto reformados a bordo, na busca de uma via media entre Wittenberg e Genebra. No entanto, ainda havia a necessidade de produzir algum tipo de declaração doutrinária, o que foi conseguido em uma sessão conjunta das Convocações de Cantuária e York no inverno de 1562-63.
Parece quase certo que o Arcebispo Parker foi a luz-guia na reestruturação dos Quarenta e Dois Artigos de Cranmer para os Trinta e Nove Artigos. Nisto, ele foi auxiliado por Edmund Grindal, Bispo de Londres. As coisas já haviam progredido um pouco nos nove anos anteriores, já que a ameaça anabatista havia recedido e o Concílio de Trento se aproximava de seu fim. A nova redação dada por Parker aos Artigos removeu muitas das referências aos anabatistas, enquanto respostas a alguns dos decretos já publicados de Trento foram incorporadas ao texto. O projeto final foi apresentado a uma Convocação que se encontrava com uma disposição reformada e reformadora. Uma proposta pela remoção dos órgãos das igrejas foi rejeitada por estreita margem, então é de surpreender que os Trinta e Nove Artigos tenham passado pelo necessário debate relativamente incólumes. A Rainha, no entanto, vetou o Art. 29, por ser ofensivo aos luteranos e outros que sustentavam a doutrina da Presença Real antes de 1563. Isto deve ter irritado alguns dos espíritos mais ardentes da ala reformada, mas foi um aborrecimento curto, já que o artigo foi repristinado em 1571, quando a influência do luteranismo na Inglaterra diminuiu, e com ela a necessidade de agradar aos "papistas" da Igreja.
Os Trinta e Nove Artigos, da forma como saíram da Convocação de 1563, são um documento interessante. Parker estava procurando consenso, e na maior parte dos Artigos, parece mais próximo ao espírito da Confissão de Augsburgo do que das várias confissões suíças dos trinta anos anteriores. Os luteranos perderam com o (brevemente suprimido) Art. 29, que adota uma posição claramente reformada. Por outro lado, o conceito luterano de adiáfora - que cerimônias que não sejam claramente contrárias às Escrituras podem ser regulamentadas pela Igreja - está firmemente entrincheirado nos Artigos, o que marca uma séria derrota do partido calvinista.
Os Artigos marcam, de fato, o fim da fase legislativa do Acordo Isabelino (Elisabetano). Teoricamente, a Igreja da Inglaterra tinha uma liturgia reformada, mas empregando ainda os paramentos tradicionais. Os interiores das igrejas deveriam ter sido mudados apenas com a remoção dos altares, crucifixos, gradis de suporte para os crucifixos e as imagens supersticiosas, que deveriam ser substituídas com frases decorativas das Escrituras pintadas nas paredes das igrejas. Sua teologia era protestante, trilhando um caminho intermediário entre o luteranismo e a posição reformada. Seu governo permaneceu nas mãos dos Bispos, em sucessão apostólica, e os territórios e circunscrições das antigas dioceses e paróquias foram mantidos como dantes. Na prática, no entanto, houve concessões de parte a parte.
Para começo de conversa, a eliminação extra-oficial de objetos supersticiosos freqüentemente foi além do estritamente necessário. Órgãos foram removidos de algumas igrejas e deixaram de ser usados em outras. A música sacra estava em uma maré baixa. As igrejas eram cada vez mais empregadas como dois ambientes distintos: a nave para as orações Matutina e Vespertina, e o coro para a Ceia do Senhor. Os paramentos, que não o conjunto de batina, sobrepeliz, capa de asperges, tippet e capuz, parecem ter desaparecido de muitas áreas e não retornariam senão em tempos mais modernos. Alguns ministros - particularmente aqueles da linha que viria a se chamar puritana - omitiam partes da liturgia do LOC para deixar mais tempo ao sermão. Parker agiu contra tais abusos de várias maneiras.
Primeiro, ele deixou claro que a música sacra simples em inglês deveria ser encorajada. Esta provisão foi, depois de alguma hesitação, abraçada com entusiasmo e, gradualmente, as grandes liturgias corais que associamos com o anglicanismo se desenvolveram, vindas da pena de grandes compositores como Thomas Tallis e William Byrd para o uso das catedrais e da Capela Real de Isabel. Parker também promoveu a compilação da "Versão Antiga" dos Salmos de Davi metrificados, um incidente que levou a Igreja da Inglaterra a se tornar uma igreja de salmodia exclusiva em muitos lugares até meados do ano de 1800.
Em segundo lugar, ele e o Arcebispo Grindal de York ordenaram que a Oração Matutina, a Litania e o Culto de Comunhão deveriam ser lidos como um só, em sequência, nas paróquias. Isso facilitou aos magistrados que encontrassem omissões. Isso também levou ao tipicamente anglicano "Culto a seco" de Matinas, Litania e ante-Comunhão, terminando com um sermão. Devido à inércia dos fiéis e a regra reformada de que "não haverá missa sem comungantes", as celebrações da Santa Comunhão caíram em freqüência para uma vez ao mês, uma vez por bimestre ou quadrimestre, dependendo do tamanho da paróquia. Algumas paróquias em cidades grandes e as catedrais mantiveram as celebrações semanais.
Em terceiro lugar, em uma tentativa de assegurar a uniformidade de cerimonial, o Arcebispo exigiu o uso de batina, sobrepeliz, tippet e capuz em todos os cultos das paróquias. Também exigiu o uso da capa de asperges em catedrais e igrejas colegiadas. Paramentos eucarísticos foram deixados desaparecer discretamente, mas permaneceram legais.
Gradualmente, essa via media anglicana consolidou-se para se tornar a religião da Inglaterra, embora no século seguinte (até depois de 1662), tenha havido uma agitação persistente por uma reforma mais extensa para firmar a Inglaterra no campo reformado ou calvinista.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Uma Reforma bem conservadora, parte I
Revm.º Peter D. Robinson
(tradução do artigo A Conservative Reformation, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).

Tem havido um esforço bem coordenado, nos últimos 175 anos, por parte de uma facção da Igreja Anglicana, em negar a herança protestante do episcopalismo ortodoxo. Isto geralmente tem tomado a forma ou de uma tresleitura intencional dos Trinta e Nove Artigos de Religião (por exemplo, o Trato XC, de J. H. Newman), ou, mais recentemente, da negação pura e simples de que eles tenham qualquer relevância para a igreja moderna. Conquanto eu discorde fortemente dos argumentos contidos no Trato XC, é verdade que precisamos colocar os Artigos em seu contexto histórico, para podermos compreender plenamente o que o Arcebispo Matthew Parker e as Convocações de Cantuária e York estavam tentando fazer em 1563.
Teologicamente, os Reformadores protestantes se dividiram em três grupos. Para fins de argumentação, chamemo-nos de Biblicistas Conservadores, Biblicistas Moderados e Biblicistas Radicais. Os conservadores foram encabeçados por Lutero, e incluem outros grandes nomes como Melanchton, Bugenhagen, Olaus Petri e a maioria dos primeiros reformadores ingleses -- Barnes, Tyndale etc. Os moderados respondem pelos Reformadores da Suíça e do Reno, como Calvino, Bucer, Ecolampádio, Peter Martyr e Bullinger. O campo radical consiste de pessoas como Carlstadt e Miguel Serveto, que em última análise começaram a repensar até os Credos. O campo radical eventualmente se fechou em um canto e sobrevive hoje apenas em grupos biblicistas radicais como os Amish e os menonitas. Eles têm um primo distante no mainstream na forma das várias igrejas batistas, mas, em geral, sua tradição acabou se tornando bem marginal. Por outro lado, os biblicistas conservadores e moderados acabariam por formar o mainstream da Reforma européia.
O motivo disto é que as várias Igrejas estatais se encaixavam, grosso modo, em dois grupos. Os Biblicistas Conservadores conduziram seu próprio tipo de Reforma no norte da Alemanha e Escandinávia, dando a esses países uma herança evangélica luterana. Os suíços logo abandonaram algumas das posições mais extremadas de Zwínglio e conduziram uma Reforma mais moderada no quesito "somente a Bíblia" em seus cantões, que se disseminou para Estrasburgo, vários Estados da Renânia, norte da Holanda e Escócia. A Igreja inglesa se encaixou em algum lugar entre esses dois campos, conferindo alguma veracidade ao velho ditado de MacCauleuy sobre a Igreja da Inglaterra. Parafraseando-no para aproximá-lo à realidade, seria justo dizer que o Anglicanismo acabou ficando com "uma hierarquia católica, Artigos bucerianos e uma liturgia luterana". Por que isso?
Entre as décadas de 1530 e 1540, parecia que a Inglaterra eventualmente acabaria adotando uma forma conservadora de luteranismo, próxima à da Suécia. O Arcebispo Cranmer era luterano, bem como a maioria dos partidários influentes da Reforma até então. No entanto, por volta de 1545, idéias reformadas, vindas especialmente de Estrasburgo e da Renânia (e não diretamente de Genebra e Zurique) começaram a ganhar terreno. Nicholas Ridley (1500-1555), o "pequeno notável" do movimento da Reforma, parece ter adotado a Teologia Eucarística reformada, após ler uma obra do século IX de um monge chamado Ratramnus. Ele eventualmente convenceu Latimer e Cranmer de que a posição luterana acerca da Eucaristia estava incorreta, e o cenário estava pronto para a Reforma Eduardiana prosseguir segundo linhas moderadamente reformadas, e não mais luteranas.
A despeito de seu conservadorismo, e do favor de que goza com os atuais anglo-católicos, o Livro de Oração Comum (LOC) de 1549 foi cuidadosamente emoldurado em uma esturura teológica reformada. No entanto, Cranmer, que acreditava em conduzir as reformas gradualmente, estruturou a liturgia de uma forma que não chocaria demais os católicos henriquianos, e que ao mesmo tempo o mainstream luterano do partido reformista aceitaria de bom grado. É ponto pacífico que ele fez o trabalho um pouco bem demais, resultando em um longo debate com o bispo católico henriquiano Stephen Gardiner (1500-1555), que acreditava que a Eucaristia de 1549 dava margem a uma interpretação católica, e por outro lado foi duramente criticado por Martin Bucer, Regius Professor de Teologia em Cambridge, que lançou sua primeira Censura do LOC em 1550. Cranmer, que cada vez mais se identificava com a linha reformada, retornou à prancheta, modificando extensamente a ordem para o Culto com Santa Comunhão, e retirou muito do cerimonial que havia sobrado em 1549.
O LOC de 1552 marcou o ápice do pensamento reformado, no que tange à liturgia da Igreja da Inglaterra. Eduardo VI morreu depois de um ano, e a ascensão de Maria Tudor (1516-1558) tornou o ser protestante na Inglaterra um negócio perigoso, visto que ela formalmente restaurou o país à obediência a Roma. No entanto, a infeliz política mariana de queimar protestantes proeminentes, como Cranmer, Latimer, Ridley, Hooper, Taylor e vários outros membros importantes da hierarquia eduardiana, não caiu bem para o público em geral. Tivesse vivido mais tempo, a Rainha Maria I provavelmente teria sido bem-sucedida em devolver a Inglaterra aos apriscos romanos, ou, mais provavelmente, em lançar o país em uma guerra civil religiosa; mas, tendo morrido em 1558, ela deixou o país encalhado entre a velha e a nova religião.
Sua sucessora e meia-irmã, Isabel (ou Elizabeth, 1533-1603) foi educada por John Cheke, e ela teve Matthew Parker como Capelão em certa época. Ela, portanto, tendia ao protestantismo, embora fosse relativamente isenta das influências continentais, não tomando partido nem pelo luteranismo, nem pelo calvinismo. Matthew Parker (c. 1504-1575), seu escolhido para Arcebispo da Cantuária, era também o propositor de uma versão insular do protestantismo, relativamente livre das influências das disputas estrangeiras, conquanto plenamente ciente de tais questões. Sir William Cecil, seu principal conselheiro, também não era nenhum fã de modismos estrangeiros, embora se inclinasse, talvez, um pouco mais ao calvinismo do que a Rainha. Com estes três a cargo da política, o cenário estava montado para um consenso religioso moderado, "pan-protestante", que refletia a necessidade do Governo de reunir todas as três correntes do protestantismo inglês dentro da Igreja nacional. Isabel, Cecil e Parker, portanto, buscaram reunir luteranos, bucerianos e calvinistas dentro da Igreja nacional. Paradoxalmente, o que começou como uma questão de necessidade política acabou produzindo o que John Wesley descreveu como "a melhor igreja reformada da Cristandade".
No próximo artigo, nós examinaremos como isto se deu e por que é tão importante para os anglicanos continuantes preservar sua herança católica-reformada.
(tradução do artigo A Conservative Reformation, originalmente publicado no blog The Old Highchurchman, editado pelo Bispo P.D. Robinson, sufragâneo da United Episcopal Church dos Estados Unidos. A Sociedade pela Liturgia Reformada agradece a gentil autorização de D. Peter para traduzir e publicar esta série de artigos).

Tem havido um esforço bem coordenado, nos últimos 175 anos, por parte de uma facção da Igreja Anglicana, em negar a herança protestante do episcopalismo ortodoxo. Isto geralmente tem tomado a forma ou de uma tresleitura intencional dos Trinta e Nove Artigos de Religião (por exemplo, o Trato XC, de J. H. Newman), ou, mais recentemente, da negação pura e simples de que eles tenham qualquer relevância para a igreja moderna. Conquanto eu discorde fortemente dos argumentos contidos no Trato XC, é verdade que precisamos colocar os Artigos em seu contexto histórico, para podermos compreender plenamente o que o Arcebispo Matthew Parker e as Convocações de Cantuária e York estavam tentando fazer em 1563.
Teologicamente, os Reformadores protestantes se dividiram em três grupos. Para fins de argumentação, chamemo-nos de Biblicistas Conservadores, Biblicistas Moderados e Biblicistas Radicais. Os conservadores foram encabeçados por Lutero, e incluem outros grandes nomes como Melanchton, Bugenhagen, Olaus Petri e a maioria dos primeiros reformadores ingleses -- Barnes, Tyndale etc. Os moderados respondem pelos Reformadores da Suíça e do Reno, como Calvino, Bucer, Ecolampádio, Peter Martyr e Bullinger. O campo radical consiste de pessoas como Carlstadt e Miguel Serveto, que em última análise começaram a repensar até os Credos. O campo radical eventualmente se fechou em um canto e sobrevive hoje apenas em grupos biblicistas radicais como os Amish e os menonitas. Eles têm um primo distante no mainstream na forma das várias igrejas batistas, mas, em geral, sua tradição acabou se tornando bem marginal. Por outro lado, os biblicistas conservadores e moderados acabariam por formar o mainstream da Reforma européia.
O motivo disto é que as várias Igrejas estatais se encaixavam, grosso modo, em dois grupos. Os Biblicistas Conservadores conduziram seu próprio tipo de Reforma no norte da Alemanha e Escandinávia, dando a esses países uma herança evangélica luterana. Os suíços logo abandonaram algumas das posições mais extremadas de Zwínglio e conduziram uma Reforma mais moderada no quesito "somente a Bíblia" em seus cantões, que se disseminou para Estrasburgo, vários Estados da Renânia, norte da Holanda e Escócia. A Igreja inglesa se encaixou em algum lugar entre esses dois campos, conferindo alguma veracidade ao velho ditado de MacCauleuy sobre a Igreja da Inglaterra. Parafraseando-no para aproximá-lo à realidade, seria justo dizer que o Anglicanismo acabou ficando com "uma hierarquia católica, Artigos bucerianos e uma liturgia luterana". Por que isso?
Entre as décadas de 1530 e 1540, parecia que a Inglaterra eventualmente acabaria adotando uma forma conservadora de luteranismo, próxima à da Suécia. O Arcebispo Cranmer era luterano, bem como a maioria dos partidários influentes da Reforma até então. No entanto, por volta de 1545, idéias reformadas, vindas especialmente de Estrasburgo e da Renânia (e não diretamente de Genebra e Zurique) começaram a ganhar terreno. Nicholas Ridley (1500-1555), o "pequeno notável" do movimento da Reforma, parece ter adotado a Teologia Eucarística reformada, após ler uma obra do século IX de um monge chamado Ratramnus. Ele eventualmente convenceu Latimer e Cranmer de que a posição luterana acerca da Eucaristia estava incorreta, e o cenário estava pronto para a Reforma Eduardiana prosseguir segundo linhas moderadamente reformadas, e não mais luteranas.
A despeito de seu conservadorismo, e do favor de que goza com os atuais anglo-católicos, o Livro de Oração Comum (LOC) de 1549 foi cuidadosamente emoldurado em uma esturura teológica reformada. No entanto, Cranmer, que acreditava em conduzir as reformas gradualmente, estruturou a liturgia de uma forma que não chocaria demais os católicos henriquianos, e que ao mesmo tempo o mainstream luterano do partido reformista aceitaria de bom grado. É ponto pacífico que ele fez o trabalho um pouco bem demais, resultando em um longo debate com o bispo católico henriquiano Stephen Gardiner (1500-1555), que acreditava que a Eucaristia de 1549 dava margem a uma interpretação católica, e por outro lado foi duramente criticado por Martin Bucer, Regius Professor de Teologia em Cambridge, que lançou sua primeira Censura do LOC em 1550. Cranmer, que cada vez mais se identificava com a linha reformada, retornou à prancheta, modificando extensamente a ordem para o Culto com Santa Comunhão, e retirou muito do cerimonial que havia sobrado em 1549.
O LOC de 1552 marcou o ápice do pensamento reformado, no que tange à liturgia da Igreja da Inglaterra. Eduardo VI morreu depois de um ano, e a ascensão de Maria Tudor (1516-1558) tornou o ser protestante na Inglaterra um negócio perigoso, visto que ela formalmente restaurou o país à obediência a Roma. No entanto, a infeliz política mariana de queimar protestantes proeminentes, como Cranmer, Latimer, Ridley, Hooper, Taylor e vários outros membros importantes da hierarquia eduardiana, não caiu bem para o público em geral. Tivesse vivido mais tempo, a Rainha Maria I provavelmente teria sido bem-sucedida em devolver a Inglaterra aos apriscos romanos, ou, mais provavelmente, em lançar o país em uma guerra civil religiosa; mas, tendo morrido em 1558, ela deixou o país encalhado entre a velha e a nova religião.
Sua sucessora e meia-irmã, Isabel (ou Elizabeth, 1533-1603) foi educada por John Cheke, e ela teve Matthew Parker como Capelão em certa época. Ela, portanto, tendia ao protestantismo, embora fosse relativamente isenta das influências continentais, não tomando partido nem pelo luteranismo, nem pelo calvinismo. Matthew Parker (c. 1504-1575), seu escolhido para Arcebispo da Cantuária, era também o propositor de uma versão insular do protestantismo, relativamente livre das influências das disputas estrangeiras, conquanto plenamente ciente de tais questões. Sir William Cecil, seu principal conselheiro, também não era nenhum fã de modismos estrangeiros, embora se inclinasse, talvez, um pouco mais ao calvinismo do que a Rainha. Com estes três a cargo da política, o cenário estava montado para um consenso religioso moderado, "pan-protestante", que refletia a necessidade do Governo de reunir todas as três correntes do protestantismo inglês dentro da Igreja nacional. Isabel, Cecil e Parker, portanto, buscaram reunir luteranos, bucerianos e calvinistas dentro da Igreja nacional. Paradoxalmente, o que começou como uma questão de necessidade política acabou produzindo o que John Wesley descreveu como "a melhor igreja reformada da Cristandade".
No próximo artigo, nós examinaremos como isto se deu e por que é tão importante para os anglicanos continuantes preservar sua herança católica-reformada.
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